“Cura” pentecostal e neopentecostal: Experiências de lésbicas, gays e bissexuais no norte do Brasil
DOI:
https://doi.org/10.5020/23590777.rs.v25i2.e15006Palavras-chave:
sexualidade, religião, cura gay, evangélicos, PsicologiaResumo
“Cura gay” é como ficou popularmente conhecido o Projeto de Decreto Legislativo (PDC) 234/11, que buscava sustar trechos da Resolução 01/99 do Conselho Federal de Psicologia (CFP), a qual veda aos/às psicólogos/as a oferta de “tratamentos” ou “cura” para as homossexualidades. Apesar das contestações, a Resolução continua em vigor e o CFP permanece fazendo publicações em defesa da diversidade sexual e de gênero. Mesmo com a proibição de terapias de reorientação sexual, essas práticas ainda ocorrem no Brasil por meio de conversões religiosas, com destaque para as igrejas evangélicas pentecostais e neopentecostais. A esse fenômeno, denominamos “cura gay” religiosa, e, através de um estudo qualitativo, descritivo e exploratório, investigamos como essa prática se apresenta no Norte do Brasil. Buscamos compreender os desfechos e efeitos emergentes nas experiências narradas por oito jovens autoidentificados como lésbicas, gays ou bissexuais. Inspiramo-nos nos pressupostos de Michel Foucault (2004, 2014) sobre o dispositivo da sexualidade e subjetivação e, por meio da Análise Temática de Braun e Clarke (2006), foram construídas cinco dimensões centrais de discussão: construção de verdades, produção de sexualidade, tentativas de cura, resistências e efeitos na saúde mental. Os resultados revelaram estruturas institucionais e relações de poder que reforçam uma heterossexualidade compulsória e reverberam negativamente na saúde mental e no processo de construção de si, indicando a importância de que profissionais estejam atentos/as às diferentes formas de produção das sexualidades ao longo da história e às implicações éticas e políticas envolvidas na atuação diante das existências dissidentes.
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