A Narrativa Interativa Devolutiva no Diálogo com os Profissionais de um CAPSi

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5020/23590777.rs.v25i3.e15092

Palavras-chave:

adolescente, serviços de saúde mental, narrativa, psicanálise, intervenção psicossocial

Resumo

Este trabalho tem como objetivo apresentar uma proposta interventiva com equipes de profissionais da saúde a partir de uma pesquisa psicanalítica sobre o imaginário coletivo de profissionais de um Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi) sobre o sofrimento adolescente. A identificação da demanda profissional por acolhimento, escuta qualificada, capacitação e reflexão clínica nos levou a elaborar uma nova modalidade de entrevista devolutiva para os participantes do estudo. Finalizados os encontros de pesquisa, propusemos uma entrevista coletiva com a equipe de profissionais com o objetivo de compartilhar nossos achados. Determinadas a oferecer aos participantes uma nova experiência de escuta, e não a mera comunicação de resultados, criamos uma Narrativa Interativa Devolutiva (NID) como recurso dialógico desenvolvido a partir de suas próprias produções imaginativas sobre o futuro dos adolescentes atendidos. Como recurso interativo, a NID é uma história ficcional inacabada cuja apresentação visa convidar o participante a acrescentar-lhe um desfecho e iniciar uma reflexão sobre o tema do qual a NID trata. Ficou evidente como o uso da NID favoreceu a emergência de sentimentos velados, tais como o difícil equilíbrio entre esperança e desesperança naquele contexto de precariedade, oportunizando reflexões sobre suas práticas e sobre os desafios de cuidar de adolescentes em situação de vulnerabilidade social. Além da percepção do cuidado que as pesquisadoras lhes endereçavam, a partir da construção de uma NID como metáfora do vivenciavam, a equipe reconheceu naquela modalidade de encontro uma possibilidade de sustentação emocional do profissional no cuidado em saúde mental pública.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Traduções deste artigo

Biografia do Autor

Tomíris Forner Barcelos, Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Campinas, São Paulo, Brasil

Docente do curso de graduação em Psicologia da PUC-Campinas. Doutora pelo Grupo de Pesquisa "Atenção Psicológica Clínica em Instituições: Prevenção e Intervenção" na PUC-Campinas, com período de doutorado sanduíche na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra (Portugal). Mestre em Psicologia Clínica pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da Universidade de São Paulo. Graduada em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

Tania Mara Marques Granato, Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Campinas, São Paulo, Brasil

Graduada em Psicologia pela Universidade de São Paulo (1980), Mestra em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (2000) e Doutora em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (2004) com pós-doutorado desenvolvido na Pontifícia Universidade Católica de Campinas e financiado pela FAPESP (2008-2010). Atualmente é docente e orientadora do programa de Pós-Graduação em Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

Referências

Aiello-Vaisberg, T. M. J. (1999). Encontro com a loucura: Transicionalidade e ensino de psicopatologia [Tese de Livre-Docência, Universidade de São Paulo]. Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP. https://doi.org/10.11606/T.47.2006.tde-24022006-090139

Aiello-Vaisberg, T. M. J., Machado, M. C. L., Ayouch, T., Caron, R., & Beaune, D. (2009). Les récits transferenciels comme presentation du vécu clínique: Une proposition méthodológique. In D. Beaune (Org.), Psychanalyse, Philosophie et Art: Dialogues (pp. 39-52). L´Harmattan.

Amarante, P. (Coord.). (1995). Loucos pela vida: A trajetória da reforma psiquiátrica no Brasil. Fiocruz.

Amarante, P. (2017). Teoria e crítica em saúde mental: Textos selecionados. Zagodoni

Amarante, P. (Org.). (2022). Loucura e transformação social: Autobiografia da Reforma Psiquiátrica no Brasil. Zagodoni.

Aragão, F. B. G., Sousa, J. M., Moreira, E. S., Vale, R. R. M., Caixeta, M. H. C., & Caixeta, C. C. (2021). Automutilação na adolescência: Fragilidades do cuidado na perspectiva de profissionais de saúde mental. Enfermagem em Foco, 12(4), 688-694.

Ayouch, T. (2021). Psicanálise e hibridez: Gênero, colonialidade, subjetivações. Calligraphie.

Benjamin, W. (1992). Sobre arte, técnica, linguagem e política (pp. 27-57). Relógio D'Água. (Trabalho original publicado em 1936).

Bleger, J. (2007). Psicologia da conduta. Artes Médicas. (Trabalho original publicado em 1963).

Bruner, J. (2004). Life as narrative. Social Research, 54(1), 691-710. https://www.jstor.org/stable/40970444

Bustamante, V., & Onocko-Campos, R. (2022). Processo de trabalho e sofrimento institucional em Centros de Atenção Psicossocial Infanto-juvenis (Capsi): Uma pesquisa-intervenção junto a trabalhadores. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, 25(2), 429–452. https://doi.org/10.1590/1415-4714.2022v25n2p429.9

Carias, A. R. (2022). Imaginário coletivo de profissionais do CAPS AD sobre o cuidado a familiares de pessoas que fazem uso dependente de álcool [Tese de Doutorado, Pontifícia Universidade Católica de Campinas]. Repositório da PUC-Campinas. https://repositorio.sis.puc-campinas.edu.br/xmlui/handle/123456789/16726

Chrusciel, N., & Torres, S. (2022). Supervisão institucional como dispositivo de humanização dos trabalhadores nas políticas públicas. In S. D. Torrosiam, & J. Damico (Orgs.), Da clínica do contar ao contar da clínica (pp. 175-196). Edunisc.

Cruz, N. F. O., Gonçalves, R. W., & Delgado, P. G. G. (2020). Retrocesso da reforma psiquiátrica: O desmonte da política nacional de saúde mental brasileira de 2016 a 2019. Trabalho, Educação e Saúde, 18(3), 1-20. https://doi.org/10.1590/1981-7746-sol00285

Cubas, J. M., Bonamigo, V. G., Alvarenga, R., & Carvalho, D. R. (2022). Acesso infantojuvenil à saúde mental: Do CAPSi às Conferências de Saúde. Argumentum, 14(1), 211–228. https://doi.org/10.47456/argumentum.v14i1.35313

Damasceno, L. T., Mendes, S. J., & Aguiar, P. M. (2022). Interface entre a saúde mental de crianças e adolescentes e a atuação clínica do farmacêutico: Um estudo qualitativo. Interface - Comunicação, Saúde, Educação, 26, 1-17. https://doi.org/10.1590/interface.210780

Devera, D., & Yasui, S. (2022). Os lugares e função da supervisão clínico institucional na construção e consolidação da Rede de Atenção Psicossocial. Mnemosine, 18(2), 241-261. https://doi.org/10.12957/mnemosine.2022.71196

Figueiredo, L. C. (2021). A mente do analista (2a ed.). Escuta

Figueiredo, L. C., & Coelho, N. E., Jr. (2018). Adoecimentos psíquicos e estratégias de cura: Matrizes e modelos em Psicanálise. Blucher.

Flick, U. (2018). An introduction to qualitative research. Sage.

Freud, S. (1923). Dois verbetes de enciclopédia. In Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: Edição Standard brasileira (Vol. 18, pp. 287-312). Imago.

Granato, T. M. M., & Aiello-Vaisberg, T. M. J. (2016). Interactive narratives in the investigation of the collective imaginary about motherhood. Estudos de Psicologia, 33(1), 25-35. http://dx.doi.org/10.1590/1982-02752016000100004

Granato, T. M. M., Corbett, E., & Aiello-Vaisberg, T. M. J. (2011). Narrativa interativa e Psicanálise. Psicologia em Estudo, 16(1), 157-163. https://www.scielo.br/j/pe/a/8Vrkcz4wbyXxF9PDRGQty9P/?format=html&lang=pt

Guba, E., & Lincol, Y. S. (1994). Competing paradigms in qualitative research. In N. K. Denzin, & Y. S. Lincoln (Eds.), Handbook of qualitative research (pp. 105-117). Sage.

Herrmann, F. (1979). O método da Psicanálise. Brasiliense.

Herrmann, F. (2001). Introdução à Teoria dos Campos. Casa do Psicólogo.

Herrmann, F. (2004). Pesquisando com o método psicanalítico. In F. Herrmann, & T. Lowenkron (Eds.), Pesquisando com o método psicanalítico (pp. 323-348). Casa do Psicólogo.

Hirata, H. (2022). O cuidado: Teorias e práticas. Editora Boitempo.

Kuchuck, S. (2021). The relational revolution in Psychoanalysis and Psychoterapy. Confer Books.

Laplanche, J., & Pontalis, J.-B. L. (2008). Vocabulário de Psicanálise. Martins Fontes

Le Breton, D. (2017). Uma breve história da adolescência. PUC Minas.

Lei n° 8.069, de 13 de julho de 1990. (1990, 13 de julho). Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Presidência da República. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm

Leitão, I. B., & Avellar, L. Z. (2020). 10 anos de um CAPSi: Percepções dos profissionais acerca do trabalho em saúde mental infantojuvenil. Estilos da Clínica, 25(1), 165-183. https://doi.org/10.11606/issn.1981-1624.v25i1p165-183

Leitão, I. B., Constandinidis, T. C., & Avellar, L. Z. (2019). Produção de conhecimento sobre o CAPSi entre 2002 e 2017: Revisão integrativa da literatura. Estudos Interdisciplinares em Psicologia, 10(3), 181-205. https://doi.org/10.5433/2236-6407.2019v10n3p181

Lourenço, M. S. G., Matsukura, T. S., & Cid, M. F. B. (2020). A saúde mental infantojuvenil sob a ótica de gestores da Atenção Básica à Saúde: Possibilidades e desafios. Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional, 28(3), 809-828. https://doi.org/10.4322/2526-8910.ctoao2026

Martins, M. E. R., Assis, F. B., & Bolsoni, C. C. (2019). Ressuscitando a indústria da loucura?! Interface - Comunicação, Saúde, Educação, 23, 1-5. https://doi.org/10.1590/Interface.190275

Ministério da Saúde. (2005). Reforma psiquiátrica e política de saúde mental no Brasil. Secretaria de Atenção à Saúde. Coordenação Geral de Saúde Mental. https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/Relatorio15_anos_Caracas.pdf

Miranda, L., & Onocko-Campos, R. (2014). Contribuições da teoria winnicottiana para um posicionamento clínico nos serviços públicos de saúde. In M. Winograd, & J. Vilhena (Eds.), Psicanálise e clínica ampliada: Multiversos (pp. 57-86). Appris.

Moreira, C. P., Torrenté, M. O. N., & Jucá, V. J. S. (2018). Análise do processo de acolhimento em um Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil: Considerações de uma investigação etnográfica. Interface - Comunicação, Saúde, Educação, 22(67), 1123–1134. https://doi.org/10.1590/1807-57622017.0500

Mota, A., & Teixeira, C. (2020, 15 de junho). O desmonte da Política Nacional de Saúde Mental em tempos de pandemia. Observatório de Análise Política em Saúde. https://analisepoliticaemsaude.org/debate/o-desmonte-da-politica-nacional-de-saude-mental-em-tempos-de-pandemia/

Nunes, C. K., Olschowsky, A., Silva, A. B., Xavier, M. S., & Braga, F. S. (2023). Saúde mental na atenção básica: Uma rede rizomática para infância e adolescência. Revista de Enfermagem da UFSM, 13(8), 1-18. https://doi.org/10.5902/2179769271914

Ogden, T. H. (2005). This art of psychoanalysis: Dreaming undreamt dreams and interrupted cries (pp. 109-123). Routledge.

Onocko-Campos, R. T. O., & Furtado, J. P. (2008). Narrativas: Utilização na pesquisa qualitativa em saúde. Revista de Saúde Pública, 42(6), 1090–1096. https://doi.org/10.1590/S0034-89102008005000052

Politzer, G. (2004). Crítica dos fundamentos da Psicologia: A Psicologia e a Psicanálise. Editora UNIMEP. (Trabalho original publicado em 1928).

Portaria n° 336, de 19 de fevereiro de 2002. (2002, 19 de fevereiro). Estabelece as modalidades de CAPS e equipe mínima. Ministério da Saúde. https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2002/prt0336_19_02_2002.html

Ricoeur, P. (1990). Soi-même comme un autre. Seuil.

Riessman, C. K. (2008). Narrative methods for the human sciences. Sage.

Saad, F. L., Fiorini, L. N, & Joaquim, R. H. V. T. (2021). O analista na instituição e invenções no contexto da infância e adolescência: Um estudo de caso. Revista FSA, 18(9), 115-134. http://dx.doi.org/10.12819/2021.18.9.7

Santos, K. S., Ribeiro, M. C., Queiroga, D. E. U., Silva, I. A. P., & Ferreira, S. M. S. (2020). O uso de triangulação múltipla como estratégia de validação em um estudo qualitativo. Ciência & Saúde Coletiva, 25(2), 655–664. https://doi.org/10.1590/1413-81232020252.12302018

Turato, E. R. (2011). Tratado da metodologia da pesquisa clínico-qualitativa: Construção teórico-epistemológica, discussão comparada e aplicação nas áreas da saúde e humanas. Vozes.

Vechiatto, L., & Alves, A. M. P. (2019). A saúde mental infantojuvenil e o CAPS-I: Uma revisão integrativa. Revista Emancipação, 19(1), 1-12. http://dx.doi.org/10.5212/Emancipacao.v.19.0003

Vieira, G., Castanho, P., & Campos, E. M. P. (2020). Uma ampliação do setting face a exclusão: Contribuições de Winnicott para o cuidado clínico em equipe. Cadernos de Psicanálise, 42(43), 91-115. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-62952020000200005&lng=pt&tlng=pt

Visintin, C. D. N., Ambrosio, F. F., & Aiello-Vaisberg, T. M. J. (2023). O Procedimento de desenhos-estórias com tema em pesquisas qualitativas sobre imaginários coletivos. Revista Estilos da Clínica, 28(1), 98-114. https://doi.org/10.11606/issn.1981-1624.v28i1p98-114

Winnicott, D. W. (2019). O brincar e a realidade (pp. 52-68). Ubu Editora. (Trabalho original publicado em 1971).

Winnicott, D. W. (2022). Processos de amadurecimento e ambiente facilitador (pp. 212-217). Ubu Editora. (Trabalho original publicado em 1962).

Winnicott, D. W. (2022). Processos de amadurecimento e ambiente facilitador (pp. 44-69). Ubu Editora. (Trabalho original publicado em 1960).

Yalom, I. D., & Leszcz, M. (2006). Psicoterapia de grupo: Teoria e prática. Artmed.

Downloads

Publicado

05.12.2025

Como Citar

Barcelos, T. F., & Granato, T. M. M. (2025). A Narrativa Interativa Devolutiva no Diálogo com os Profissionais de um CAPSi. Revista Subjetividades, 25(3), 1–13. https://doi.org/10.5020/23590777.rs.v25i3.e15092

Edição

Seção

Dossiê: Intervenções Psicossociais em Contextos de Vulnerabilidade