“Dois espaços vazios na mesa, que ninguém vai ocupar”: Perdas sequenciais de familiares por COVID-19

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5020/23590777.rs.v25i2.e15506

Palavras-chave:

luto, morte, família, COVID-19

Resumo

Uma particularidade da pandemia consistiu nas perdas sequenciais de familiares por COVID-19. Embora as mortes de pessoas significativas não sejam necessariamente eventos destrutivos, experienciá-las em rápida sucessão (i.e., óbito de dois ou mais familiares, em prazo relativamente curto) pode dificultar as estratégias de enfrentamento adaptativas, associando-se ao luto complicado. Diante do exposto, o objetivo do presente estudo de caso múltiplo, qualitativo e transversal foi investigar o processo de perdas sequenciais de familiares por COVID-19. A coleta de dados ocorreu por meio de entrevistas individuais com quatro mulheres residentes em diferentes regiões do Brasil, cada uma delas tendo perdido dois familiares por COVID-19. Realizou-se análise temática indutiva, com a construção de três temas: contexto das múltiplas mortes; rituais de despedida e cerimônias funerárias; e, processos de luto pelas perdas sequenciais. O contexto das múltiplas mortes perpassou a infecção simultânea de familiares, hospitalizações concomitantes e óbitos sequenciais, que geraram sobrecarga emocional, solidão e necessidade de rápida reorganização familiar. A modificação ou a impossibilidade de realização de rituais de despedida e cerimônias funerárias se associou ao sentimento de frustração, culpa e angústia, mas também levou à adaptação, com o uso de tecnologias e homenagens póstumas. Quanto aos processos de luto pelas perdas sequenciais, constatou-se que a multiplicidade de estressores da pandemia juntamente à fragilização do apoio social pareceram intensificar o sofrimento. Os achados deste estudo podem contribuir para a compreensão de diferentes contextos marcados por óbitos múltiplos na rede socioafetiva, a exemplo de outras emergências de saúde pública e desastres.

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Biografia do Autor

Alice Monte Negro de Paiva, Universidade Federal do Rio Grande, Rio Grande, Rio Grande do Sul, Brasil

Graduada e mestre em Psicologia, especialista em Abordagem Multidisciplinar em Dependência Química pela Universidade Federal de Rio Grande (FURG). Especialista em Terapia Sistêmica Individual, Casal e Família pelo Centro de Estudos da Família e do Indivíduo (CEFI/POA). Possui interesse em temáticas relacionadas a saúde mental de indivíduos e famílias, a perdas, lutos e resiliência.

Tyele Goulart Peres dos Santos, Universidade Federal do Rio Grande, Rio Grande, Rio Grande do Sul, Brasil

Doutora em Ciências da Saúde e Mestre em Saúde Pública pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG), com período sanduíche no College of Education and Human Sciences(University of Nebraska-Lincoln, Estados Unidos). Possui formação complementar em Saúde Pública no Harvard-Brazil Collaborative Public Health Field Course, desenvolvido pela Harvard T.H. Chan e pela Universidade Federal do Ceará. Graduada em psicologia pela Faculdade Anhanguera e Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental pela Faculdade Dom Bosco. Realiza estudos sobre saúde mental e eventos estressores, especialmente relacionados a perdas, luto, trauma e resiliência.

Lucyanna Cardozo de Souza Correa Pereira, Universidade Federal do Rio Grande, Rio Grande, Rio Grande do Sul, Brasil

Graduanda em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Bolsista de Iniciação Científica no projeto PLRCOVID “Perda, Luto e Resiliência na Pandemia de COVID-19: Um Estudo Qualitativo”. Possui interesse em temáticas relacionadas a Eventos estressores (emergências e desastres) e suas implicações na saúde mental de indivíduos e famílias, com foco em perdas, processo de luto e resiliência.

Letícia Macedo Gabarra, Hospital Universitário Polydoro Ernani de São Thiago, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil

Mestre e Doutora em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Graduada em Psicologia e especialista em Psicologia Hospitalar pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP). Tutora da Residencia Multiprofissional em Saúde do HU-UFSC, com ênfase em Alta Complexidade. Psicóloga no Hospital Universitário Polydoro Ernani de São Thiago.Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Psicologia da Saúde e Hospitalar.

Daniela Barsotti Santos, Universidade Federal do Rio Grande, Rio Grande, Rio Grande do Sul, Brasil

Pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP). Mestre em Psicologia e Doutora em Enfermagem pela Universidade de São Paulo (USP) com período sanduíche no Centre de Recherche en Epidémiologie et Santé des Populations, na França. Graduação em Psicologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP). Professora adjunta no Instituto de Ciências Humanas e da Informação na Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Coordenadora do grupo de pesquisa VIVAZ- Interfaces em Psicologia e Saúde. Membro do GT 63- Psicologia, Política e Sexualidades da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia (ANPEPP). Tem experiência na área de Psicologia com ênfase em Psicologia Social, Saúde Coletiva e Psicologia da Saúde, atuando principalmente nos seguintes temas: Sexualidade, Gênero, Processo saúde-doença e Promoção da Saúde.

Beatriz Schmidt, Universidade Federal do Rio Grande, Rio Grande, Rio Grande do Sul, Brasil

Pós-Doutorado em Psicologia pela Ohio State University (OSU, Estados Unidos) e pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Doutora em Psicologia pela UFRGS, com período sanduíche no Human Development and Family Science Program (OSU). Psicóloga, Especialista em Saúde da Família e Mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Professora no Curso de Psicologia e no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Realiza estudos sobre temas atinentes ao desenvolvimento humano e às relações familiares em contextos de saúde, com ênfase a eventos estressores predizíveis e impredizíveis no ciclo vital.

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Publicado

13.09.2025

Como Citar

Paiva, A. M. N. de, Santos, T. G. P. dos, Pereira, L. C. de S. C., Gabarra, L. M., Santos, D. B., & Schmidt, B. (2025). “Dois espaços vazios na mesa, que ninguém vai ocupar”: Perdas sequenciais de familiares por COVID-19. Revista Subjetividades, 25(2), 1–15. https://doi.org/10.5020/23590777.rs.v25i2.e15506

Edição

Seção

Relatos de Pesquisa