A persona digital e o Capitalismo de Vigilância: desafios contemporâneos à tutela dos direitos da personalidade no ciberespaço
DOI:
https://doi.org/10.5020/2317-2150.2025.15878Palavras-chave:
persona digital, direitos da personalidade, capitalismo de vigilância, privacidade, dados pessoais, ciberespaço, extimidadeResumo
A construção da persona digital nas plataformas digitais tem remodelado as noções tradicionais de privacidade, identidade e personalidade. O presente artigo analisa a forma como o sujeito contemporâneo projeta aspectos íntimos e comportamentais no ciberespaço, constituindo uma identidade digital que, embora intangível, é passível de apropriações indevidas e violações. A partir da Teoria do Capitalismo de Vigilância, são exploradas as práticas de coleta e manipulação de dados realizadas pelas Big Techs e seus impactos nos direitos da personalidade, especialmente o direito à privacidade, à imagem, à honra, aos dados pessoais e ao livre desenvolvimento da personalidade. Com base em pesquisa bibliográfica e abordagem dedutiva, evidencia-se que os dados pessoais — inclusive os compartilhados voluntariamente — tornam-se insumos para predição e manipulação comportamental, exigindo uma nova concepção de privacidade que contemple também a extimidade como dimensão protegida juridicamente. Os resultados da análise demonstram que legislações, como a LGPD e o GDPR, representam avanços significativos, mas ainda insuficientes para mitigar integralmente os efeitos da vigilância massiva sobre a dignidade humana. Defende-se, por fim, a ampliação normativa e interpretativa dos direitos da personalidade, reconhecendo a persona digital como extensão existencial da pessoa natural, cuja proteção deve ser integral, inclusive no pós-morte.
Downloads
Traduções deste artigo
Referências
AGAMBEN, G. Nudez. Belo Horizonte: Autêntica, 2014.
BARBOZA, H. H.; ALMEIDA, Vitor. Tecnologia, morte e Direito: em busca de uma compreensão sistemática da “Herança Digital”. In: TEIXEIRA, A. C. B.; LEAL, L. T. (coord.). Herança digital: controvérsias e alternativas. Indaiatuba: Foco, 2021. p. 3-22.
BAUMAN, Z. Danos colaterais: desigualdades sociais numa era global. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.
BITTAR, C. A. Os direitos da personalidade. São Paulo: Saraiva, 2014.
BOLESINA, I. O direito à extimidade: as inter-relações entre identidade, ciberespaço e privacidade. Florianópolis: Empório do Direito, 2018.
BRASIL. [Constituição (1998)]. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, [2023]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 02 set. 2024.
BRASIL. Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018. Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). Brasília, DF: Presidência da República, [2019]. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/lei/l13709.htm. Acesso em: 02 set. 2024.
CASSINO, J. F.; SOUZA, J.; SILVEIRA, S. A. Colonialismo de dados: como opera a trincheira algorítmica na guerra neoliberal. São Paulo: Autonomia Literária, 2021.
COULDRY, N.; MEJIAS, U. A. Data colonialism: rethinking big data’s relation to the contemporary subject. Television & New Media, [s. l.], v. 20, n. 4, p. 336–349, 2018. DOI: https://doi.org/10.1177/1527476418796632
DAVENPORT, T. H.; BECK, J. C. Economia da atenção. São Paulo: Editora Campus, 2001.
DIVINO, S. B. S. Critical considerations on artificial intelligence liability: e-personality propositions. Revista Eletrônica Direito e Sociedade, [s. l.], v. 8, n. 2, p. 193-213, 2020. DOI: https://doi.org/10.18316/redes.v8i2.5614
DONEDA, Danilo. Da privacidade à proteção de dados pessoais. Rio de Janeiro: Renovar, 2010.
FORNASIER, M. de O.; KNEBEL, N. M. P. Regulação by design, lex informati-ca e o Direito como metatecnologia para os resultados tendenciosos sob o sistema de recomendação de bens culturais imateriais. Duc in Altum - Cadernos de Direito, [s. l.], v. 12, n. 28, p. 309-346, 2021. DOI: https://doi.org/10.22293/2179-507x.v12i28.1435
GONÇALVES, D. C. Pessoa e direitos da personalidade: fundamentação ontológica da tutela. Coimbra: Almedina Brasil, 2008.
LOHR, S. Data-ism: inside the big data revolution. London: OneWorld, 2015.
MACHADO, R. de J. “Eu digital”: identidade e audiovisualidades na web. In: FLICHY, P.; FERREIRA, J.; AMARAL, A. (org.). Redes digitais: um mundo para os amadores. Novas relações entre mediadores, mediações e midiatizações. Santa Maria: FACOS-UFSM, 2016. p. 97-120. Disponível em: https://www.ufsm.br/editoras/facos/redes-digitais/. Acesso em: 02 set. 2024.
MAGRANI, E. A internet das coisas. Rio de Janeiro: FGV, 2018.
MARACCINI, G. Bebês reborn: entenda o que são e por que chamam atenção. CNN Brasil, 16 maio 2025. CNN pop. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/lifestyle/bebes-reborn-entenda-o-que-sao-e-por-que-chamam-atencao/. Acesso em: 02 set. 2024.
MIRANDA, F. A. O direito fundamental ao livre desenvolvimento da personalidade. Revista do Instituto do Direito Brasileiro, [s. l.], v. 2, n. 10, p. 11175–11211, 2013. Disponível em: https://www.cidp.pt/revistas/ridb/2013/10/2013_10_11175_11211.pdf. Acesso em: 10 jan. 2025.
MOURA, M. B. de S. As disposições preliminares da LGPD. In: FEIGELSON, B.; SIQUEIRA, A. H. A. (org.). Comentários à Lei Geral de Proteção de Dados: lei 13.709/2018. São Paulo: Thomson Reuters, 2021. p. 6-19.
RIBEIRO, W. C. As modernas relações entre direito civil e direito constitucional: a tutela da pessoa em foco. Pensar – Revista de Ciências Jurídicas, Fortaleza, v. 19, n. 3, p. 859-886, set./dez. 2014. Disponível em: https://ojs.unifor.br/rpen/article/view/2877/pdf. Acesso em: 19 maio 2025.
RODOTÀ, S. Transformações do corpo. Revista Trimestral de Direito Civil, Rio de Janeiro, v. 5, n. 19, p. 65–107, jul./set. 2004.
RODOTÀ, S. Pós-humano. Revista Brasileira de Direito Civil, [s. l.], v. 27, n. 1, p. 113–144, jan./mar. 2021. Disponível em: https://rbdcivil.ibdcivil.org.br/rbdc/article/view/712. Acesso em: 06 jun. 2024.
RODOTÀ, S. Palestra Professor Stefano Rodotà. In: GLOBALIZAÇÃO E O DIREITO, 2003, Rio de Janeiro. Anais eletrônicos [...]. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro; Procuradoria Geral do Município, 2003. p. 1-11. Disponível em: chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://www.rio.rj.gov.br/dlstatic/10112/151613/DLFE-4314.pdf/GlobalizacaoeoDireito.pdf. Acesso em: 06 jun. 2024.
RUARO, R. L; SARLET, G. B. S. O direito fundamental à proteção de dados sensíveis no sistema normativo brasileiro: uma análise acerca das hipóteses de tratamento e da obrigatoriedade do consentimento livre, esclarecido e informado sob o enfoque da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) – Lei 13.709/2018. In: MENDES, L. S.; DONEDA, D.; SARLET, I. W.; RODRIGUES JÚNIOR, O. L. (coord.). Tratado de proteção de dados pessoais. Rio de Janeiro: Forense, 2020. p. 177-191.
SALDANHA, R. R. A quarta expressão dos direitos da personalidade e o conjunto informativo digital como uma nova classificação da personalidade na sociedade da informação. 2022. 325f. Tese (Doutorado em Ciências Jurídicas) – Programa de Pós-Graduação em Ciências Jurídicas, Universidade Cesumar, Maringá, Paraná, 2022.
SCHREIBER, A. Direito civil e constituição. São Paulo: Atlas, 2013.
SESSAREGO, C. F. Derecho a la identidad personal. Buenos Aires: Astrea, 1992.
SIBILIA, Paula. O Show do Eu: A Intimidade Como Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2020.
SKINNER, Burrhus Frederic. Sobre o Behaviorismo. Tradução Maria da Penha Villalobos. São Paulo: Cultrix, 2003.
SRNICEK, N. Platform capitalism (theory redux). New Jersey: John Wiley & Sons, 2017.
TEPEDINO, Gustavo; NEVARES, Ana Luiza M.; MEIRELES, Rose Melo V. Fundamentos do Direito Civil: Direito das Sucessões. São Paulo: Grupo Gen, 2022. v.7.
VAN DIJCK, J. Datafication, dataism and dataveillance: big data between scientific paradigm and ideology. Surveillance & Society, [s. l.], v. 12, n. 2, p. 197-208, 2014. DOI: https://doi.org/10.24908/ss.v12i2.4776
VAN DIJCK, J. Confiamos nos dados? as implicações da datificação para o monitoramento social. Matrizes, São Paulo, v. 11, n. 1, p. 39-59, 2017. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.1982-8160.v11i1p39-59
WENDT, E. Internet: percepções e limites em face do direito à extimidade na rede. Revista Jurídica Luso-Brasileira, [s. l.], n. 6, p. 297-318, 2015. Disponível em: https://www.cidp.pt/revistas/rjlb/2015/6/2015_06_0297_0318.pdf. Acesso em: 05 jun. 2025.
ZUBOFF, S. A era do capitalismo de vigilância. São Paulo: Intrínseca, 2021.
Downloads
Publicado
Como Citar
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2025 Jaqueline da Silva Paulichi

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
Este artigo está licenciado sob Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0). É permitida a cópia, distribuição e adaptação, desde que a autoria e a fonte sejam devidamente creditadas.
Mais informações: https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/









