Perfil Sociodemográfico e Rede de Apoio das Adolescentes em Situação de Rua

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5020/23590777.rs.v22i1.e11824

Palavras-chave:

jovens em situação de rua, gênero, apoio social, qualitativo

Resumo

Este estudo teve como objetivo descrever a trajetória de vida e a rede de apoio de nove adolescentes do sexo feminino em situação de rua. Especificamente, (a) caracterizou-se o perfil sociodemográfico e econômico; (b) a experiência de vida na rua; e (c) a rede de apoio das participantes, identificando os recursos e vulnerabilidades nos contextos da família, escola, amigos, instituição e rua. Essas questões foram acessadas por meio de uma entrevista estruturada sobre a história de vida e relacionamentos com a rede de apoio das adolescentes, a qual foi respondida individualmente nos serviços de proteção onde foram recrutadas. Utilizaram- se estatísticas descritivas de frequência absoluta e porcentagem para analisar os dados de caracterização da população e a abordagem de estudo de casos múltiplos para analisar as narrativas de história de vida e relações com a rede de apoio. Os resultados mostraram que as adolescentes (13-18 anos) eram pardas ou negras, inseridas nas escolas, mesmo embora apresentassem defasagem escolar e histórico de institucionalização. Nas famílias, vivenciaram dificuldades financeiras, conflitos e sofreram violência física, psicológica e sexual. Condições estas que foram relacionadas ao apoio recebido dos seus amigos, que lhes oferecem suporte financeiro e emocional, ajudando-as a superar as adversidades. Assim, embora sejam espaços onde as adolescentes podem angariar recursos, a escola, a instituição e, de forma alternativa, a rua foram retratadas pelo preconceito, discriminação e violência. Frente ao amplo contexto de vulnerabilidade e suas implicações, torna-se necessário investir em programas e intervenções específicos para as necessidades das adolescentes em situação de rua. Em especial, com foco na garantia de acesso à educação e um melhor atendimento baseado em ações não julgadoras que promovam cuidado e apoio psicossocial. Destaca-se, portanto, a importância do fortalecimento dos vínculos com a rede de apoio no processo de enfrentamento da situação de rua.

Biografia do Autor

Rebeca Fernandes Ferreira Lima, Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)

Psicóloga, mestre e doutora pela Universidade de Fortaleza (Unifor). Estágio pós-doutoral na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

Letícia Sant’Ana Herzog, Universidade Federal do Espíripo Santo

Graduanda em psicologia na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

Edinete Maria Rosa, Universidade Federal do Espíripo Santo (UFES)

Psicóloga e mestre em psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), doutora em psicologia social pela Universidade de São Paulo (USP). Estágio pós-doutoral na Universidade da Carolina do Norte. Professora titular da UFES.

Referências

Allais, F. B. (2009). Assessing the gender gap: Evidence from SIMPOC surveys.Geneva: ILO.

Booth, C. L., Rubin, K. H., & Rose-Krasnor, L. (1998). Perceptions of emotional support from mother and friend in middle childhood: Links with social-emotional adaptation and preschool attachment security. Child Development, 69(2), 427-442. DOI: 10.1111/j.1467-8624.1998.tb06200.x

Brasil. (2017). Diretrizes nacionais para o atendimento a crianças e adolescentes em situação de rua. Brasília: Conanda; SNDCA/MDH; CNER.

Bronfenbrenner, U., & Morris, P. A. (2006). The bioecological model of human development. In W. Damon & R. M. Lerner, Handbook of child psychology: Theoretical models of human development (pp. 793-828). New York: John Wiley & Sons.

Cénat, J. M., Derivois, D., Hébert, M., Amédée, L. M., & Karray, A. (2018). Multiple traumas and resilience among street children in Haiti: Psychopathology of survival. Child Abuse Neglect, 79, 85-97. DOI: 10.1016/j.chiabu.2018.01.024

Cerqueira-Santos, E., Koller, S. H., Pilz, C., Dias, D. D., & Wagner, F. (2006). Concepções de policiais sobre crianças em situação de rua: Um estudo sobre preconceito. PsicoUSF, 11(2), 249-256. DOI: 10.1590/S1413-82712006000200013

Castaños, C. S., & Sánchez, S. J. J. (2015). Niñas y adolescentes en riesgo de calle: Bienestar subjetivo y salud mental. Revista CES Psicología, 8(1), 120-133.

Chavis, D. M., Hogge, J. H., McMillan, D. W., &Wandersman, A. (1986). Sense of community through Brunswik’s lens: A first look. Journal of Community Psychology, 14(1), 24-40. DOI: 10.1002/1520-6629(198601)14:1<24::AID-JCOP2290140104>3.0.CO;2-P

Dutra-Thomé, L., Leme, V. B. R., Pereira, A. S., Dias, A. C. G., Koller, S. H., & Albuquerque, E. S. G. (2017). Fatores protetivos e de risco na transição para a vida adulta nas cinco regiões brasileiras. Avances en Psicología Latinoamericana, 35(3),485-499. DOI: 10.12804/revistas.urosario.edu.co/apl/a.4525

Embleton, L., Lee, H., Gunn, J., Ayuku, D., & Braitstein, P. (2016). Causes of child and youth homelessness in developed and developing countries: A systematic review and meta-analysis. JAMA Pediatrics, 170(5), 435-444. DOI: 10.1001/jamapediatrics.2016.0156

Embleton, L., Di Ruggiero, E., Logie, C. H., Ayuku, D., & Braitstein, P. (2020). Piloting an evidence-based intervention for HIV prevention among street youth in Eldoret, Kenya. International Journal of Public Health, 65, 433-443. DOI: 10.1007/s00038-020-01349-8

Gauvin, G., Labelle, R., Daigle, M., Breton, J. J., & Houle, J. (2019). Coping, social support, and suicide attempts among homeless adolescents. Crisis, 40(6), 390-399. DOI: 10.1027/0227-5910/a000579

Gallo, A. E., & Williams, L. C. A. (2008). A escola como fator de proteção à conduta infracional de adolescentes.Cadernos de Pesquisa, 38(133), 41-59. DOI: 10.1590/S0100-15742008000100003

Gomes, L., & Brito, J. (2006). Desafios e possibilidades ao trabalho docente e à sua relação com a saúde. Estudos e Pesquisas em Psicologia, 6(1), 49-62. Link

Gomes, R. (2011). Pesquisa do CONANDA aborda crianças em situação de rua. Direitos da criança: Portal dos direitos da criança e do adolescente. Link

Heerde, J. A., &Hemphill, S. A. (2017). The role of risk and protective factors in the modification of risk for sexual victimization, sexual risk behaviors, and survival sex among homeless youth: A meta‐analysis. Journal of Investigative Psychology and Offender Profiling, 14(2), 150-174. DOI: 10.1002/jip.1473

Joly, L. E., & Connolly, J. (2019). It can be beautiful or destructive: Street-involved youth’s perceptions of their romantic relationships and resilience. Journal of Adolescence, 70, 43-52. DOI: 10.1016/j.adolescence.2018.11.006

Kaloustian, S. M., & Ferrari, M. (1994). Introdução. In S. M. Kaloustian (Org.), Família brasileira: A base de tudo (pp. 11-15). São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNICEF.

Kebede, S. K. (2015). The situation of street children in urban centers of Ethiopia and the role of NGO in addressing their socio-economic problems: The case of Hawassa city. International Journal of Academic Research in Education and Review, 3(3), 45-57. Link

Laible, D. J., Carlo, G., & Raffaelli, M. (2000). The differential relations of parent and peer attachment to adolescent adjustment. Journalof Youth and Adolescence, 29(1), p. 45-59. DOI: 10.1023/A:1005169004882

Lei n. 10.097 de 19 de dezembro de 2000. Altera dispositivos da Consolidação das Leis do Trabalho – CLT, aprovada pelo Decreto-Lei no 5.452, de 1o de maio de 1943. Diário Oficial da União, Brasília.

Lei n. 13.509 de 22 de novembro de 2017. Dispõe sobre adoção e altera a Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente), a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), aprovada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943, e a Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Diário Oficial da União, Brasília.

Lima, J. G. S. A., & Câmara, H. M. S. (2009). Apagando as fogueiras das vaidades intelectuais: Reflexões sobre a relação professor-aluno no Ensino Superior. Link

Lima, R. F. F., & Morais, N. A. (2016). Caracterização qualitativa do bem-estar subjetivo de crianças e adolescentes em situação de rua.Temas em Psicologia, 24(1), 1-15. DOI: 10.9788/TP2016.1-01

Lima, R. F. F., & Morais, N. A. (2018). Bem-estar subjetivo de crianças e adolescentes: Revisão integrativa.Ciências Psicológicas, 12(2), 249-260. DOI: 10.22235/cp.v12i2.1689

Lima, R. F. F., & Morais, N. A. (2019). Subjective well-being trajectories of street-involved youth: Considerations of a longitudinal study. Trends in Psychology, 27(4), 909-923. Link

Lima, R. F. F., Raffaelli, M., Morais, N. A., Santana, J. P., Nieto, C. J., & Koller, S. H. (2020). Trajectories of adjustment in a Brazilian sample of street-involved youth. Child Development, 91(4), 1237-1253. DOI: 10.1111/cdev.13300

Ministério da Cidadania. (2015a). Centro de Referência Especializado de Assistência Social - Creas. Brasília, DF: Secretaria Especial do Desenvolvimento Social.

Ministério da Cidadania. (2015b). Serviços de Acolhimento para Crianças, Adolescentes e Jovens. Brasília, DF: Secretaria Especial do Desenvolvimento Social.

Montero, M. (2004).Introducción a lapsicologíacomunitaria: Desarrollo, conceptos y procesos. Buenos Aires: Paidós.

Morais, N. A., Koller, S. H., & Raffaelli, M. (2010). Eventos estressores e indicadores de ajustamento entre adolescentes em situação de vulnerabilidade social no Brasil.Universitas Psychologica, 9(3), 787-806.

Morais, N. A., Koller, S. H., & Raffaelli, M. (2012). Rede de apoio, eventos estressores e mau ajustamento na vida de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social. UniversitasPsychologica, 11(3), 779-791.

Morais, N. A., Neiva-Silva, L., & Koller, S. H. (2010). Crianças e adolescentes em situação de rua: História, caracterização e modo de vida. In N. A. Morais, L. Neiva-Silva, & S.H. Koller (Eds.), Endereço desconhecido: Crianças e adolescentes em situação de rua (pp. 35-61). São Paulo: Casa do Psicólogo.

Oppong Asante, K. (2019). Factors that promote resilience in homeless children and adolescents in Ghana: A qualitative study. Behavioral Sciences, 9(6), 64. DOI: 10.3390/bs9060064

Organização das Nações Unidas (ONU). (2019). Situação da População Mundial 2019: Um Trabalho Inacabado: A busca por direitos e escolhas para todos e todas. Recuperado de https://brazil.unfpa.org/pt-br/topics/swop2019

Penna, L. H. G., Carinhanha, J. I., & Rodrigues, R. F. (2010). Violência vivenciada pelas adolescentes em situação de rua na ótica dos profissionais cuidadores do abrigo. Revista Eletrônica de Enfermagem, 12(2), 301-307. DOI: 10.5216/ree.v12i2.5895

Penna, L. H. G., Carinhanha, J. I., Ribeiro, L. V., Graça, H. M. V., & Marques, C. S. (2017). Perfil sociodemográfico da adolescente em situação de rua: Análise das condições socioculturais. Revista Enfermagem UERJ, 25(e29603), 1-7. DOI: 10.12957/reuerj.2017.29603

Piazzarollo, D. C. G. Fernandes, L. R., & Rosa, E. M. (2018). Trajetórias escolares de adolescentes em conflito com a lei: Permanência e evasão escolar. Pesquisas e Práticas Psicossociais, 13(3), 1-15.

Raffaelli, M., Santana, J. P., Morais, N. A., Nieto, C. J., & Koller, S. H. (2018). Adverse childhood experiences and adjustment: A longitudinal study of street-involved youth in Brazil. Child Abuse Neglect, 85, 91-100. DOI: 10.1016/j.chiabu.2018.07.032

Rizzini, I., & Couto, R. M. B. (2018). Maternidade adolescente no contexto das ruas. DESIDADES: Revista Electrónica de Divulgación Científica de la Infancia y la Juventud, 19, 9-19.

Rizzini, I., & Couto, R. M. B. (2019). População infantil e adolescente nas ruas: Principais temas de pesquisa no Brasil.Civitas, 19(1), 105-122. DOI: 10.15448/1984-7289.2019.1.30867

Secretaria da Saúde. (2019). Guia intersetorial de prevenção do comportamento suicida em crianças e adolescentes. Porto Alegre, RS: Comitê Estadual de Promoção da Vida e Prevenção do Suicídio do Estado do Rio Grande do Sul.

Sharma, D., & Verma, S. (2013). Street girls and their fight for survival across four developing countries. PsychologicalStudies, 58(4), 365-373. DOI: 10.1007/s12646-013-0226-6

Souza, C., & Paiva, I. L. (2012). Faces da juventude brasileira: Entre o ideal e o real.Estudos de Psicologia, 17(3), 353-360. DOI: 10.1590/S1413-294X2012000300002

Vieno, A., Lenzi, M., Santinello, M., & Sacchi, L. (2013). Sense of community, unfairness, and psychosomatic symptoms: A multilevel analysis of Italian schools. Journal of Adolescent Health, 53(1), 142-145. DOI: 10.1016/j.jadohealth.2013.02.019

Yin, R. K. (2015). Estudo de caso: Planejamento e métodos (5a ed.). Porto Alegre: Bookman.

Downloads

Publicado

29.04.2022

Edição

Seção

Relatos de Pesquisa

Artigos mais lidos pelo mesmo(s) autor(es)