O olhar de médicas(os) obstetras sobre a relação com pacientes e familiares
DOI:
https://doi.org/10.5020/23590777.rs.v25i1.e14534Palavras-chave:
trabalhadores da saúde, obstetrícia, Medicina, Psicologia, trabalhoResumo
A obstetrícia faz parte de um evento social, cultural e histórico de grande estima para a sociedade: o nascimento. Dessa maneira, os profissionais que atuam nesta área vivenciam uma pressão constante por bons resultados. Soma-se isso ao contexto brasileiro, marcado por diversas dificuldades no atendimento ao parto, no âmbito da assistência pública à saúde, o que traz implicações nas relações interpessoais, que são estabelecidas entre a médica(o) obstetra e as usuárias dos seus serviços. Dito isto, este artigo objetiva compreender o ponto de vista de médicas e médicos sobre a relação obstetra-gestante e seus familiares e acompanhantes no Serviço Único de Saúde. Utilizou-se como instrumento de coleta de dados um roteiro de entrevista semiestruturado, que foi analisado pela perspectiva da análise de conteúdo temática, com o aporte teórico da psicodinâmica do trabalho. A partir deste estudo, foi possível observar a existência de sobrecarga, devido às condições precárias de trabalho na assistência pública à saúde, sendo esta uma das razões pelas quais a relação médica-paciente é prejudicada. À vista disso, possibilitou-se verificar que a relação médica com as gestantes, familiares e acompanhantes apresenta ambivalência: ora difícil, conflituosa e violenta; ora tranquila, prazerosa e com reconhecimento, estabelecendo, conforme a psicodinâmica do trabalho, ganhos para a identidade profissional e para a saúde mental.
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