Disparidades raciais na fruição do direito à proteção integral de crianças e adolescentes no Brasil (2019-2021):uma abordagem jurídico-quantitativa
DOI:
https://doi.org/10.5020/2317-2150.2024.14873Palavras-chave:
direito e políticas públicas, métodos quantitativos, direito da infância e adolescência, racismo, análise posicionalResumo
O reconhecimento formal do direito à proteção integral de crianças e adolescentes pela Constituição e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) não implica a efetivação prática deste direito, nem tampouco que sua eficácia jurídica seja equitativa em termos raciais. O estudo objetiva conferir expressão quantitativa a disparidades raciais na fruição empírica do direito à proteção integral. O recorte temporal da pesquisa consiste nos anos de 2019 a 2021, e os dados são referidos ao Brasil. São consideradas variáveis correlatas a aspectos da proteção integral, como número de homicídios, letalidade policial, óbitos por causas evitáveis, baixo peso ao nascer, baixa renda domiciliar per capita e matrículas em creches e no ensino fundamental, com base em dados agregados disponibilizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Fundo das Nações Unidas para Infância (UNICEF), Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq), Fórum Brasileiro de Segurança Pública e Ministério da Saúde. A constatação principal é que a raça/cor da criança e do adolescente importaram para a fruição do direito à proteção integral no recorte analisado. A letalidade policial racialmente enviesada em relação a crianças e adolescentes negros foi o aspecto de maior deterioração no período analisado. A maior diminuição no viés racial verificado foi na incidência de crianças e adolescentes de até 14 anos com renda domiciliar per capita de até ¼ do salário mínimo que, no entanto, permanece com forte viés. Dentre as variáveis consideradas, somente não houve viés racial relevante em nascidos vivos com baixo peso ao nascer. As constatações desafiam os argumentos de que haveria uma infância/adolescência desracializada no Brasil e apontam para a necessidade de considerar explicitamente a raça ao projetar políticas públicas destinadas à infância e adolescência.
Downloads
Referências
ALMEIDA, S. L. de. Racismo estrutural. São Paulo: Pólen, 2019.
CASTRO, M. F. de. Análise jurídica da política econômica. In: CASTRO, Marcus Fauro de; FERREIRA, Hugo Luís Pena (ed.). Análise jurídica da política econômica: a efetividade dos direitos na economia global. Curitiba: CRV, 2018a. p. 109–148.
CASTRO, M. F. de. Direito, tributação e economia no Brasil: aportes da análise jurídica da política econômica. In: CASTRO, M. F. DE; FERREIRA, H. L. P. (ed.). Análise jurídica da política econômica: a efetividade dos direitos na economia global. Curitiba: CRV, 2018b. p. 373–394.
CASTRO, M. F. de. A dimensão econômica da efetividade dos direitos fundamentais. Revista Semestral de Direito Econômico, Porto Alegre, v. 1, n. 2, p. 1–37, jul./dez. 2021. DOI: https://doi.org/10.51696/resede.e01201
DESROSIÈRES, A. How to make things which hold together: social science, statistics and the state. In: WAGNER, P.; WITTROCK, B.; WHITLEY, R. (ed.). Discourses on society: the shaping of the social science disciplines. Dordrecht: Springer, 1990. p. 195–218.
DESROSIÈRES, A. Statistics and social critique. Partecipazione e Conflitto, [s. l.], v. 7, n. 2, p. 348–359, 2014. DOI: https://doi.org/10.1590/2179-8966/2022/69928
DIDIER, E.; BRUNO, I. O “estatativismo” como uso militante da quantificação. Sociologias, Porto Alegre, v. 23, n. 56, p. 82-109, jan./abr. 2021. DOI: https://doi.org/10.1590/15174522-105471
GOODHART, A. L. Roscoe Pound. Harvard Law Review, [s. l.], v. 78, n. 1, p. 23–37, 1964.
INSTITUO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Estimativas da População 2021: nota metodológica n. 01: estimativas da população residente para os municípios e para as unidades da federação brasileiras, com data de referência em 1° de julho de 2021. Rio de Janeiro: IBGE, 2021. Available at: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101849.pdf. Access at: 05 jun. 2023.
LIMA, F. da S. A proteção integral de crianças e adolescentes negros: um estudo do sistema de garantia de direitos para a promoção da igualdade racial no Brasil. 2010. Dissertação (Mestrado em Direito) – Programa de Pós-Graduação em Direito, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2010. Available at: http://repositorio.ufsc.br/xmlui/handle/123456789/93741. Access at: 05 jun. 2023.
LIMA, F. da S. Os direitos humanos e fundamentais de crianças e adolescentes negros à luz da proteção integral: limites e perspectivas das políticas públicas para a garantia de igualdade racial no Brasil. 2015. Tese (Doutorado em Direito) – Programa de Pós-Graduação em Direito, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2015. Availabe at: https://repositorio.ufsc.br/xmlui/handle/123456789/160670. Acess at: 05 jun. 2023.
SANTOS, R. O. dos; BARBIERI, A. F. Projeções populacionais em pequenas áreas: uma avaliação comparativa de técnicas de extrapolação matemática. Revista Brasileira de Estudos de População, Rio de Janeiro, v. 32, n. 1, p. 139–163, jan./abr. 2015. DOI: https://doi.org/10.1590/S0102-30982015000000008
VERONESE, J. R. P.; LIMA, F. da S. Direito da criança e do adolescente: a necessária efetivação dos direitos fundamentais. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2012. v. 5.
VERONESE, J. R. P. A proteção integral da criança e do adolescente no direito brasileiro. Revista do Tribunal Superior do Trabalho, Brasília, v. 79, n. 1, p. 38-54, jan./mar. 2013.
Downloads
Publicado
Como Citar
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2024 Hugo Luís Pena Ferreira, Jaira Rodrigues de Mello

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
Este artigo está licenciado sob Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0). É permitida a cópia, distribuição e adaptação, desde que a autoria e a fonte sejam devidamente creditadas.
Mais informações: https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/









