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			<journal-id journal-id-type="publisher-id">subj</journal-id>
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				<journal-title>Revista Subjetividades</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">R Subj</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="epub">2359-0777</issn>
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				<publisher-name>Universidade de Fortaleza</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.5020/23590777.rs.v25i2.e15077</article-id>
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				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>Relatos de Pesquisa</subject>
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				<article-title>Psicanálise e População em Situação de Rua: Pesquisa Exploratória sobre Experiências Brasileiras</article-title>
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					<trans-title>Psicoanálisis y Población en Situación de Calle: Investigación Exploratoria sobre Experiencias Brasileñas</trans-title>
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					<trans-title><italic>Psychanalyse et Population en Situation de Rue: Recherche Exploratoire sur</italic> les Experiences Bresiliennes</trans-title>
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					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0002-5888-5863</contrib-id>
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						<surname>Melli</surname>
						<given-names>Mariana</given-names>
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						<surname>Ragnini</surname>
						<given-names>Elaine Cristina Schmitt</given-names>
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				<institution content-type="original">Graduada em Psicologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Realizou estágio obrigatório na área da Saúde no Centro de Psicologia Aplicada (CPA) pela UFPR e na área do Trabalho em um Centro de Socioeducação (CENSE) pela Secretaria de Justiça e Cidadania (SEJU) do Governo do Estado do Paraná, atuando respectivamente com atendimentos clínicos e saúde do trabalhador. Atuou em estágios não-obrigatórios na Defensoria Pública do Estado do Paraná (DPPR) e no Tribunal de Justiça do Estado do Paraná (TJPR), adquirindo experiência na área de execução penal e política criminal, especialmente no que tange desinstitucionalização de sujeitos em cumprimento de medida de segurança e atendimentos psicossociais em audiência de custódia. Foi extensionista de outros diversos projetos de extensão pela UFPR envolvendo direitos humanos e gênero. Como trabalho de conclusão de curso, desenvolveu um estudo teórico-conceitual intitulado “A medicalização do Consumo de Crack no contexto brasileiro de Guerra às Drogas”. Atualmente, trabalha como psicóloga no Centro Estadual de Defesa dos Direitos Humanos da População em Situação de Rua do Paraná.</institution>
				<institution content-type="orgname">Universidade Federal do Paraná</institution>
				<country country="BR">Brazil</country>
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				<institution content-type="original">Professora do Departamento e da Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal do Paraná. Doutora em Educação pela UFPR. Possui graduação em Psicologia pela Universidade Federal do Paraná (1999) e mestrado em Administração pela Universidade Federal do Paraná (2003), com ênfase em Organizações. Desenvolve atividades de ensino, pesquisa e extensão no campo da Saúde e do Trabalho e das Migrações Internacionais, com ênfase nos processos de subjetivação que ocorrem no encontro do sujeito com o campo social e político. Coordena os Projetos de Extensão e Pesquisa: “Migração e Processos de Subjetivação: psicologia, psicanálise e política na rede de atendimento aos migrantes”; e “A Clínica e Pesquisa Psicanalítica no Campo da Saúde do Trabalhador: atendimento a trabalhadores adoecidos”. Atualmente pesquisa sobre “Instituição, Sujeito e Psicanálise”. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa do CNPq - Economia Política do Poder e Estudos Organizacionais.</institution>
				<institution content-type="orgname">Universidade Federal do Paraná</institution>
				<country country="BR">Brazil</country>
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			<author-notes>
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					<label>Endereço para correspondência:</label> Mariana Melli E-mail: <email>mmarianamelli@gmail.com</email> Elaine Cristina Schmitt Ragnini E-mail: <email>elaine@ufpr.br</email>
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			<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
				<day>30</day>
				<month>09</month>
				<year>2026</year>
			</pub-date>
			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
				<year>2026</year>
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			<volume>25</volume>
			<issue>02</issue>
			<elocation-id>e15077</elocation-id>
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				<date date-type="received">
					<day>16</day>
					<month>03</month>
					<year>2024</year>
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				<date date-type="accepted">
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					<year>2025</year>
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				<license license-type="open-access" xlink:href="https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/" xml:lang="pt">
					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
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			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>Partindo da constatação de que houve um pioneirismo da psicanálise no campo das intervenções psicossociais em cenários de vulnerabilidade sociopolítica no Brasil e da justificativa de que essa teoria fundamenta a prática de diversos profissionais da rede pública de saúde e de assistência social, este estudo objetivou investigar o que faz um psicanalista no atendimento à população em situação de rua. Para isso, realizou-se uma pesquisa exploratória a partir de entrevistas com seis psicanalistas e professores universitários, que atendiam ou atendem pessoas em situação de rua, através de projetos de extensão ou pesquisa em instituições de ensino superior públicas e/ou privadas ou organizações sociais. Como resultado, constatou-se que o dispositivo clínico na rua não é uma transposição do setting analítico clássico e que o atendimento na rua acontece a partir de demandas urgentes e da oferta de escuta pelo analista no território. Apesar da reinvenção de algumas técnicas, devido às especificidades desta população, os participantes identificaram que a única regra da psicanálise a não ser modificada é a ética do desejo. Além disso, identificou-se a existência de um trabalho político dos psicanalistas para a garantia e a promoção dos direitos humanos em âmbitos institucionais, o que está para além de uma atuação puramente clínica. Assim, concluiu-se que a psicanálise na rua não é somente uma aposta no sujeito do inconsciente que vive na e da rua, mas também no direito de falar como forma de transformação social.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="es">
				<title><italic>Resumen</italic></title>
				<p><italic>Partiendo de la constatación de que hubo un pionerismo del psicoanálisis en el campo de las intervenciones psicosociales en contextos de vulnerabilidad sociopolítica en Brasil, y de la justificación de que esta teoría fundamenta la práctica de diversos profesionales de la red pública de salud y asistencia social, este estudio tuvo como objetivo investigar qué hace un psicoanalista en la atención a la población en situación de calle. Para ello, se realizó una investigación exploratoria a partir de entrevistas con seis psicoanalistas y docentes universitarios, que atendían o atienden personas en situación de calle a través de proyectos de extensión o investigación en instituciones de educación superior públicas y/o privadas u organizaciones sociales. Como resultado, se constató que el dispositivo clínico en la calle no es una simple transposición del setting analítico clásico, y que la atención en la calle ocurre a partir de demandas urgentes y de la oferta de escucha por parte del analista en el territorio. A pesar de la reinvención de algunas técnicas debido a las especificidades de esta población, los participantes identificaron que la única regla del psicoanálisis que no debe modificarse es la ética del deseo. Además, se identificó la existencia de un trabajo político de los psicoanalistas para la garantía y promoción de los derechos humanos en ámbitos institucionales, lo cual va más allá de una actuación puramente clínica. Así, se concluyó que el psicoanálisis en la calle no constituye únicamente una apuesta en el sujeto del inconsciente que vive en y de la calle, sino también en el derecho a hablar como forma de transformación social.</italic></p>
			</trans-abstract>
			<trans-abstract xml:lang="fr">
				<title><italic>Résumé</italic></title>
				<p><italic>Considérant que la psychanalyse a joué un rôle pionnier dans le champ des interventions psychosociales en contexte de vulnérabilité sociopolitique au Brésil et du fait que cette théorie fonde la pratique de divers professionnels du réseau public de santé et d’assistance sociale, cette étude visait à enquêter sur ce que fait un psychanalyste dans l’accompagnement de la population en situation de rue. À cette fin, une recherche exploratoire a été réalisée à partir d’entretiens avec six psychanalystes et professeurs universitaires, qui accompagnent ou ont accompagné des personnes en situation de rue, à travers des projets d’extension universitaire ou de recherche dans des établissements d’enseignement supérieur publics et/ou privés ou des organisations sociales. En conséquence, il a été constaté que le dispositif clinique de rue n’est pas une transposition du setting analytique classique et que la consultation dans la rue se fait à partir de demandes urgentes et de l’offre d’écoute par l’analyste sur le terrain. Bien que certaines techniques aient été réinventées, en raison des spécificités de cette population, les participants ont identifié que la seule règle de la psychanalyse à ne pas être modifiée est l’éthique du désir. De plus, on a identifié l’existence d’un travail politique des psychanalystes pour la garantie et la promotion des droits humains dans des contextes institutionnels, ce qui va au-delà d’une intervention purement clinique. Ainsi, il en ressort que la psychanalyse dans la rue n’est pas seulement un pari sur le sujet de l’inconscient qui vit dans/de la rue, mais aussi sur le droit de parler comme forme de transformation sociale.</italic></p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chaves:</title>
				<kwd>população em situação de rua</kwd>
				<kwd>psicanálise</kwd>
				<kwd>política</kwd>
				<kwd>dispositivos clínicos</kwd>
				<kwd>psicanálise implicada</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="es">
				<title><italic>Palabras claves:</italic></title>
				<kwd>población en situación de calle</kwd>
				<kwd>psicoanálisis</kwd>
				<kwd>política</kwd>
				<kwd>dispositivos clínicos</kwd>
				<kwd>psicoanálisis implicado</kwd>
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				<title><italic>Mots-clés :</italic></title>
				<kwd>population en situation de rue</kwd>
				<kwd>psychanalyse</kwd>
				<kwd>politique</kwd>
				<kwd>dispositifs cliniques</kwd>
				<kwd>psychanalyse impliquée</kwd>
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	<body>
		<p>A psicanálise, como prática de escuta alinhada à manutenção do desejo ao invés dos ideais hegemônicos, apresentou-se desde seu nascimento como uma técnica fundamentada pela subversão (<xref ref-type="bibr" rid="B38">Safatle, 2020</xref>). Todavia, como resultado de uma prática clínica com pacientes histéricos e de boa condição socioeconômica, a teoria psicanalítica trouxe supostas condições fundamentais para o funcionamento do tratamento. Essa disposição, envolvendo principalmente a tríade tempo-dinheiro-divã, constituiu-se como elemento para uma crítica à psicanálise, uma vez que limites teóricos e técnicos foram utilizados de forma equivocada para caracterizá-la como uma prática elitista e sem alcance terapêutico para outros tipos de psicopatologias (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Figueiredo, 1997</xref>). Apesar dessa crítica ainda servir para contestar posicionamentos ortodoxos dentro da psicanálise, o próprio <xref ref-type="bibr" rid="B17">Freud (1912/1996b)</xref> assinalou, em suas recomendações aos novos praticantes da psicanálise, que a estruturação da técnica estava de acordo com as condições individuais dele próprio e que nada impedia os psicanalistas de obterem resultados analíticos a partir de novas formulações. </p>
		<p>Supondo as transformações da sociedade e sua relação com as possíveis modificações da técnica, <xref ref-type="bibr" rid="B16">Freud (1918-1919/1996a</xref>, p. 180), no texto <italic>Linhas de Progresso na Terapia Psicanalítica,</italic> situa o padecimento psíquico como um problema de saúde pública, que atinge tanto as classes abastadas quanto os pobres. Diz Freud: “é possível prever que, mais cedo ou mais tarde, a consciência da sociedade despertará, e lembrar-se-á de que o pobre tem exatamente tanto direito a uma assistência à sua mente, quando o tem, agora, à ajuda oferecida pela cirurgia”. O direito e o acesso de todos ao tratamento analítico exigirão que a psicanálise adeque sua técnica à nova realidade, chamando a atenção para um posicionamento de responsabilidade social. Nesse sentido, os psicanalistas estão atentos ao que ocorre no campo social e político, além de disponíveis para a escuta e a presentificação da psicanálise na pólis. Ainda que essa posição exija a readequação da técnica, essa “psicoterapia para o povo” deve manter-se afeita aos ingredientes “tomados à psicanálise estrita e não tendenciosa” (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Freud, 1918-1919/1996a</xref>, p. 181).</p>
		<p>Em estudo sobre <italic>As clínicas públicas de Freud: Psicanálise e justiça social</italic>, Elizabeth Ann <xref ref-type="bibr" rid="B12">Danto (2019</xref>) enfatiza como, desde os psicanalistas contemporâneos a Freud, existia um movimento de não só estender a oferta de tratamento analítico para outros públicos, mas também de inovar a técnica psicanalítica para novas situações. Essa aplicação da psicanálise em contextos alternativos ao <italic>setting</italic> clássico ficou conhecida como <italic>psicanálise em extensão</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B23">Lacan, 1967/2003</xref>) e chegou ao Brasil por meio do exílio de psicanalistas institucionais argentinos na década de 1970 (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Broide, 2019c</xref>). A migração de psicanalistas argentinos comprometidos com um discurso anticapitalista foi importante para o fomento da Clínica Social de Psicanálise criada no Rio de Janeiro em 1973, e para a iniciação da escuta analítica nas chamadas “situações sociais críticas”, de Jorge Broide, em 1976 na cidade de São Paulo. Nesse período, <xref ref-type="bibr" rid="B6">Broide (2019a)</xref> torna-se um dos primeiros psicanalistas no Brasil a propor um trabalho pela psicanálise em contextos que vão desde prisões e departamentos policiais, onde estavam as vítimas de tortura da Ditadura Militar Brasileira, até os espaços demarcados da rua. Nesse fazer na rua, mais precisamente no Largo de Osasco em São Paulo, encontra-se um dos primeiros ou o primeiro trabalho que se tem registro sobre a oferta de escuta analítica para população em situação de rua no Brasil. A partir do seu mestrado, em 1993, Jorge Broide desenvolve mais especificamente, para além do que já posicionava como um fazer nas “situações sociais críticas” (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Broide, 2016</xref>), a prática da “Clínica Psicanalítica na Rua” que atendia às pessoas que sobreviviam na ou dela.</p>
		<p>Aqui, vale fazer um resgate antropológico sobre a própria conceituação do termo população em situação de rua (PSR). Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B26">Melo (2017</xref>), esse termo só passou a ser usado como sinônimo de um grupo de pessoas que vivem na rua pela ausência de moradia convencional, motivadas pelas mais distintas particularidades e determinações sociais, a partir da década de 1990, com um debate que viria a resultar na formação da Política Nacional da População em Situação de Rua (<xref ref-type="bibr" rid="B13"><italic>Decreto n° 7.053</italic>, 2009</xref>). Antes dos debates sobre a definição desse grupo de pessoas considerado ainda hoje como heterogêneo, o conceito de pessoas em situação de rua era utilizado de maneira mais abrangente para agrupar de uma forma sintética diversas populações que não necessariamente dormiam nas ruas, mas que viviam nela em diversas circunstâncias (<xref ref-type="bibr" rid="B26">Melo, 2017</xref>). Desse modo, entende-se que a Clínica Psicanalítica na Rua, proposta por <xref ref-type="bibr" rid="B3">Broide (1993</xref>), não tinha o objetivo de atender somente ao segmento populacional que é entendido atualmente como PSR, e sim um grupo de populações marginalizadas, como prostitutas e outros trabalhadores informais, que tiravam seu sustento material e psíquico das ruas.</p>
		<p>Atualmente, soma-se à definição da política nacional a proposta do modelo <italic>Housing First,</italic> que defende a PSR como “um grupo populacional composto por pessoas que perderam as condições de realizarem a manutenção de suas vidas em um domicílio” (<xref ref-type="bibr" rid="B28">Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, 2022</xref>, p. 15). A prerrogativa comum de impossibilidade de manutenção de domicílio enfatiza que o contexto de extrema vulnerabilidade que a PSR vivencia não é causado pelo desemprego ou pelo uso de substâncias psicoativas, como atribuem perspectivas moralistas, mas sim pela ausência de moradia, uma vez que milhares de pessoas também estão desempregadas ou consomem drogas e continuam domiciliadas. Assim, instituído internacionalmente e denominado no Brasil como Moradia Primeiro, o <italic>Housing First</italic> apresenta-se como contrário ao paradigma etapista das políticas assistenciais e propõe a oferta de moradia com baixa exigência como modo de superação da situação de rua (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Menezes, 2022</xref>).</p>
		<p>Considerando essa definição, que foca a luta por moradia como principal proposta de intervenção para PSR, esse estudo parte da hipótese de que a PSR é um grupo fora do laço social. Uma população constituída simbolicamente por uma série de violências que resultaram, em primeira circunstância, na ausência de uma moradia que permite acesso a direitos básicos. Mesmo fora do laço social, em observação às investigações psicanalíticas de <xref ref-type="bibr" rid="B33">Rangel (2018</xref>), entende-se que a PSR não é um grupo invisível socialmente, mas sim um grupo formado por pessoas colocadas às margens da sociedade e que recebem constantemente repressão do aparato estatal capitalista devido às questões de classe e de raça. Ou seja, por se constituir como um grupo que tem seus direitos mais básicos negados e estar à margem do laço social, a PSR é alvo das políticas de segurança pública que constantemente tem o objetivo de eliminá-la, promovendo a manutenção de relações desiguais de poder. Conforme aponta <xref ref-type="bibr" rid="B34">Rosa et al. (2006</xref>, p. 40), “mostrando-se no real, os sem-tetos aparecem como corpos fictícios, fora do tempo e do espaço. Não têm rosto, nome ou laço”. Assim, a PSR, além de produto de um discurso e de relações que a coloca à margem do laço, é alvo de investidas para ser eliminada, uma vez que é indesejada. </p>
		<p>Compreendendo, portanto, as inúmeras violações em nome do higienismo social, bem como o compromisso ético da psicanálise com o sofrimento sociopolítico, objetiva-se, neste estudo, investigar o que faz o psicanalista no atendimento à população em situação de rua diante de um cenário histórico de marginalização desses sujeitos. Haja vista o pioneirismo da psicanálise em extensão no campo das intervenções psicossociais no Brasil em contextos de vulnerabilidade, esse estudo é justificado pela compreensão de que a psicanálise se constitui como importante base teórica e ética para as atuações de profissionais da rede pública de saúde e de assistência social.</p>
		<sec>
			<title>Método</title>
			<p>Esse artigo traz os resultados de uma pesquisa empírica do tipo exploratória, predominantemente qualitativa, aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa de uma universidade pública, sobre as experiências psicanalíticas de atendimento à PSR em diferentes estados brasileiros. Para obtenção dos dados de pesquisa, foram realizadas seis entrevistas com professores universitários e psicanalistas que coordenam ou coordenaram projetos de extensão ou de pesquisa voltados à PSR em diferentes universidades públicas e/ou privadas e organizações sociais do país. </p>
			<p>Os critérios de seleção dos participantes foram: (1) interesse em participar da pesquisa; (2) ser, ou ter sido, coordenadora de um projeto de extensão ou pesquisa com ou para pessoas em situação de rua; e (3) ter, em sua prática, trabalhado sob os fundamentos da psicanálise. Para além desses, como foram selecionados participantes de diferentes regiões do Brasil, uma das condições de participação foi a disponibilidade para participação por plataforma virtual. No total, foram selecionados seis participantes que relataram experiência de atendimento à PSR por meio de projetos universitários e governamentais ligados à área da saúde e da assistência social. Como todos os projetos apresentam uma incidência política, optou-se pela preservação da identidade dos psicanalistas entrevistados. Todavia, a fim de constatação do alcance de experiências retratadas nesse estudo, indica-se que foram selecionados participantes de quatro regiões brasileiras, a saber, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul. </p>
			<p>A escolha por essa abordagem metodológica ocorreu após a realização de uma revisão de literatura não estruturada dentro desse mesmo projeto de pesquisa. Como resultado da revisão, verificou-se a existência de uma prática psicanalítica historicamente comprometida com prerrogativas político-sociais, voltada à oferta de atendimento analítico em contextos de vulnerabilidade. Apesar dos resultados iniciais, ainda na revisão de literatura, observou-se uma falta de teorização sobre as condições técnicas e éticas de oferta dessa intervenção e, desse modo, propõe-se a execução de entrevistas com psicanalistas experientes no atendimento à PSR para compreender as possibilidades da práxis do analista no cenário social brasileiro. Para execução das entrevistas, utilizou-se como instrumento de pesquisa um roteiro de entrevista semiestruturada com perguntas relativas (1) às experiências de trabalho com pessoas em situação de rua vividas pelos psicanalistas entrevistados, (2) as especificidades éticas da escuta analítica na rua ou em uma instituição de atendimento à PSR e (3) as intersecções entre psicanálise e política. Os dados obtidos nas entrevistas foram analisados por meio da análise de conteúdo (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Bardin, 2011</xref>), que permitiu a categorização das diversas experiências conforme o que se repetia, o que se destacava e o que se diferenciava do trabalho de cada psicanalista nas diferentes localidades brasileiras; bem como da análise lacaniana de discurso (<xref ref-type="bibr" rid="B25">Lara et al., 2019</xref>), que se propõe como forma de análise do discurso que “oferece concepções, noções ou simples disposições teóricas lacanianas que podem ser esclarecedoras na hora de abordar um discurso” (<xref ref-type="bibr" rid="B30">Pavón-Cuéllar, 2019</xref>, p. 20), denunciando o que não se enuncia, a partir de uma posição crítica e politicamente comprometida, cultivando “a psicanálise e a política, para não objetivar e nem despolitizar o sujeito, para posicionar-se ao posicioná-lo, ao dar a ele seu lugar (...)” (<xref ref-type="bibr" rid="B30">Pavón-Cuéllar, 2019</xref>, p. 22).</p>
		</sec>
		<sec sec-type="results|discussion">
			<title>Resultado e Discussão</title>
			<p>Se a psicanálise existe para além dos consultórios e tem um discurso de responsabilidade social desde sua origem, sua oferta na rua é possível, como demonstra a experiência de <xref ref-type="bibr" rid="B9">Broide (2021</xref>) na <italic>Clínica Psicanalítica na Rua</italic>. O desafio, contudo, consiste em entender como esse tratamento de escuta analítica acontece em um contexto de extrema vulnerabilidade social. Parte-se, portanto, da proposta de uma psicanálise implicada, como enunciada por <xref ref-type="bibr" rid="B36">Rosa (2016</xref>, p. 185), que visa “elucidar o sofrimento do sujeito dados os diferentes lugares ocupados no laço social” e “considerar a especificidade do caso”, levando em consideração “os efeitos do desamparo discursivo de certos sujeitos” na construção de “táticas clínicas, ou seja, dispositivos e estratégias, que remetem tanto à sua posição desejante no laço com o outro, como às modalidades singulares e coletivas de resistência aos processos de alienação social” (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Rosa, 2016</xref>, p.186). Mediante concordância de todos os psicanalistas participantes deste estudo, o primeiro ponto central é a compreensão de que a psicanálise na rua não se trata de uma transposição da prática do consultório. Assim, mesmo que todos os psicanalistas concordem que as demandas dos atendidos não são de outra ordem daquelas observadas na clínica clássica e que as técnicas da psicanálise são mantidas apesar de algumas reinvenções, todos apontam que questões estereotipadas para classificação de uma análise - a exemplo do divã e do pagamento - não são necessárias <italic>a priori</italic> e acontecem atravessadas pela lógica da própria rua.</p>
			<p>A indisposição de pagamento pelo próprio atendido nessa circunstância, como supôs <xref ref-type="bibr" rid="B16">Freud (1918-1919/1996a</xref>), não se apresenta como impeditivo para o tratamento. Este fato se confirma na fala dos seis entrevistados, já que todos seus atendimentos a PSR aconteciam de modo gratuito. A falta de pagamento, longe de promover um desincentivo aos pacientes, segundo uma participante, causava certo estranhamento, uma vez que o momento de escuta é tão raro e reconhecido que, na visão dos analisandos, deveria ser pago de alguma forma, a exemplo de presentes reciclados do lixo. Esse reconhecimento do trabalho evidencia, como explica <xref ref-type="bibr" rid="B15">Figueiredo (1997</xref>) em observações aos atendimentos em ambulatórios públicos, que o pagamento pode ser pensado como função e que a ausência de dinheiro não significa, ao contrário do que Freud acreditava em 1913 (<xref ref-type="bibr" rid="B19">Freud, 1913/2021b</xref>), a retirada do efeito regulador sobre os fatores sexuais do tratamento. Desse modo, entende-se que outras questões soaram caras para o paciente se engajar no próprio tratamento, pois, a exemplo do que declarou um dos psicanalistas entrevistados, “usar as palavras é pagar um preço alto para alguns” (sic). Sem desconsiderar a complexidade do dinheiro e do divã, principalmente no tratamento das neuroses sob transferência, segundo os entrevistados, precisa-se de cautela do analista para não tornar essas condições em fetiches próprios na afirmação do que seria ou não uma análise, mediante o fato de que a escuta do inconsciente pode suceder por outros meios.</p>
			<p>Se o dinheiro aparece como dispensável, visto a situação de vulnerabilidade socioeconômica, só faz sentido pensar em divã, como sinaliza uma das entrevistadas, como sendo o banquinho da praça. Ainda atravessado pela lógica de imprevisibilidade que traz a ausência de moradia, o tempo aparece como a condição de tratamento mais enfatizada nas discussões dos psicanalistas entrevistados. Todos apontam que o tempo é inusitado e que varia constantemente de duração e de frequência; e, em alguns projetos, é comum que um sujeito em situação de rua tenha uma sessão única e nunca mais volte ao atendimento. Pensar em sessão única não é novidade nas chamadas clínicas públicas da psicanálise. Mesmo que seja incomum pensar em psicanálise em um único momento, <xref ref-type="bibr" rid="B1">Ab’Sáber e Zaiden (2019)</xref> defendem que um único encontro pode apresentar a via do inconsciente e produzir um efeito terapêutico. O que está em jogo nas sessões únicas pela psicanálise, portanto, como bem lembra <xref ref-type="bibr" rid="B29">Mori (2018</xref>), não é a interpretação analítica, mas sim a produção de um alívio ao falar de forma livre e endereçada. Refletindo sobre a questão da brevidade do tratamento, alguns psicanalistas comentam da relação da escuta analítica na rua como forma de gerar um testemunho, resgatando o conceito advindo da Clínica do Testemunho (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Clínicas do Testemunho de RS e SC, 2018</xref>) proposta com as vítimas anistiadas da Ditadura Militar Brasileira, no sentido de promover algum tipo de reparação do traumático por meio da construção de uma memória compartilhada.</p>
			<p>Embora não seja a regra dos atendimentos, todos os entrevistados também concordaram que há possibilidade de um trabalho mais longevo na rua, sendo o tempo uma variável inusitada no sentido de duração e de frequência das ditas sessões. Dois psicanalistas de diferentes regiões exemplificam que o tratamento continuado é possível através da proposta de acompanhamento terapêutico, conhecido pela sigla AT, e comentam a influência dos psicanalistas na origem dessa abordagem usada amplamente na área da saúde mental. O AT começou a se constituir como prática na Clínica <italic>La Borde,</italic> na França, e chegou à América Latina por meio de psicanalistas argentinos na década de 1960 (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Holanda et al., 2020</xref>). No Brasil, o AT é inspirado principalmente pelo psicanalista e militante da luta antimanicomial Antônio <xref ref-type="bibr" rid="B24">Lancetti, por meio do que denominou como “Clínica Peripatética” (Lancetti, 2008</xref>), cujo o objetivo era promover a inserção comunitária do analisando por meio de sessões que aconteciam enquanto se caminhava pela cidade.</p>
			<p>Observando a história da psicanálise em território brasileiro e os trabalhos em alguns projetos de extensão de atendimento à PSR, notou-se uma preocupação dos psicanalistas entrevistados ligada a demandas de saúde mental. Essas, no entanto, vinham atreladas ao contexto social e a uma necessidade de promoção de estratégias terapêuticas de acesso e de cidadania à PSR. Radmila <xref ref-type="bibr" rid="B39">Zygouris (2011</xref>) comenta que, na clínica contemporânea, as demandas dos analisando são mais parecidas com as neuroses atuais do que com aquelas de transferência (neurose histeria e neurose obsessiva) que Freud postulou como objeto do tratamento psicanalítico. Ou seja, cada vez mais chegam à clínica psicanalítica demandas que, nos primórdios da psicanálise, eram indicadas para psicoterapia e não para análise, o que torna necessário pensar nos efeitos terapêuticos da psicanálise, para que não se reduza a uma prática analítica como uma simples ideologia sem consideração com a real demanda do sujeito (<xref ref-type="bibr" rid="B39">Zygouris, 2011</xref>). Desse modo, constata-se que os psicanalistas atentos às demandas de saúde mental possibilitam um trabalho possível com as populações vulneráveis, o que <xref ref-type="bibr" rid="B37">Roudinesco (1994</xref>) identificou como um movimento para o futuro da psicanálise que se distancia dos consultórios clássicos.</p>
			<p>Apesar de a psicanálise na rua não ter o objetivo de reproduzir as condições do consultório, duas entrevistadas ressaltaram que a escuta que começa em espaço aberto pode ir para a demarcação das quatro paredes. Depois de anos atendendo na rua, uma das entrevistadas comentou que a experiência de locação de uma sala comercial permitiu que as pessoas tivessem acesso a um lugar de escuta mais sigiloso e a uma maior duração do tratamento. Mesmo que a necessidade de privacidade para escuta faça parte de uma simbolização da classe burguesa (<xref ref-type="bibr" rid="B32">Prost, 2009</xref>), a qual a PSR não desfruta por causa da própria ausência de um domicílio, como lembrou um entrevistado, é necessário pensar em condições de acesso iguais ao tratamento e não cair na romantização das devidas precarizações dos atendimentos por falta de investimento público. Dessa forma, durante a pesquisa, os entrevistados comentaram sobre a responsabilidade do Estado de providenciar condições dignas de tratamento. Uma psicanalista experiente no trabalho com políticas públicas falou que a escuta na rua pode ser um meio de ofertar atendimentos institucionais a sujeitos que, pela constante repressão estatal que sofrem, entendem que não podem acessar determinados lugares, mesmo que estes sejam públicos.</p>
			<p>A despeito do trabalho dentro de instituições públicas, a maioria dos psicanalistas ressaltou que a grande dificuldade de atendimento à PSR pode ser explicada devido à burocratização de protocolos rígidos que não consideram, por exemplo, a falta de documentação desta população. Além disso, ressaltou-se que a PSR tem constantemente atendimentos negados em espaços institucionais e que, como destacou uma pesquisadora da área da saúde mental, a prática de AT se faz necessária, às vezes, para garantir que a pessoa em situação de rua seja atendida por estar acompanhada do analista domiciliado - que é visto como sujeito de direito. Longe de apontar a culpabilização individual dos servidores públicos, os entrevistados comentaram que a falta de atendimento e a estigmatização da PSR nos espaços de saúde se deve à precarização na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e à falta de formação profissional para intervenções em contextos de vulnerabilidade. </p>
			<p>Segundo os entrevistados, para cobrir algumas lacunas da ausência de práticas e políticas públicas voltadas à pessoa em situação de rua, as instituições de ensino cumprem a função de garantir a formação de profissionais que considerem o sujeito nos diferentes espaços político-institucionais e que possam reparar as violações estatais datadas da colonização. Para esses psicanalistas, é fundamental pensarmos em novos modos de inserção de uma população devastada e excluída pelo aparato capitalista. Considerando as múltiplas violações dirigidas à PSR, um participante destacou que, diferentemente das organizações sociais de cunho produtivista, as instituições públicas são necessárias para que o analista consiga sustentar uma transferência em condições dignas de trabalho. O mesmo raciocínio é encontrado em <xref ref-type="bibr" rid="B16">Freud (1918-1919/1996a</xref>), que atesta o papel do Estado na garantia de atendimento gratuito e desaconselha o trabalho filantrópico.</p>
			<p>Diferentemente da construção mais solitária do analista no contexto do consultório particular, o analista na rua deve trabalhar em intensa articulação com a Rede de Saúde e Assistência Social, pois, de acordo com um dos entrevistados, as demandas de atendimento da PSR são da ordem da urgência e, comumente, são direcionadas a outras esferas - como jurídica ou de assistência social - antes de ser endereçada à psicanálise. As demandas de saúde mental da PSR mais direcionadas aos analistas, segundo os entrevistados, dizem respeito à drogadição e à psicose. No trabalho com a psicose, duas participantes destacaram o papel da psicanálise de conduzir o sujeito a construir ancoragens de modo que este possa se organizar. Para <xref ref-type="bibr" rid="B7">Broide (2019b</xref>), ancoragens são “os fios, muitas vezes invisíveis, que amarram (o sujeito) à vida”. Tal conceito, segundo o autor, ajuda o analista a saber por onde começar a trabalhar quando esse se questiona, devido às misérias vivenciadas pelo analisando: “como esta pessoa ainda está viva?”. Esse direcionamento de trabalho é importante para que o analista não sugira algo, a exemplo da retomada de contato com a família, que leve o sujeito, perante o psicanalista supracitado, a uma “retraumatização”.</p>
			<p>Além das ancoragens próprias do sujeito, duas psicanalistas destacaram a importância das atividades mediadas pela arte e pelo trabalho formal e da militância, ao citar o caso de uma pessoa em intenso sofrimento psíquico que se tornou um dos pesquisadores sociais no censo encomendado pelo Governo do Município de São Paulo (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Broide et al., 2018</xref>). Comentando sobre psicose, uma das entrevistadas disse que o trabalho da psicanálise nos territórios é necessário, pois a rua sofre de uma lógica manicomial e o sofrimento psíquico pode servir de justificativa do Estado à institucionalização ou ao encarceramento dos corpos considerados como perigosos.</p>
			<p>Na mesma perspectiva de controle dos corpos, surge a demanda da drogadição. Um entrevistado afirma, em concordância com a visão de toxicomania proposta pela psicopatologia fundamental (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Conte, 2002</xref>), que a relação da pessoa com o tóxico deve ser pensada através da relação que ela estabelece com os outros objetos da vida. Sendo assim, segundo um dos entrevistados especialista em demandas de álcool e outras drogas, o uso de substâncias psicoativas serve para estancar outras demandas e, ao invés de tentar afastar o sujeito a todo custo da droga, o psicanalista deve trabalhar impulsionado pela redução de danos. Ao pensar em redução de danos, deve-se propor uma oposição não somente para a lógica de abstinência, mas para toda política proibicionista que, como demonstrou a experiência do Programa “De Braços Abertos”, é a verdadeira responsável pelas violações que acontecem à PSR. Alguns entrevistados lembraram do Programa “De Braços Abertos” como modelo de intervenção para o trabalho com as demandas de álcool e outras drogas com a PSR. O Programa foi uma iniciativa coordenada pelo psicanalista Antonio Lancetti na região da Cracolândia e constituiu-se como uma política intersetorial de baixa exigência, cuja proposta envolvia não apenas o cuidado em saúde, mas também a oferta de moradia e a inclusão social por meio do trabalho (<xref ref-type="bibr" rid="B31">Pinheiro, 2019</xref>). Tal iniciativa, baseada no modelo <italic>Housing First</italic>, foi encerrada na cidade de São Paulo no ano de 2017, dando espaço para intervenções de repressão e de limpeza das cidades.</p>
			<p>Uma das entrevistadas menciona que a problemática em torno da drogadição está relacionada à “guerra às drogas”, da qual a PSR pode ser apontada como “expropriada ou refugiada na própria pátria” (sic). A aproximação da PSR com a população migrante e refugiada foi realizada por quatro dos seis psicanalistas entrevistados. Dois entrevistados citam que muitos migrantes e refugiados acabam por ficar em situação de rua quando chegam ao Brasil e que esse número tem aumentado nos últimos anos. Embora os entrevistados façam uma aproximação das realidades dessas duas populações devido ao seu estatuto de sem lugar, uma participante enfatiza que os migrantes teriam mais recurso psíquico que a PSR, pois saíram de uma vivência sofrida em busca de novo significado, enquanto essa última, ao ir para rua, só teria “decaído” (sic). Em outras palavras, a participante diz que a PSR sai de uma ocasião de desamparo que determina a ida às ruas para entrar em uma desesperança de superação dessa situação. Lembrando das causas que podem levar alguém às ruas, alguns entrevistados citaram que há de se observar que a PSR é uma população de muitos sujeitos e que, portanto, o atendimento desta pode significar a escuta de transexuais e travestis, egressos do sistema prisional, profissionais do sexo, dentre tantas outras identidades de pessoas para as quais as possibilidades concretas da vida não permitiram a manutenção de uma casa.</p>
			<p>Apesar das múltiplas demandas e especificidades, ao serem questionados sobre as condições necessárias para a construção de uma prática na rua, os entrevistados responderam em unanimidade que a única coisa a não se abrir mão é a ética da escuta analítica do sujeito do inconsciente. Do resto, segundo todos, há possibilidades de reinvenção. Esse movimento de transformação vai ao encontro da observação de <xref ref-type="bibr" rid="B20">Iannini e Santiago (2020</xref>) de que “a teoria e a técnica podem ser constantemente aperfeiçoadas, ao contrário da premissa ética da clínica”. A psicanálise na rua seria, então, um trabalho que se sustenta no tempo e com presença no território, a fim de ser simbolizado como possibilidade pela PSR. Assim, quatro psicanalistas, com exceção daqueles que desenvolveram sua experiência no consultório na rua, ressaltaram a importância de repetição de um mesmo lugar e de um mesmo horário na rua. A repetição de encontros seria uma das condições para viabilizar a transferência com sujeitos em situação de rua; todavia, segundo todos os participantes desta pesquisa, o vínculo transferencial pode se estabelecer mesmo quando há espaçamentos entre os atendimentos realizados na rua. </p>
			<p>A transferência na rua, diferentemente daquela no consultório, estaria à mercê dos fluxos da cidade e dos interesses e afetividades institucionais, segundo os entrevistados. Quanto à sugestão, quase todos os psicanalistas afirmam que essa técnica não se aplica, por estar associada a uma intenção moralista e piedosa do analista - como cita um participante ao mencionar a importância de considerar o desejo da pessoa e as violações por ela sofridas antes de oferecer albergamento. Outra psicanalista diz que a comunicação sobre um saber, a fim de que o sujeito não se destrua em situações de risco, não pode ser confundida com a sugestão, uma vez que, nas suas palavras, “a gente (analistas) faz ato presencial com um corpo que se positiva em muitas situações e isso não abala em nada o trabalho com o inconsciente” (sic). Assim, destoando sobre as classificações, um único entrevistado considera a sugestão como técnica a ser usada pela psicanálise, mas esse enfatiza que essa deve seguir as instruções de <xref ref-type="bibr" rid="B18">Freud (1937/2021a)</xref> acerca das construções em análise. </p>
			<p>Ainda a despeito da técnica, destaca-se, além da influência já citada da clínica peripatética, as teorizações sobre grupo do argentino Pichon Rivière, sobre a maioria dos participantes. O dispositivo grupal aparece nas entrevistas como meio de incitar a fala dos sujeitos e de fomentar um sentimento de solidariedade entre os membros a partir do reconhecimento. Como lembra <xref ref-type="bibr" rid="B38">Safatle (2020</xref>), para a teoria lacaniana, reconhecimento não é produção de identidades comuns, mas sim o que permite, mesmo na ausência de identificação de predicados entre os sujeitos, as dinâmicas de socialização. Assim, trabalhar em grupalidade, para uma entrevistada, tem a importante função de fornecer estratégias para lidar com os tensionamentos que passam na rua e perpassam a organização de determinados coletivos da PSR. Outra técnica usada para tecer redes com populações em condições extremas de vulnerabilidade são os atendimentos em duplas baseados na proposta da clínica intercultural, segundo uma participante que também trabalha com população migrante. Além de produzir enlaçamento para o analisando, a cointervenção, segundo ela, serve para entender melhor os distintos registros que passam pela transferência e a representação imaginária dos diferentes terapeutas sobre a mesma realidade.</p>
			<p>A última (re)invenção sobre a técnica seria a oferta da escuta ao invés da espera por procura espontânea com demanda formulada. Segundo um participante, na maioria dos casos, o psicanalista tem que construir junto ao analisando as demandas a serem trabalhadas. Antes disso, porém, mediante todos os participantes, é preciso vincular a pessoa ao trabalho e demonstrar as intenções de atendimento. Um meio de construir caminho para a escuta, de acordo com um entrevistado, é a oferta de insumos de redução de danos e de cuidados para o corpo. Para além das intervenções em saúde (mental), uma participante considerou também a importância de certo assistencialismo, a exemplo da oferta de alimentos, como forma de engendramento da confiança dessa população. Essas ofertas secundárias não devem, todavia, esconder do sujeito a intenção de escuta; por isso, como destaca outra entrevistada, é preciso ofertar a própria escuta genuinamente interessada no sofrimento. Depois disso, cabe à pessoa escolher e decidir pela manutenção do tratamento. Embora haja situações em que a pessoa precise ser buscada pelo analista - como lembra uma entrevistada ao falar de episódios graves de intoxicação, dos quais volta e meia se tem notícias -, outra participante destaca que a oferta não é sinônimo de insistência. Para ela, o psicanalista não deve se apegar à escuta como elemento capaz de salvação que deve ser estendido a todos.</p>
			<p>A escuta precisa ser feita mediante certo conhecimento da realidade vivida pela PSR. Para isso, todos os entrevistados destacam a importância do psicanalista se atentar para estudos etnográficos e antropológicos acerca do território. Essa área do conhecimento pode ofertar, além de fornecer uma base teórica acerca de determinada zona, segundo uma entrevistada, meios metodológicos, a exemplo do diagnóstico institucional (também usado pela psicologia institucional e comunitária) e do diário de campo. É importante destacar, contudo, que a adoção de metodologias não deve direcionar o analista durante os atendimentos (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Freud, 1912/1996b</xref>), pois, como pontuou um entrevistado que realizou trabalhos no campo da etnografia, há uma diferença fundamental entre o etnógrafo e o psicanalista: o primeiro está preocupado com as trocas simbólicas, o segundo com a angústia do sujeito.</p>
			<p>Conhecer o território pode servir ao analista para se prevenir de situações de assédio e de violência, situações destacadas principalmente pelas psicanalistas mulheres. As vivências de assédio foram enfatizadas por duas entrevistadas, que mencionaram a necessidade de se organizarem com mais pessoas para não irem sozinhas aos atendimentos. Essas questões, contudo, não são apontadas como identificação da PSR e sim como atravessamentos de gênero durante os atendimentos em uma cultura patriarcal e machista. Segundo as entrevistas, a maior violação sofrida na rua pelos analistas seria a exposição do corpo a situações de tensões e violências policiais ocorridas, por exemplo, em cenas de uso de drogas. Nesse sentido, os entrevistados dizem que a práxis da psicanálise na rua só é sustentada mediante o desejo do analista. A despeito do desejo do analista servir de amparo nas horas mais difíceis, um entrevistado enfatizou que um movimento de saída deve se apresentar como possibilidade, uma vez que não se deve concordar com o que é da ordem do perverso, principalmente dentro das instituições que regem o trabalho. </p>
			<p>A primeira notícia sobre o desejo do analista, de acordo com a maioria dos analistas entrevistados, seria a vontade de construir uma prática clínica para além do consultório desde a graduação em psicologia, assim como a de participar de movimentos de reinvenção da psicanálise em espaços institucionais. Mesmo que, conforme comenta um entrevistado e afirma <xref ref-type="bibr" rid="B17">Freud (1918-1919/1996a</xref>), o analista não precise ter vivenciado circunstâncias similares ao analisando para compreender suas demandas, metade dos participantes citaram inscrições pessoais no campo social que os levaram a trabalhar com a PSR. Sobre essa interferência entre lugares pessoais e profissionais, uma psicanalista de longa data ressaltou que o analista precisa estar alerta ao seu desejo e sair do lugar narcísico que a PSR lhe convoca ao endereçar muitas demandas de cuidado. Nesse sentido, retoma-se que, apesar das necessidades concretas socioassistenciais que podem ser apresentadas pela PSR, o analista deve, tanto no consultório quanto na rua, estar atento ao que está implícito nessa demanda, uma vez que, como afirmou <xref ref-type="bibr" rid="B22">Lacan (1957-1958/1999</xref>, pp. 99), mesmo que inconscientemente, o sujeito </p>
			<disp-quote>
				<p>irá dirigir-se de uma certa maneira à senhora que faz obras de caridade, de outra ao banqueiro, de outra ao casamenteiro… Ou seja, seu desejo será tomado e remanejado não apenas no sistema do significante, mas no sistema do significante tal como instaurado ou instituído no Outro. </p>
			</disp-quote>
			<p>Com isso, entende-se que - muitas vezes exercendo o cargo de psicólogo - a PSR pode solicitar ao analista determinadas intervenções que carregam demanda oculta de cura, principalmente relacionada àquilo que considera como o fator de ida para as ruas, como, por exemplo, do uso de álcool e outras drogas. Nesse momento, portanto, diferentemente de profissionais de outras áreas ou de psicólogos de outras abordagens, o analista (em sua função), mesmo comprometido com o sofrimento sociopolítico, não deve direcionar um trabalho no sentido de buscar a melhoria de vida do sujeito (<xref ref-type="bibr" rid="B35">Rosa, 2015</xref>). Não se trata, todavia, de negar todas as solicitações dos atendidos em busca de assistência, uma vez que as demandas da PSR passam por necessidades urgentes de sobrevivência, como lembraram os entrevistados; mas de interpretar o caráter da demanda e não a atender na tentativa de proporcionar algo reconhecido moralmente ou politicamente no laço social como benévolo. Aqui, como afirma um entrevistado, ressalta-se que, na posição de analista, há de se “escutar sem muita pretensão” (regra técnica da atenção equiflutuante) e, a exemplo do que lembra outra participante, ao falar sobre moradia como forma de superação da situação de rua, não confundir objeto de luta política com direção do tratamento. </p>
			<p>O que deve importar ao analista, então, é a manutenção do desejo do analisando (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Lacan, 1958/1998</xref>). Abordando os pressupostos éticos a serem mantidos pelo analista nos atendimentos na rua, todos os participantes desta pesquisa responderam que o essencial pode ser resumido na ética de escuta psicanalítica. O analista supõe haver algo além do que é falado. Trata-se de apostar no sujeito do inconsciente como autônomo e de atuar em favor do desejo desse sujeito, sem tentar lhe impor qualquer lógica que possa sugerir uma melhora da qualidade de vida. Uma entrevistada fala, destarte, que “o analista deve ser popa e não proa” (sic), ou seja, navegar na direção comandada pelo próprio sujeito. Retomando os caminhos psicanalíticos, entende-se que os entrevistados estão em posição semelhante ao que afirma Freud:</p>
			<disp-quote>
				<p>Recusamo-nos da maneira mais enfática, a transformar um paciente, que se coloca em nossas mãos em busca de um auxílio, em nossa propriedade, a decidir por ele o destino, a impor-lhe os nossos próprios ideais e, com o orgulho do Criador, formá-lo à nossa própria imagem e verificar que isso é bom (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Freud, 1919-1918/1996a</xref>, pp. 178).</p>
			</disp-quote>
			<p>Nessa direção, uma participante reforça que a psicanálise aposta na responsabilidade do sujeito sobre a própria vida, não para culpabilização meritocrática deste sobre seus destinos, mas para afirmação do desejo sem intenção disciplinadora. Seguindo o mesmo raciocínio, outra entrevistada afirma que a ética de não desejar pelo outro é um modo de afirmação da vida sem hierarquização desta. Já uma terceira psicanalista comenta que a intervenção ética da psicanálise na rua acontece não na ausência de manifestação do analista, mas por meio de uma comunicação popular de explicação da teoria e dos objetivos do tratamento ao outro. </p>
			<p>No seguimento do que concerne à própria ética psicanalítica de subversão do determinado no campo social em favor do desejo (<xref ref-type="bibr" rid="B38">Safatle, 2020</xref>), entende-se que a psicanálise na rua pode ser considerada como uma prática também política. A práxis dos analistas na rua, contudo, não se resume a esse posicionamento diante do sofrimento, mas sim a uma série de ações perante o cotidiano de violências sofridas no corpo de maneira física e simbólica. Nesta pesquisa, foram registrados relatos de analistas que ajudaram os analisandos a fugir de recolhimentos determinados pela prefeitura; que sustentaram sua presença diante da aproximação de uma pessoa armada em direção a um grupo de pessoas em situação de rua; que se recusaram a cumprir ordens institucionais que pudessem prejudicar os atendidos; que reivindicaram os direitos da PSR em espaços de representação política e, por isso, foram perseguidos posteriormente, entre outras formas de atuação. Entende-se que a presença psicanalítica na rua, para além de operar com a escuta, é uma práxis que passa pelo envolvimento com as situações concretas e, portanto, políticas, o que se faz em ato.</p>
			<p>A exemplo da incidência política, destaca-se que cinco dos seis entrevistados mantinham contatos e articulações com o Movimento Nacional da População de Rua (MNPR). Duas professoras contaram que as atuais lideranças de dois Estados começaram com a militância a partir dos atendimentos nos projetos de extensão das universidades que, em aproximações com outras áreas do conhecimento, incentivaram a formação política e participação em espaços de controle social. Ainda, uma entrevistada contou que o trabalho de grupo desenvolvido com a PSR - incluindo alguns líderes do MNPR na época - na capital de um Estado levou a reivindicações que resultaram na primeira Política Municipal da População em Situação de Rua. </p>
			<p>Nota-se, portanto, que um trabalho que começa com a psicanálise tem diversas potencialidades políticas, pois, como destaca uma participante, garante ao sujeito o primeiro direito fundamental da vida: o de falar. Permitir que os sujeitos falem por si e ocupem determinados territórios com seus próprios corpos constitui, como afirmam, os resultados dessa pesquisa, os fazeres cotidianos da psicanálise na rua. Todavia, mediante uma fala de uma entrevistada, há de se fazer uma ressalva e considerar que a psicanálise, como teoria, ainda carrega marcas de uma tradição burguesa que não propõe, a partir de suas técnicas, intenções de transformação social. Assim, observa-se que a psicanálise se apresenta como faltante e que cabe aos analistas, em compromisso com a escuta de sujeitos em um respectivo tempo e território, construir edificações aquém e além da práxis psicanalítica para a promoção e a garantia de direitos fundamentais. Desta feita, instaura-se a possibilidade de fazer laço.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Considerações Finais</title>
			<p>A psicanálise na rua é possível e pode ser compreendida como uma das primeiras intervenções psicossociais em contextos de vulnerabilidade no Brasil, conforme os resultados da pesquisa proposta. Esse fato demonstra o pioneirismo de psicanalistas brasileiros que ofertam escuta à população em situação de rua ou à população em extrema vulnerabilidade sociopolítica, que transitam por um determinado território. Mais do que afirmar as possibilidades de uma clínica além do <italic>setting</italic> clássico, essa constatação mostra que a psicanálise está implicada com o campo social e político e é interessada pelo discurso e território que participam da produção de subjetividades. Assim, apesar das especificidades que consideram suas necessidades, a escuta de sujeitos em situação de rua se fundamenta na ética do desejo e nos preceitos teóricos, tal como qualquer prática psicanalítica.</p>
			<p>Nesses termos, a realidade psíquica, a transferência, a repetição e a temporalidade são termos-chave que guiam o analista no seu fazer (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Figueiredo, 1997</xref>) nos dispositivos clínicos na rua. <xref ref-type="bibr" rid="B8">Broide (2019c</xref>) nos situa que é o desejo do analista que viabiliza a construção de dispositivos clínicos de tratamento fora do <italic>setting</italic> clássico e que suas possibilidades de acontecimento foram historicamente se afirmando. </p>
			<p>A partir da pesquisa realizada, identifica-se que, apesar dos escassos registros sobre as condições técnicas para o trabalho com a PSR, os psicanalistas estão em diferentes lugares da pólis, empenhados em difundir o acesso ao trabalho com o inconsciente, como <xref ref-type="bibr" rid="B16">Freud (1918-1919/1996a)</xref> já indicava em sua conferência no V Congresso Internacional de Psicanálise. Ainda, destaca-se que o analista marca, com sua presença em territórios vulneráveis, a possibilidade de escutar e dar dignidade a esses sujeitos que vivem na e da rua. Embora não vise uma melhora dos sujeitos como finalidade do tratamento, esse trabalho possui um importante alcance terapêutico. Desse modo, considera-se que, por trás da crítica sobre o elitismo da psicanálise, esconde-se uma história de preocupação social por parte de psicanalistas desde os primórdios desta práxis. Recuperar o histórico de luta da psicanálise faz-se urgente para que a psicanálise possa ser implicada (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Rosa, 2016</xref>) e a população em geral, especialmente aqueles que se encontram à margem do laço social, tenha acesso à escuta analítica e possam se beneficiar de seus efeitos. </p>
			<p>Para que se realize nos termos de uma psicanálise implicada, faz-se importante a formação do analista e a transmissão da psicanálise no território, o que não se opera sem uma crítica ao sistema de poder e opressão que exclui os indesejados do laço social. Além disso, enfatiza-se que a democratização do acesso à psicanálise é essencial, uma vez que, a partir do estudo realizado, verifica-se que as intervenções psicanalíticas, voltadas à população que vive na e da rua no Brasil, estão vinculadas a trabalhos desenvolvidos por instituições de ensino superior e não são fortemente fomentadas pelas políticas públicas. Nota-se aqui um compromisso sociopolítico (<xref ref-type="bibr" rid="B35">Rosa, 2015</xref>) da universidade pública e dos próprios analistas, ao colocarem seus corpos em lugares imaginados e simbolizados como espaços de violações e ao se envolverem em debates estatais voltados à garantia dos direitos dos sujeitos. </p>
			<p>A práxis analítica na rua não se trata somente de estender os acessos da clínica psicanalítica para uma população que não tem acesso a essa, mas sim de reinventar a própria psicanálise e de transmiti-la para a formação de novos psicanalistas comprometidos, não só com a escuta do inconsciente, mas também com a mudança da linguagem que estrutura o inconsciente. Longe de qualquer invenção mirabolante, a psicanálise na rua é uma práxis sustentada pela ética do desejo. Através do ato de escuta do analista, pretende-se possibilitar uma fala do sujeito para que este construa suas próprias ancoragens. Assim, concluiu-se que a psicanálise na rua não é somente uma aposta no sujeito do inconsciente que vive na e da rua, mas também no direito de falar como forma de transformação social em contextos de vulnerabilidade.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<ref-list>
			<title>Referências</title>
			<ref id="B1">
				<mixed-citation>Ab’sáber, T., &amp; Zaiden, A. (2019). Clínica aberta de psicanálise: Política imanente da clínica. In I. Katz, &amp; E. E. Broide (Eds.), <italic>Psicanálise nos Espaços Públicos</italic> (pp. 108-117). IP/USP.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>Ab’sáber</surname>
							<given-names>T.</given-names>
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				<mixed-citation>Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. (2022). Guia brasileiro de moradia primeiro (housing first). Secretaria Nacional de Proteção Global. <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://www.gov.br/mdh/pt-br/assuntos/noticias/2022/dezembro/guia-auxilia-a-implementacao-de-projetos-de-moradia-primeiro-no-brasil/copy5_of_Guia_Brasileiro_de_Moradia_Primeiro_V3.pdf">https://www.gov.br/mdh/pt-br/assuntos/noticias/2022/dezembro/guia-auxilia-a-implementacao-de-projetos-de-moradia-primeiro-no-brasil/copy5_of_Guia_Brasileiro_de_Moradia_Primeiro_V3.pdf</ext-link>
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				<mixed-citation>Mori, M. E. (2018). A clínica psicanalítica: Uma prática política. <italic>Revista Brasileira de Psicanálise</italic>, <italic>
 <italic>52</italic>
</italic> (3), 91-105. <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0486-641X2018000300007">https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0486-641X2018000300007</ext-link>
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				<mixed-citation>Pavón-Cuéllar, D. (2019). Análise lacaniana de discurso: Entre a psicologia crítica e o impaciente anseio do acontecimento. In N. Lara, Jr., C. I. L. Dunker, &amp; D. Pavón-Cuéllar. (Eds.), <italic>Análise lacaniana de discurso: Subversão e pesquisa crítica</italic> (Cap. 1, pp. 19-36). Appris.</mixed-citation>
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					<publisher-name>Appris</publisher-name>
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				<mixed-citation>Pinheiro, L. R. A. (2019). <italic>
 <italic>Programa “de braços abertos” e a lógica da redução de danos</italic>
</italic> . [Caso de Ensino de Mestrado, Fundação Getúlio Vargas]. Sistema de Bibliotecas FGV. <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://repositorio.fgv.br/items/134ceba8-09a2-4d5e-b75f-b30c09937bb8">https://repositorio.fgv.br/items/134ceba8-09a2-4d5e-b75f-b30c09937bb8</ext-link>
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				<mixed-citation>Prost, A. (2009). <italic>História da vida privada: Da primeira guerra a nossos dias</italic> (Vol. 5). Companhia do Bolso.</mixed-citation>
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				<mixed-citation>Rangel, A. O. (2018). <italic>Psicanálise na rua</italic> [Tese de Doutorado, Universidade do Estado do Rio de Janeiro]. Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da UERJ. <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.bdtd.uerj.br/handle/1/18765">http://www.bdtd.uerj.br/handle/1/18765</ext-link>
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				<mixed-citation>Rosa, M. D., Carignato, T. T., &amp; Berta, S. L. (2006). Ética e política: A Psicanálise diante da realidade, dos ideais e das violências contemporâneos. <italic>Revista Ágora</italic>, 9(1), 35-48. https://doi.org/10.1590/S1516-14982006000100003</mixed-citation>
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				<mixed-citation>Rosa, M. D. (2015). <italic>
 <italic>Psicanálise, política e cultura:</italic>
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 <italic>A clínica em face da dimensão sócio-política do sofrimento</italic>. [Tese de Livre-Docência]. Universidade de São Paulo. </mixed-citation>
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					<publisher-name>Universidade de São Paulo</publisher-name>
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				<mixed-citation>Rosa, M. D. (2016). <italic>A clínica psicanalítica em face da dimensão sociopolítica do sofrimento</italic>. Escuta. </mixed-citation>
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				<mixed-citation>Roudinesco, E. (1994). <italic>Jacques Lacan: Esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento</italic>. Companhia das Letras. </mixed-citation>
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					<publisher-name>Companhia das Letras</publisher-name>
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				<mixed-citation>Safatle, V. (2020). <italic>Maneiras de transformar o mundo: Lacan, política e emancipação</italic>. Autêntica. </mixed-citation>
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				<mixed-citation>Zygouris, R. (2011). <italic>Psicanálise e psicoterapia</italic>. Via Leterra.</mixed-citation>
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	<sub-article article-type="translation" id="s1" xml:lang="en">
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            <article-id pub-id-type="doi">10.5020/23590777.rs.v25i2.e15077</article-id>
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				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>Research Report</subject>
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			<title-group>
				<article-title>Psychoanalysis and the Homeless Population: An Exploratory Study of Brazilian Experiences</article-title>
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				<contrib contrib-type="author">
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						<given-names>Elaine Cristina Schmitt</given-names>
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				<institution content-type="original">Graduated in Psychology from UFPR. Completed mandatory internships in Health at the Applied Psychology Center, UFPR and in the field of Work at a socio-educational center under the Secretariat of Justice and Citizenship of the Government of the State of Paraná, working respectively with clinical care and workers’ health. She also completed non-mandatory internships at the Public Defender’s Office of the State of Paraná and at the Court of Justice of the State of Paraná, gaining experience in criminal enforcement and criminal policy, particularly in the deinstitutionalization of individuals under security measures and in psychosocial care within custody hearings. She participated as an extension fellow in several UFPR outreach projects focused on human rights and gender. As her undergraduate thesis, she developed a theoretical-conceptual study titled The Medicalization of Crack Use in the Brazilian Context of the War on Drugs. She currently works as a psychologist at the State Center for the Defense of the Human Rights of People Experiencing Homelessness in Paraná.</institution>
				<institution content-type="orgname">UFPR</institution>
				<country country="BR">Brazil</country>
			</aff>
			<aff id="aff4">
				<institution content-type="original">Professor in the Department of Psychology and in the Graduate Program in Psychology at UFPR. She holds a PhD in Education from UFPR, a bachelor’s degree in Psychology from UFPR (1999), and a master’s degree in Administration from UFPR (2003), with an emphasis on Organizations. She develops teaching, research, and extension activities in the fields of Health, Work, and International Migration, with a focus on processes of subjectivation that occur in the encounter between the subject and the social and political field. She coordinates the Extension and Research Projects Migration and Processes of Subjectivation: Psychology, Psychoanalysis, and Politics in the Network of Care for Migrants and Psychoanalytic Clinical Practice and Research in the Field of Workers’ Health: Care for Ill Workers. She is currently conducting research on Institution, Subject, and Psychoanalysis and is a researcher in the CNPq Research Group - Political Economy of Power and Organizational Studies.</institution>
				<institution content-type="orgname">UFPR</institution>
				<country country="BR">Brazil</country>
			</aff>
			<abstract>
				<title>Abstract</title>
				<p>Building on the recognition that psychoanalysis has played a pioneering role in psychosocial interventions within contexts of sociopolitical vulnerability in Brazil, and on the understanding that this theoretical framework underpins the practice of many professionals in the public health and social assistance systems, this study aimed to investigate what psychoanalysts do when working with people experiencing homelessness. An exploratory qualitative study was conducted based on interviews with six psychoanalysts and university professors who currently provide or have previously provided care to people experiencing homelessness through extension or research projects in public and/or private higher education institutions or social organizations. The findings indicate that the clinical dispositif developed in street settings does not represent a mere transposition of the classical analytic setting. Instead, street-based care emerges from urgent demands and from the analyst’s offer of listening within the territory. Despite the need to reinvent certain techniques in response to the specificities of this population, participants identified the ethics of desire as the only psychoanalytic principle that must remain unchanged. In addition, the study identified a political dimension in psychoanalysts’ work, oriented toward the protection and promotion of human rights within institutional contexts, extending beyond a purely clinical role. It is therefore concluded that psychoanalysis in street contexts is not only a wager on the subject of the unconscious who lives in and from the street, but also a wager on the right to speak as a means of social transformation.</p>
			</abstract>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>homeless population</kwd>
				<kwd>psychoanalysis</kwd>
				<kwd>policy</kwd>
				<kwd>clinical devices</kwd>
				<kwd>implicated psychoanalysis</kwd>
			</kwd-group>
		</front-stub>
		<body>
			<p>Psychoanalysis, as a practice of listening oriented toward sustaining desire rather than hegemonic ideals, has, since its inception, presented itself as a technique grounded in subversion (<xref ref-type="bibr" rid="B38">Safatle, 2020</xref>). However, because it emerged from clinical practice with hysterical patients from relatively privileged socioeconomic backgrounds, psychoanalytic theory articulated a set of conditions presumed to be fundamental to the functioning of treatment. This arrangement, centered primarily on the triad of time, money, and the couch, became a focal point for criticism, as theoretical and technical limits were misused to characterize psychoanalysis as an elitist practice with limited therapeutic reach for other forms of psychopathology (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Figueiredo, 1997</xref>). Although such criticism continues to challenge orthodox positions within psychoanalysis, <xref ref-type="bibr" rid="B17">Freud himself (1912/1996b</xref>) emphasized in his recommendations to novice practitioners that the structuring of technique reflected his own individual circumstances and that nothing prevented psychoanalysts from achieving analytic results through new formulations.</p>
			<p>Anticipating social transformations and their implications for technical modifications, <xref ref-type="bibr" rid="B16">Freud (1918-1919/1996a)</xref>, in <italic>Lines of Advance in Psycho-Analytic Therapy</italic>, framed psychic suffering as a public health issue affecting both affluent and impoverished populations. As Freud stated, it is possible to foresee that sooner or later the conscience of society will awaken and remind it that the poor man has just as much right to assistance for his mind as he now has to the help offered by surgery (p. 180). Ensuring the right and access of all individuals to analytic treatment would therefore require psychoanalysis to adapt its technique to this new reality, underscoring a position of social responsibility. In this sense, psychoanalysts are called to remain attentive to social and political dynamics, while being available for listening and for the presence of psychoanalysis within the polis. Although such a stance demands technical reconfiguration, this “psychotherapy for the people” must remain faithful to elements taken from strict and non-tendentious psycho-analysis (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Freud, 1918-1919/1996a</xref>, p. 181).</p>
			<p>In her study <italic>Freud’s Free Clinics: Psychoanalysis and Social Justice</italic>, Elizabeth Ann <xref ref-type="bibr" rid="B12">Danto (2019</xref>) highlights that, even among Freud’s contemporaries, there was a movement not only to expand access to analytic treatment for broader populations, but also to innovate psychoanalytic technique for new situations. This application of psychoanalysis in contexts alternative to the classical setting became known as psychoanalysis in extension (<xref ref-type="bibr" rid="B23">Lacan, 1967/2003</xref>) and reached Brazil through the exile of Argentine institutional psychoanalysts during the 1970s (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Broide, 2019c</xref>). The migration of Argentine psychoanalysts committed to an anti-capitalist discourse was instrumental in fostering the Social Psychoanalytic Clinic established in Rio de Janeiro in 1973 and in initiating analytic listening within what Jorge Broide termed “critical social situations” in 1976, in the city of São Paulo. During this period, <xref ref-type="bibr" rid="B6">Broide (2019a)</xref> became one of the first psychoanalysts in Brazil to propose psychoanalytic work in contexts ranging from prisons and police departments, where victims of torture under the Brazilian Military Dictatorship were held, to spaces demarcated by the street. It is within this street-based practice, more specifically at Largo de Osasco in São Paulo, that one finds one of the earliest, if not the first, documented initiatives offering analytic listening to people experiencing homelessness in Brazil. Building on his master’s research in 1993, Broide further developed what he had already conceptualized as work in “critical social situations” (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Broide, 2016</xref>), advancing the practice of a “Psychoanalytic Clinic on the Street,” directed toward individuals who survived on the street or from it.</p>
			<p>At this point, it is important to revisit the anthropological foundations of the concept of the homeless population. According to <xref ref-type="bibr" rid="B26">Melo (2017</xref>), the term “população em situação de rua” (in Portuguese) came to be used, from the 1990s onward, to designate a group of people living on the streets due to the absence of conventional housing, driven by diverse individual circumstances and social determinants. This debate eventually led to the establishment of the National Policy for the Homeless Population in Brazil (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Decree No. 7,053, 2009</xref>). Prior to these definitional discussions, the concept was employed more broadly to group together diverse populations who did not necessarily sleep on the streets but lived within street environments under varied conditions (<xref ref-type="bibr" rid="B26">Melo, 2017</xref>). Accordingly, the Psychoanalytic Clinic on the Street proposed by <xref ref-type="bibr" rid="B3">Broide (1993</xref>) was not intended to serve exclusively the population currently defined as experiencing homelessness, but rather a broader set of marginalized groups, such as sex workers and other informal laborers, who derived their material and psychic subsistence from the street.</p>
			<p>More recently, the national policy definition has been complemented by the Housing First (<italic>Moradia Primeiro</italic>, in Portuguese) model, which defines the homeless population as a population group composed of people who have lost the conditions necessary to maintain their lives within a household (<xref ref-type="bibr" rid="B28">Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, 2022, p. 15</xref>). The shared premise of the impossibility of maintaining housing emphasizes that the extreme vulnerability experienced by this population is not caused by unemployment or the use of psychoactive substances, as moralistic perspectives often claim, but rather by the absence of housing itself, since many individuals are unemployed or use drugs while remaining housed. Established internationally and adopted in Brazil under the designation <italic>Moradia Primeiro</italic>, the Housing First model stands in opposition to stepwise welfare paradigms and proposes low-threshold housing provision as the primary means of overcoming homelessness (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Menezes, 2022</xref>).</p>
			<p>Considering this definition, which positions the struggle for housing as the central intervention strategy for people experiencing homelessness, the present study is grounded in the hypothesis that this population exists outside the social bond. It is a population symbolically constituted through a series of violences that initially resulted in the absence of housing, thereby restricting access to basic rights. Even while situated outside the social bond, and in line with the psychoanalytic investigations of <xref ref-type="bibr" rid="B33">Rangel (2018</xref>), this population is not socially invisible. Rather, it is composed of individuals placed at the margins of society who are continually subjected to repression by the capitalist state apparatus due to class and racial dynamics. As a group whose most fundamental rights are denied and whose position lies at the margins of the social bond, people experiencing homelessness become targets of public security policies that frequently aim at their elimination, thereby sustaining unequal power relations. As noted by <xref ref-type="bibr" rid="B34">Rosa et al. (2006</xref>, p. 40), appearing in the real, the homeless emerge as fictitious bodies, outside time and space. They have no face, no name, no bond. Thus, the homeless population is not only produced by discourses and relations that marginalize it, but is also subjected to ongoing attempts at erasure, precisely because it is deemed undesirable.</p>
			<p>In light of the multiple violations performed in the name of social hygienism, and considering the ethical commitment of psychoanalysis to sociopolitical suffering, the present study aims to investigate what psychoanalysts do when providing care to people experiencing homelessness within a historical context marked by the marginalization of these subjects. Given the pioneering role of psychoanalysis in extension within psychosocial interventions in Brazil, particularly in contexts of vulnerability, this study is justified by the understanding that psychoanalysis constitutes a crucial theoretical and ethical foundation for the practices of professionals working within the public health and social assistance systems.</p>
			<sec sec-type="methods">
				<title>Method</title>
				<p>This article presents the results of an exploratory, empirical study with a predominantly qualitative design, approved by the Research Ethics Committee of a public university, examining psychoanalytic experiences of care provided to people experiencing homelessness in different Brazilian states. Data were collected through six interviews with university professors and psychoanalysts who currently coordinate or have previously coordinated extension or research projects focused on people experiencing homelessness within public and/or private universities and social organizations across the country.</p>
				<p>Participant selection was based on the following criteria: i) willingness to participate in the study; ii) current or previous coordination of an extension or research project with or for people experiencing homelessness; and iii) professional practice grounded in psychoanalytic principles. In addition, because participants were recruited from different regions of Brazil, availability to participate via an online platform was required. A total of six participants were selected, all of whom reported experience providing care to people experiencing homelessness through university-based or governmental projects linked to the health and social assistance sectors. As all projects involved a political dimension, the identities of the interviewed psychoanalysts were preserved. To indicate the scope of the experiences examined in this study, participants were drawn from four Brazilian regions: Northeast, Central-West, Southeast, and South.</p>
				<p>The choice of this methodological approach followed an unstructured literature review conducted as part of the same research project. This review identified a psychoanalytic practice historically committed to sociopolitical principles and oriented toward offering analytic care in contexts of vulnerability. Despite these initial findings, research revealed a lack of theorization regarding the technical and ethical conditions under which such interventions are offered. In response, the present study proposed conducting interviews with psychoanalysts experienced in working with people experiencing homelessness in order to understand the possibilities of psychoanalytic praxis within the Brazilian social context.</p>
				<p>Data collection was conducted by using a semi-structured interview guide addressing i) the interviewees’ experiences of working with people experiencing homelessness; ii) the ethical specificities of analytic listening in street settings or in institutions providing care to people experiencing homelessness; and iii) the intersections between psychoanalysis and politics. The interview data were analyzed using content analysis (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Bardin, 2011</xref>), which enabled the categorization of experiences based on recurring themes, salient elements, and differences across psychoanalytic practices in distinct Brazilian localities. In addition, Lacanian discourse analysis (<xref ref-type="bibr" rid="B25">Lara et al., 2019</xref>) was employed as an analytical framework that offers Lacanian theoretical conceptions, notions, or simple theoretical dispositions that may be illuminating when approaching a discourse (<xref ref-type="bibr" rid="B30">Pavón-Cuéllar, 2019</xref>, p. 20). This approach seeks to reveal what remains unspoken from a critical and politically engaged position, articulating psychoanalysis and politics so as not to objectify or depoliticize the subject, but rather to take a position while positioning the subject and granting them a place within discourse (<xref ref-type="bibr" rid="B30">Pavón-Cuéllar, 2019</xref>, p. 22).</p>
			</sec>
			<sec sec-type="results|discussion">
				<title>Results and Discussion</title>
				<p>If psychoanalysis exists beyond the consulting room and has articulated a discourse of social responsibility since its inception, its provision in street settings is both possible and meaningful, as demonstrated by <xref ref-type="bibr" rid="B9">Broide’s (2021</xref>) experience with the <italic>Psycho-Analytic Clinic on the Street</italic>. The central challenge, however, lies in understanding how analytic listening unfolds within contexts of extreme social vulnerability. This study is grounded in the notion of an engaged psychoanalysis, as articulated by <xref ref-type="bibr" rid="B36">Rosa (2016</xref>, p. 185), which seeks to elucidate the subject’s suffering in light of the different positions occupied within the social bond and to consider the specificity of the case, taking into account the effects of the discursive helplessness of certain subjects in the construction of clinical tactics, i.e., dispositifs and strategies, that refer both to their desiring position within the bond with the other and to singular and collective modalities of resistance to processes of social alienation (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Rosa, 2016</xref>, p. 186).</p>
				<p>With the agreement of all participating psychoanalysts, the first central finding is that psychoanalysis in street contexts does not consist of a simple transposition of office-based practice. Although all interviewees agreed that the demands presented by those receiving care are not fundamentally different from those observed in classical clinical settings, and that psychoanalytic techniques are largely preserved despite certain reinventions, they emphasized that stereotypical criteria often used to define an analysis, such as the couch and payment, are not prerequisites. Rather, these elements are mediated by the logic of the street itself.</p>
				<p>The absence of payment by the person receiving care, as anticipated by <xref ref-type="bibr" rid="B16">Freud (1918-1919/1996a</xref>), does not emerge as an obstacle to treatment. This was confirmed in the accounts of all 6 interviewees, as all analytic encounters with people experiencing homelessness were provided free of charge. Far from discouraging engagement, one participant reported that the lack of payment sometimes produced a sense of strangeness, as the listening encounter was perceived as so rare and valuable that, in the analysands’ view, it ought to be compensated in some way, for example through gifts recovered from waste. This recognition of analytic work illustrates, as noted by <xref ref-type="bibr" rid="B15">Figueiredo (1997</xref>) in observations of care provided in public outpatient settings, that payment can be understood as a function, and that the absence of money does not imply, contrary to Freud’s earlier concern (<xref ref-type="bibr" rid="B19">Freud, 1913/2021b</xref>), the loss of its regulatory effect on the sexual factors of treatment. In this sense, other elements appear to be decisive for the subject’s engagement in treatment. As one psychoanalyst stated, “using words is a high price to pay for some” (sic). Without dismissing the complexity of money and the couch, particularly in the treatment of neuroses under transference, the interviewees emphasized the need for analytic caution so that these conditions do not become fetishes in defining what does or does not constitute an analysis, given that listening to the unconscious may occur through other means.</p>
				<p>If money appears as dispensable given conditions of socioeconomic vulnerability, the couch, as one interviewee suggested, can only be conceived as the bench in a public square. Still shaped by the unpredictability produced by the absence of housing, time emerged as the most emphasized condition of treatment in the interviewees’ accounts. All participants noted that time is unexpected and continuously variable in both duration and frequency. In some projects, it is common for a person experiencing homelessness to attend a single session and never return. The notion of a single session is not new within the context of public psychoanalytic clinics. Although psychoanalysis is not typically conceived as a one-time encounter, <xref ref-type="bibr" rid="B1">Ab’Sáber and Zaiden (2019)</xref> argue that a single meeting may open a pathway to the unconscious and produce a therapeutic effect. What is at stake in single-session psychoanalytic work, as <xref ref-type="bibr" rid="B29">Mori (2018</xref>) observes, is not analytic interpretation, but rather the relief produced by freely and addressively speaking.</p>
				<p>Reflecting on the brevity of treatment, some psychoanalysts described analytic listening in street contexts as a form of bearing witness, drawing on the concept developed within the Clinics of Testimony (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Clínicas do Testemunho de RS e SC, 2018</xref>), originally proposed for amnestied victims of the Brazilian Military Dictatorship. In this framework, the aim is to promote a form of reparation of the traumatic through the construction of a shared memory.</p>
				<p>Although not the norm, all interviewees agreed that longer-term work in street contexts is possible, with time remaining an unpredictable variable in both duration and frequency. Two psychoanalysts from different regions highlighted that sustained treatment may occur through the proposal of therapeutic accompaniment (TA). They noted the influence of psychoanalysts in the development of this approach, which is now widely used in mental health care. TA began to take shape at the La Borde Clinic in France and reached Latin America through Argentine psychoanalysts in the 1960s (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Holanda et al., 2020</xref>). In Brazil, TA has been particularly inspired by the psychoanalyst and anti-asylum movement activist Antônio <xref ref-type="bibr" rid="B24">Lancetti, through what he termed <italic>Peripatetic Clinic</italic> (Lancetti, 2008</xref>), whose aim was to promote the analysand’s community insertion through sessions conducted while walking through the city.</p>
				<p>An examination of the history of psychoanalysis in Brazil and of extension projects providing care to people experiencing homelessness reveals a consistent concern among the interviewees with mental health demands. These demands, however, were inseparable from the social context and from the need to promote therapeutic strategies that ensure access and citizenship. Radmila <xref ref-type="bibr" rid="B39">Zygouris (2011</xref>) notes that, in contemporary clinical practice, analysands’ demands more closely resemble what she terms current neuroses than the transference neuroses, hysteria and obsessional neurosis, that Freud originally identified as the objects of psychoanalytic treatment. Increasingly, psychoanalysis encounters demands that, in its early days, would have been directed toward psychotherapy rather than analysis. This shift requires renewed reflection on the therapeutic effects of psychoanalysis so that it does not become a mere ideology disconnected from the subject’s actual demand (<xref ref-type="bibr" rid="B39">Zygouris, 2011</xref>). In this sense, psychoanalysts attentive to mental health demands enable viable work with vulnerable populations, aligning with what <xref ref-type="bibr" rid="B37">Roudinesco (1994</xref>) identified as a future-oriented movement of psychoanalysis beyond the classical consulting room.</p>
				<p>Although psychoanalysis in street contexts does not aim to reproduce office-based conditions, two interviewees emphasized that listening initiated in open spaces may later transition to enclosed settings. After years of working on the street, one participant reported that renting a commercial office allowed people to access a more confidential listening space and longer-term treatment. While the need for privacy in listening is part of a bourgeois symbolic order (<xref ref-type="bibr" rid="B32">Prost, 2009</xref>), from which people experiencing homelessness are excluded due to the absence of housing, as one interviewee noted, it is nonetheless necessary to think in terms of equal access to treatment and to avoid romanticizing the precariousness imposed by insufficient public investment. In this regard, interviewees emphasized the State’s responsibility to provide dignified conditions for care. One psychoanalyst with extensive experience in public policy work observed that street-based listening can function as a gateway to institutional care for subjects who, due to persistent state repression, believe they cannot access certain spaces, even when these spaces are public.</p>
				<p>Despite the work conducted within public institutions, most psychoanalysts emphasized that a major barrier to care for people experiencing homelessness lies in rigid bureaucratic protocols that fail to account for factors such as the absence of personal documentation. In addition, interviewees noted that this population is frequently denied care in institutional settings. As one mental health researcher observed, therapeutic accompaniment is sometimes necessary simply to ensure access to services, as the person experiencing homelessness is accompanied by a housed analyst, who is recognized as a subject of rights. Without attributing individual blame to public servants, interviewees emphasized that denial of care and stigmatization in health services are largely attributable to the precarization of the Psychosocial Care Network (RAPS) and to insufficient professional training for interventions in contexts of vulnerability.</p>
				<p>According to the interviewees, higher education institutions play a crucial role in addressing gaps left by the absence of public practices and policies directed toward people experiencing homelessness. These institutions contribute by training professionals capable of recognizing the subject across different political and institutional spaces and of repairing state violations rooted in colonial histories. For these psychoanalysts, it is essential to envision new modes of social insertion for a population devastated and excluded by the capitalist apparatus. Considering the multiple violations directed at people experiencing homelessness, one participant emphasized that, unlike productivity-oriented social organizations, public institutions are necessary for analysts to sustain transference under dignified working conditions. This position resonates with Freud’s argument (<xref ref-type="bibr" rid="B16">1918-1919/1996a</xref>) regarding the State’s responsibility to guarantee free access to care and his caution against philanthropic models of practice.</p>
				<p>Unlike the more solitary construction of analytic work in private practice, street-based psychoanalysis requires close articulation with the health and social assistance networks. According to one interviewee, the care demands of people experiencing homelessness are urgent in nature and are often initially directed toward other spheres, such as legal services or social assistance, before being addressed through psychoanalysis. The mental health demands most frequently directed to psychoanalysts, according to the interviewees, concern substance use and psychosis.</p>
				<p>In work with psychosis, two participants emphasized the role of psychoanalysis in guiding the subject toward the construction of anchoring points that allow for some degree of organization. For <xref ref-type="bibr" rid="B7">Broide (2019b</xref>), anchoring points are the threads, often invisible, that tie the subject to life. This concept, according to the author, helps the analyst identify where to begin the work when confronted with the misery experienced by the analysand and faced with the question, “how is this person still alive?” Such a clinical orientation is crucial to prevent the analyst from suggesting interventions, such as reestablishing contact with family, that could lead to “retraumatization.”</p>
				<p>Beyond the subject’s own anchoring points, two psychoanalysts highlighted the importance of activities mediated by art, formal employment, and political activism. One cited the case of a person in intense psychic suffering who later became a social researcher in the census commissioned by the city of São Paulo (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Broide et al., 2018</xref>). Reflecting on psychosis, one interviewee emphasized the necessity of psychoanalytic work within territories, noting that the street operates according to an asylum-like logic, in which psychic suffering may serve as a justification for state-led institutionalization or incarceration of bodies deemed dangerous.</p>
				<p>Within this same logic of bodily control, demands related to substance use emerge. One interviewee, in agreement with the conception of addiction proposed by fundamental psychopathology (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Conte, 2002</xref>), argued that an individual’s relationship with substances must be understood in relation to their connections with other objects in life. According to an interviewee specializing in alcohol and drug-related demands, the use of psychoactive substances functions to block or suspend other demands. Rather than attempting to remove the subject from substance use at all costs, the psychoanalyst should be guided by harm reduction principles. Harm reduction, in this sense, implies not only opposition to abstinence-based models, but also resistance to prohibitionist policies, which, according to the experience of the <italic>De Braços Abertos</italic> program, are the primary drivers of the violations suffered by people experiencing homelessness.</p>
				<p>Some interviewees referred to the <italic>De Braços Abertos</italic> program as a model for addressing alcohol and drug-related demands among people experiencing homelessness. Coordinated by the psychoanalyst Antônio Lancetti in the Cracolândia region, the program functioned as a low-threshold, intersectoral policy that combined health care with housing provision and social inclusion through employment (<xref ref-type="bibr" rid="B31">Pinheiro, 2019</xref>). Based on the Housing First model, this initiative was discontinued in São Paulo in 2017, giving way to repressive and “urban cleansing” interventions.</p>
				<p>One interviewee noted that substance-related issues are inseparable from the “war on drugs,” within which people experiencing homelessness may be understood as “expropriated or refugees within their own country” (sic). Four of the six interviewees drew parallels between people experiencing homelessness and migrant or refugee populations. Two participants observed that many migrants and refugees end up experiencing homelessness upon arriving in Brazil, and that this number has increased in recent years. Although these populations were associated due to their shared condition of placelessness, one participant emphasized that migrants may possess greater psychic resources, as they leave situations of suffering in search of new meaning, whereas people experiencing homelessness are said to have “fallen” into the street (sic). In this view, homelessness represents a transition from an initial state of abandonment into a condition of hopelessness regarding the possibility of overcoming such circumstances.</p>
				<p>When recalling the factors that may lead individuals to the street, interviewees emphasized that people experiencing homelessness constitute a heterogeneous population. Consequently, providing care may involve listening to transgender and <italic>travesti</italic> (a Latin American gender identity distinct from transgender categories) individuals, formerly incarcerated people, sex workers, and many other identities whose concrete life conditions did not allow for the maintenance of housing.</p>
				<p>Despite the multiplicity of demands and specificities, when asked about the conditions necessary for building a street-based psychoanalytic practice, all interviewees unanimously stated that the only non-negotiable element is the ethical commitment to analytic listening to the subject of the unconscious. Everything else, according to the participants, is open to reinvention. This transformative movement aligns with the observation of <xref ref-type="bibr" rid="B20">Iannini and Santiago (2020</xref>) that theory and technique can be constantly refined, unlike the ethical premise of the clinic. Street-based psychoanalysis thus emerges as a practice sustained over time and through presence within the territory, allowing it to be symbolized as a possibility by people experiencing homelessness.</p>
				<p>Accordingly, four psychoanalysts, excluding those whose experience was developed within <italic>consultórios na rua</italic>, emphasized the importance of repeating the same location and schedule in street work. Repetition of encounters was described as one of the conditions that enable the establishment of transference with people experiencing homelessness. Nevertheless, all participants noted that a transferential bond may still be formed even when there are long intervals between street-based encounters.</p>
				<p>Transference in street contexts, unlike that in private practice, is subject to the flows of the city and to institutional interests and affects. With regard to suggestion, nearly all psychoanalysts stated that this technique does not apply, as it is associated with a moralistic and paternalistic intention on the part of the analyst. One participant emphasized the importance of considering the subject’s desire and the violations they have suffered before suggesting shelter. Another psychoanalyst argued that communicating knowledge to prevent self-destruction in high-risk situations should not be confused with suggestion, stating that “we (analysts) perform a bodily act of presence that is affirmed in many situations, and this does not undermine the work with the unconscious” (sic). Diverging from this position, only one interviewee considered suggestion to be a legitimate psychoanalytic technique, provided it adheres to <xref ref-type="bibr" rid="B18">Freud’s (1937/2021a)</xref> guidelines on constructions in analysis.</p>
				<p>Beyond technique, the influence of peripatetic clinic was reaffirmed, alongside the theoretical contributions of the Argentine psychoanalyst Pichon Rivière, cited by most participants. Group-based dispositifs were described as mechanisms for encouraging speech and fostering solidarity through recognition. As <xref ref-type="bibr" rid="B38">Safatle (2020</xref>) notes, within Lacanian theory, recognition does not entail the production of shared identities, but rather enables socialization even in the absence of identificatory predicates. For one interviewee, group work plays a key role in developing strategies to address tensions that arise in street contexts and shape the organization of certain collectives among people experiencing homelessness.</p>
				<p>Another strategy for building networks in contexts of extreme vulnerability involves co-therapy, based on intercultural clinic approaches, as noted by one participant who also works with migrant populations. Beyond fostering relational bonds for the analysand, co-intervention was described as a means of better understanding the distinct registers involved in transference and the imaginary representations held by different therapists regarding the same reality.</p>
				<p>The final technical reinvention highlighted by the interviewees concerns the active offer of listening, rather than waiting for spontaneous demand articulated in advance. According to one participant, in most cases, the psychoanalyst must co-construct the demands to be addressed together with the analysand. Before this can occur, however, all participants emphasized the importance of establishing a bond and making the intentions of care explicit. One interviewee noted that offering harm reduction supplies and bodily care items may serve as a pathway to listening. Beyond mental health interventions, one participant also underscored the role of certain forms of assistance, such as food provision, in fostering trust. These secondary offers, however, must not obscure the primary intention of listening. As another interviewee stressed, analytic listening must be genuinely offered, with authentic interest in the subject’s suffering. After this, the decision to continue treatment rests with the person themselves.</p>
				<p>Although there are situations in which the analyst may need to actively seek out the person, such as in severe intoxication episodes, another participant emphasized that offering care is not synonymous with insistence. From this perspective, the psychoanalyst should not cling to listening as a salvific element to be imposed universally.</p>
				<p>Analytic listening must be grounded in an understanding of the lived realities of people experiencing homelessness. Thus, all interviewees emphasized the importance of psychoanalysts engaging with ethnographic and anthropological studies of the territory. Beyond providing a theoretical foundation, such fields offer methodological tools, such as institutional diagnosis and field diaries, that may support clinical work. Nonetheless, as <xref ref-type="bibr" rid="B17">Freud (1912/1996b)</xref> cautioned, methodological frameworks should not guide the analyst during sessions. As one interviewee with experience in ethnography observed, there is a fundamental difference between the ethnographer and the psychoanalyst: the former is concerned with symbolic exchanges, whereas the latter is concerned with the subject’s anxiety.</p>
				<p>Knowledge of the territory may also help analysts protect themselves from situations of harassment and violence, concerns highlighted particularly by female psychoanalysts. Two interviewees emphasized experiences of harassment and the need to work in groups rather than alone. These issues were not attributed to people experiencing homelessness per se, but rather to gender dynamics operating within a patriarchal and sexist culture. According to the interviewees, the most significant violation faced by analysts on the street is bodily exposure to tense and violent situations, such as police interventions in drug-use scenes.</p>
				<p>In this context, participants emphasized that street-based psychoanalytic praxis can only be sustained through the analyst’s desire. While this desire provides support in the most challenging moments, one interviewee stressed that the possibility of withdrawal must also remain open. The analyst, in this view, should not acquiesce to what belongs to the order of the perverse, particularly within institutional frameworks that govern the work.</p>
				<p>The first indication of the analyst’s desire, according to most interviewees, lies in the wish, often present since undergraduate training in psychology, to build a clinical practice beyond the consulting room and to participate in movements aimed at reinventing psychoanalysis within institutional spaces. Although, as one interviewee noted and as <xref ref-type="bibr" rid="B16">Freud (1918-1919/1996a)</xref> affirmed, the analyst does not need to have experienced circumstances similar to those of the analysand in order to understand their demands, half of the participants reported personal inscriptions within the social field that led them to work with people experiencing homelessness. Reflecting on the interplay between personal and professional positions, a senior psychoanalyst emphasized that analysts must remain attentive to their own desire and avoid occupying the narcissistic position to which people experiencing homelessness may summon them through the multiplicity of care-related demands they address to the analyst.</p>
				<p>In this sense, it is reaffirmed that, despite the concrete socio-assistance needs that may be presented by people experiencing homelessness, the analyst, whether in private practice or on the street, must attend to what is implicit in the demand. As <xref ref-type="bibr" rid="B22">Lacan (1957-1958/1999</xref>, p. 99) observed, even unconsciously, the subject</p>
				<disp-quote>
					<p>will address himself in one way to the charitable lady, in another to the banker, in another to the matchmaker… That is to say, his desire will be taken up and reconfigured not only within the system of the signifier, but within the system of the signifier as instituted in the Other.</p>
				</disp-quote>
				<p>Accordingly, it is understood that, often encountering the analyst in their role as a psychologist, people experiencing homelessness may request specific interventions that carry a concealed demand for cure, particularly related to what they identify as the factor leading them to the street, such as the use of alcohol and other drugs.</p>
				<p>At this juncture, unlike professionals from other fields or psychologists working within other theoretical approaches, the analyst (in their function), even when committed to sociopolitical suffering, should not direct the work toward improving the subject’s life conditions (<xref ref-type="bibr" rid="B35">Rosa, 2015</xref>). This does not entail refusing all requests for assistance, given that the demands of people experiencing homelessness frequently involve urgent survival needs, as the interviewees emphasized. Rather, it requires interpreting the nature of the demand and refraining from responding to it in an attempt to provide something that is morally or politically recognized as benevolent within the social bond. As one interviewee stated, the analyst’s position entails “listening without excessive pretension,” in accordance with the technical rule of evenly suspended attention. Similarly, as another participant noted when discussing housing as a means of overcoming homelessness, one must not confuse the object of political struggle with the direction of treatment.</p>
				<p>What must therefore guide the analyst is the maintenance of the analysand’s desire (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Lacan, 1958/1998</xref>). When asked about the ethical principles that should be upheld in street-based care, all participants responded that the essential element can be summarized as the ethics of psychoanalytic listening. The analyst presupposes that there is something beyond what is spoken, wagering on the subject of the unconscious as autonomous and acting in favor of that subject’s desire, without imposing any logic aimed at improving quality of life. As one interviewee put it, “the analyst should be the stern, not the bow” (sic), i.e., navigating in the direction steered by the subject themselves. Revisiting psychoanalytic paths, the interviewees’ position echoes Freud’s assertion:</p>
				<disp-quote>
					<p>We emphatically refuse to turn a patient who places himself in our hands in search of help into our property, to decide his fate for him, to impose our own ideals upon him, and, with the pride of the Creator, to shape him in our own image and see that it is good (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Freud, 1918-1919/1996a</xref>, p. 178).</p>
				</disp-quote>
				<p>Along these lines, one participant reinforced that psychoanalysis wagers on the subject’s responsibility for their own life, not as a form of meritocratic blame for their fate, but as an affirmation of desire devoid of disciplinary intent. Another interviewee similarly emphasized that the ethic of not desiring in place of the other constitutes a way of affirming life without hierarchizing it. A third psychoanalyst noted that ethical intervention in street-based psychoanalysis does not occur through the analyst’s silence, but through a form of popular communication that explains the theory and aims of treatment to the other.</p>
				<p>Following the psychoanalytic ethic of subverting socially determined norms in favor of desire (<xref ref-type="bibr" rid="B38">Safatle, 2020</xref>), psychoanalysis in street contexts may thus be understood as an inherently political practice. However, the analysts’ praxis on the street does not reduce itself to a stance toward suffering alone, but encompasses a series of actions within the everyday landscape of physical and symbolic violence inflicted upon bodies. This study documented reports of analysts who assisted analysands in evading forced removals ordered by municipal authorities; who maintained their presence when an armed individual approached a group of people experiencing homelessness; who refused to comply with institutional directives that could harm those receiving care; and who advocated for the rights of people experiencing homelessness in political representation spaces, subsequently facing persecution. These accounts suggest that psychoanalytic presence on the street extends beyond listening to a praxis that involves engagement with concrete, and therefore political, situations enacted in real time.</p>
				<p>Reflecting this political incidence, five of the six interviewees reported maintaining contacts and articulations with the National Movement of the Homeless Population (MNPR for short, in Portuguese). Two professors described how current leadership figures in two Brazilian states began their activism through engagement in university outreach projects, which, through interdisciplinary collaboration, encouraged political formation and participation in social oversight spaces. Another interviewee reported that group work conducted with people experiencing homelessness, including individuals who later became MNPR leaders, in the capital of one state led to claims that resulted in the establishment of the first Municipal Policy for the Homeless Population.</p>
				<p>It can thus be observed that work initiated through psychoanalysis holds multiple political potentials. As one participant emphasized, it guarantees subjects the most fundamental right of life: the right to speak. Allowing subjects to speak for themselves and to occupy territories with their own bodies constitutes, as evidenced by the findings of this study, the everyday practice of psychoanalysis on the street. Nevertheless, as one interviewee cautioned, psychoanalysis as a theory still bears marks of a bourgeois tradition and does not, through its techniques alone, propose intentions of social transformation. Psychoanalysis therefore appears as structurally lacking, and it falls to analysts, committed to listening to subjects within a specific time and territory, to construct interventions both within and beyond psychoanalytic praxis to promote and guarantee fundamental rights. In doing so, the possibility of forging a social bond is established.</p>
			</sec>
			<sec sec-type="conclusions">
				<title>Final Considerations</title>
				<p>The findings of this study demonstrate that street-based psychoanalysis is not only possible but may also be understood as one of the earliest psychosocial interventions developed in contexts of vulnerability in Brazil. This evidence highlights the pioneering role of Brazilian psychoanalysts who have offered analytic listening to people experiencing homelessness or to populations living in extreme sociopolitical vulnerability within specific territories. Beyond affirming the feasibility of a clinical practice outside the classical setting, these findings underscore psychoanalysis’ implication in the social and political field, as well as its interest in the discourses and territories that participate in the production of subjectivities. Thus, despite the specificities related to concrete needs, listening to subjects experiencing homelessness remains grounded in the ethics of desire and in psychoanalytic theoretical principles, as in any psychoanalytic practice.</p>
				<p>Within this framework, psychic reality, transference, repetition, and temporality emerge as key concepts guiding the analyst’s work in street-based clinical dispositifs (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Figueiredo, 1997</xref>). <xref ref-type="bibr" rid="B8">Broide (2019c</xref>) emphasizes that it is the analyst’s desire that enables the construction of clinical treatment dispositifs outside the classical setting, and that the possibility of such practices has been historically affirmed over time.</p>
				<p>Based on the present research, it is possible to identify that, despite the scarcity of systematic records concerning the technical conditions of work with people experiencing homelessness, psychoanalysts occupy different positions within the polis, actively engaged in expanding access to work with the unconscious, as <xref ref-type="bibr" rid="B16">Freud (1918-1919/1996a)</xref> had already indicated in his address to the Fifth International Psychoanalytic Congress. Moreover, the analyst’s presence in vulnerable territories marks the possibility of listening to these subjects and conferring dignity upon those who live in and from the street. Although such work does not aim at improving subjects’ lives as an explicit treatment goal, it nonetheless carries significant therapeutic reach. In this sense, behind the recurrent critique of psychoanalysis as an elitist practice lies a historical commitment to social concern that has characterized psychoanalytic praxis since its inception. Recovering this history of struggle is therefore urgent, so that psychoanalysis may remain engaged (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Rosa, 2016</xref>) and so that the population at large, particularly those at the margins of the social bond, may gain access to analytic listening and benefit from its effects.</p>
				<p>For psychoanalysis to operate in the terms of an engaged practice, the formation of analysts and the transmission of psychoanalysis within the territory are essential. Such processes cannot occur without a critical stance toward systems of power and oppression that exclude those deemed undesirable from the social bond. In addition, this study highlights the importance of democratizing access to psychoanalysis. The findings indicate that psychoanalytic interventions directed toward people who live in and from the street in Brazil are primarily linked to initiatives developed by higher education institutions and are not robustly supported by public policies. This reality reveals a sociopolitical commitment (<xref ref-type="bibr" rid="B35">Rosa, 2015</xref>) on the part of public universities and of psychoanalysts themselves, who place their bodies in spaces imagined and symbolized as sites of violation and engage in state-level debates aimed at guaranteeing subjects’ rights.</p>
				<p>Street-based analytic praxis is therefore not merely about extending access to psychoanalytic care for a population historically excluded from it. Rather, it involves reinventing psychoanalysis itself and transmitting it in the formation of new psychoanalysts committed not only to listening to the unconscious, but also to transforming the language that structures it. Far from any grandiose invention, psychoanalysis on the street is a praxis sustained by the ethics of desire. Through the analyst’s act of listening, it seeks to enable the subject’s speech so that they may construct their own anchoring points. It is thus concluded that street-based psychoanalysis represents not only a wager on the subject of the unconscious who lives in and from the street, but also a wager on the right to speak as a means of social transformation in contexts of vulnerability.</p>
			</sec>
		</body>
	</sub-article>
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