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			<journal-id journal-id-type="publisher-id">subj</journal-id>
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				<journal-title>Revista Subjetividades</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">R Subj</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="epub">2359-0777</issn>
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				<publisher-name>Universidade de Fortaleza</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.5020/23590777.rs.v25i1.e14534</article-id>
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				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>RELATOS DE PESQUISA</subject>
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				<article-title>O olhar de médicas(os) obstetras sobre a relação com pacientes e familiares</article-title>
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					<trans-title>La mirada de médicas(os) obstetras sobre la relación con pacientes y familiares</trans-title>
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					<trans-title>Le point de vue des obstétricienne sûr la relation avec les patients et leurs familles</trans-title>
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						<given-names>Jéssika Sonaly Vasconcelos Barborsa de</given-names>
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						<given-names>Anísio José da Silva</given-names>
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				<institution content-type="original">Psicóloga graduada pela Universidade Estadual da Paraíba (2014). Mestrado e Doutorado em Psicologia Social pela Universidade Federal da Paraíba (2016) e Universidade de São Paulo - USP (2023).</institution>
				<institution content-type="orgname">Universidade de São Paulo</institution>
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			<aff id="aff2">
				<institution content-type="original">Graduado em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1992), mestre em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1997), sob a orientação da Prof Maria Luíza Lo Presti Seminério, doutor em Psicologia Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2006).</institution>
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			<aff id="aff3">
				<institution content-type="original">Mestra e Doutora em Psicologia Social do Trabalho na Universidade Federal da Paraíba- UFPB. Graduada em Psicologia pelo Centro Universitário de João Pessoa - UNIPÊ.</institution>
				<institution content-type="orgname">Universidade Federal da Paraíba</institution>
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			<aff id="aff4">
				<institution content-type="original">Graduação em Formação de Psicólogo pela Universidade Federal da Paraíba (1983), mestrado em Administração pela Universidade Federal da Paraíba (1991), doutorado em Ciências pela Fundação Oswaldo Cruz (2001) e pós-doutorado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro.</institution>
				<institution content-type="orgname">Universidade do Estado do Rio de Janeiro</institution>
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			<author-notes>
				<corresp id="c1">
					<label>Endereço para correspondência</label> Jéssika Sonaly Vasconcelos Barborsa de Melo E-mail: <email>jessikasonaly@gmail.com</email> Paulo César Zambroni de Souza E-mail: <email>paulozamsouza@yahoo.com.br</email> Amanda Dias Dourado E-mail: <email>amandadouradorh@gmail.com</email> Thaís Augusta Cunha de Oliveira Máximo E-mail: <email>thaisaugusta@gmail.com</email> Anísio José da Silva Araújo E-mail: <email>anisiojsa@uol.com.br</email>
				</corresp>
			</author-notes>
			<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
				<day>05</day>
				<month>02</month>
				<year>2026</year>
			</pub-date>
			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
				<season>Jan-Apr</season>
				<year>2025</year>
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			<volume>25</volume>
			<issue>01</issue>
			<elocation-id>e14534</elocation-id>
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				<date date-type="received">
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				<date date-type="accepted">
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					<year>2024</year>
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				<license license-type="open-access" xlink:href="https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/" xml:lang="pt">
					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
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			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>A obstetrícia faz parte de um evento social, cultural e histórico de grande estima para a sociedade: o nascimento. Dessa maneira, os profissionais que atuam nessa área vivenciam uma pressão constante por bons resultados. Soma-se isso o contexto brasileiro, marcado por diversas dificuldades no atendimento ao parto no âmbito da assistência pública à saúde, o que traz implicações nas relações interpessoais estabelecidas entre a médica(o) obstetra e as usuárias dos seus serviços. Dito isto, este artigo objetiva compreender o ponto de vista de médicas e médicos sobre a relação obstetra-gestante e seus familiares e acompanhantes no Serviço Único de Saúde. Utilizou-se como instrumento de coleta de dados um roteiro de entrevista semiestruturado, analisado pela perspectiva da análise de conteúdo temática, com o aporte teórico da psicodinâmica do trabalho. A partir deste estudo, foi possível observar a existência de sobrecarga devido às condições precárias de trabalho na assistência pública à saúde, sendo esta uma das razões pelas quais a relação médica-paciente é prejudicada. Em vista disso, foi possível verificar que a relação da(s) médica(s) com as gestantes, familiares e acompanhantes apresenta ambivalência: ora difícil, conflituosa e violenta; ora tranquila, prazerosa e com reconhecimento, estabelecendo, conforme a psicodinâmica do trabalho, ganhos para a identidade profissional e para a saúde mental.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="es">
				<title><italic>Resumen</italic></title>
				<p><italic>La obstetricia hace parte de un evento social, cultural e histórico de gran estima para la sociedad: el nacimiento. De esta manera, los profesionales que actúan en esta área experimentan una presión constante por buenos resultados. Se suma esto al contexto brasileño, marcado por diversas dificultades en el atendimiento al parto, en el ámbito de la atención pública a la salud, lo que trae implicaciones en las relaciones interpersonales que son establecidas entre médico(a) y usuarias de sus servicios. Dicho esto, este artículo tiene el objetivo de comprender el punto de vista de médicas y médicos sobre la relación obstetra-gestante y sus familiares y acompañantes en el Servicio Único de Salud. Se utilizó como instrumento de recogida de datos un guión de entrevista semiestructurado, que fue analizado por la perspectiva del análisis de contenido temático, con el aporte teórico de la psicodinámica del trabajo. A partir de este estudio, fue posible observar la existencia de sobrecarga, debido a condiciones precarias de trabajo en la asistencia pública a la salud, siendo esta una de las razones por las cuales la relación médica-paciente es perjudicada. Así, fue posible verificar que la relación médica con las gestantes, familiares y acompañantes presenta ambivalencia: ora difícil, conflictiva y violenta; ora tranquila, agradable y con reconocimiento, estableciendo, según la psicodinámica del trabajo, ganancias para la identidad profesional y para la salud mental.</italic></p>
			</trans-abstract>
			<trans-abstract xml:lang="fr">
				<title><italic>Résumé</italic></title>
				<p><italic>L’obstétrique fait partie d’un événement social, culturel et historique de grande estime pour la société : la naissance. De cette façon, les professionnels œuvrant dans ce domaine subissent une pression constante pour obtenir de bons résultats. À cela s’ajoute le contexte brésilien, marqué par diverses difficultés dans la prise en charge de l’accouchement au sein du système de santé publique, ce qui a des implications sur les relations interpersonnelles établies entre le/la médecin obstétricienne et les utilisatrices de leurs services. Cela dit, cet article vise à comprendre le point de vue des médecins sur la relation entre l’obstétriciennes et la femme enceinte, ainsi que ses proches et accompagnateurs dans le Système de Santé Unifié. Un guide d’entretien semi-structuré a été utilisé comme instrument de collecte de données, qui a été analysé selon la perspective de l’analyse de contenu thématique, avec l’apport théorique de la psychodynamique du travail. D’après cette étude, il a été possible d’observer l’existence d’une surcharge due aux conditions de travail précaires dans le secteur de la santé publique, ce qui constitue une des raisons pour lesquelles la relation médecin-patient est affectée. Dans ce contexte, il a été possible de vérifier que la relation médicale avec les femmes enceintes, les membres de la famille et les accompagnants présente une ambivalence : tantôt difficile, conflictuelle et violente ; tantôt sereine, agréable et avec reconnaissance, établissant, selon la psychodynamique du travail, des bénéfices pour l’identité professionnelle et pour la santé mentale.</italic></p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>trabalhadores da saúde</kwd>
				<kwd>obstetrícia</kwd>
				<kwd>medicina</kwd>
				<kwd>psicologia</kwd>
				<kwd>trabalho</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="es">
				<title><italic>Palabras clave:</italic></title>
				<kwd>trabajadores de la salud</kwd>
				<kwd>obstetricia</kwd>
				<kwd>medicina</kwd>
				<kwd>psicología</kwd>
				<kwd>trabajo</kwd>
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				<title>Mots-clés:</title>
				<kwd>travailleurs de la santé</kwd>
				<kwd>obstétrique</kwd>
				<kwd>médecine</kwd>
				<kwd>psychologie</kwd>
				<kwd>travail</kwd>
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	<body>
		<p>A profissão médica é uma ocupação associada ao reconhecimento, poder e prestígio social (<xref ref-type="bibr" rid="B49">Petrarca, 2017</xref>). Dentre as suas especialidades, a obstetrícia ocupa um lugar de destaque e prestígio, uma vez que contribui para o nascimento de uma nova vida, evento este não somente biológico, mas, sobretudo, social, cercado de valores culturais, emocionais e afetivos (<xref ref-type="bibr" rid="B54">Sens &amp; Stamm, 2019</xref>).</p>
		<p>Por outro lado, a atuação médica nesse campo também é marcada por uma série de conflitos na prática profissional. Há, na obstetrícia, diversidade de atores e interesses envolvidos, distintas concepções de partos e diversas alternativas de atendimentos que colocam em pauta quais diretrizes técnicas devem nortear a prática, quais profissionais são mais capacitados, quais locais e equipamentos são mais seguros, bem como uma série de questões ligadas aos direitos reprodutivos (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Hotimsky &amp; Schraiber, 2005</xref>).</p>
		<p>Esse contexto de trabalho se torna mais complexo para os trabalhadores da saúde do setor público, pois vivenciam limitações que dificultam o bom andamento do seu trabalho, a saber: baixa remuneração, condições de trabalho inadequadas, vínculos precários, entre outros (<xref ref-type="bibr" rid="B52">Santini et al., 2017</xref>). Tal contexto de trabalho reverbera não só na atuação profissional, mas também na própria qualidade da assistência à saúde (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Bonassi &amp; Melgaço, 2020</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B48">Pereira et al., 2017</xref>). As mulheres grávidas têm dificuldades de encontrar um atendimento e tratamento adequados durante a maternidade (<xref ref-type="bibr" rid="B43">Menezes, et al., 2006</xref>). Diante disso, é comum que a percepção da população sobre as deficiências do setor público seja, quase sempre, direcionada para os próprios trabalhadores que, consequentemente, recebem toda reação negativa (<xref ref-type="bibr" rid="B35">Lancman et al, 2007</xref>).</p>
		<p>Um estudo de <xref ref-type="bibr" rid="B5">Bonassi e Melgaço (2020</xref>) afirma que 87,5% das gestantes possuem ansiedade em relação ao futuro, com indicativos sintomas de depressão e estresse. Como causa da baixa qualidade da saúde mental, evidencia-se a falta de capacitação dos profissionais de saúde, com práticas de cuidado generalistas e pouca orientação no pré-natal. Por outro lado, um estudo realizado por <xref ref-type="bibr" rid="B40">Martins e Remoaldo (2014</xref>) mostra que as grávidas possuem uma relação amigável com a enfermeira obstetra, sendo, para elas, um suporte fundamental para a vivência do nascimento.</p>
		<p>No que se refere especificamente à relação médica obstetra e pacientes, <xref ref-type="bibr" rid="B28">Flores e Mello (2023</xref>) afirmam que esta relação é conflituosa. Para as referidas autoras, a violência obstétrica é um tema recorrente de análise desde a década de 1980. Trata-se de um tipo de violência velada, em que o(a) médico(a) age de forma agressiva pela justificativa do cuidado, especialmente no que diz respeito aos dilemas para a escolha da via de parto. Sob outro enfoque, <xref ref-type="bibr" rid="B38">Maganha et al. (2023</xref>) discutem, em seu estudo, o papel importante que a(o) obstetra possui na prevenção da violência obstétrica. Conforme a autora, por meio de uma relação de confiança, com boa comunicação e a promoção de educação em saúde é possível que a paciente se sinta segura, acolhida e compreenda o que é uma assistência ao parto adequada.</p>
		<p>Além das pesquisas citadas, há outras que apresentam indícios de violências sofridas por gestantes, conhecida como violência institucional ou obstétrica, promovida pelos próprios profissionais da saúde quando realizam intervenções desnecessárias e maus tratos na prática de atenção ao parto (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Aguiar et al., 2020</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B9">Carvalho &amp; Brito, 2017</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B36">Lansky et al., 2019</xref>). Todavia, é preciso refletir sobre a culpabilização profissional e a existência de uma violência que não está presente no ato médico em si, mas que acontece devido à omissão do Estado que não garante leitos, analgesia, privacidade e condições de atendimento necessários a procedimentos de segurança (<xref ref-type="bibr" rid="B47">Palharini, 2017</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B54">Sens &amp; Stamm, 2019</xref>).</p>
		<p>Considerando o impacto das relações entre médico(a) e pacientes na atividade de trabalho, é essencial conhecer e refletir sobre a perspectiva desses profissionais. Assim, o interesse em estudar este tema justifica-se pela constatação de que essa categoria profissional, circundada por uma atmosfera de <italic>status</italic> e prestígio, tem vivenciado no seu cotidiano laboral um contexto de conflitos, que colocam em questão seu ofício e a sua atividade profissional.</p>
		<p>Destarte, o presente artigo, fruto da dissertação de mestrado da primeira autora, objetiva compreender o ponto de vista dos médicos sobre a relação obstetra-gestante e seus familiares e acompanhantes no Serviço Único de Saúde (SUS). Como alicerce teórico, utilizou-se a <italic>psicodinâmica do trabalho</italic>, abordagem que parte do princípio de que a organização do trabalho não é uma instância rígida, mas dinâmica e em constante transformação, uma vez que as reais situações de trabalho são complexas e multifacetadas, podendo gerar malefícios e benefícios para o ser humano. Ou seja, pode ser uma fonte de sofrimento patógeno e adoecimento ou de prazer e realização (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Areosa, 2019</xref>).</p>
		<sec>
			<title>O olhar da psicodinâmica sobre relacionamento no trabalho</title>
			<p>A psicodinâmica do trabalho, que tem em Christophe Dejours seu principal representante, propõe uma reflexão sobre a relação que o trabalho estabelece na construção da saúde mental dos sujeitos, através de uma abordagem científica que analisa a experiência laboral como fundamental na produção da subjetividade (<xref ref-type="bibr" rid="B31">Gernet, 2021</xref>). <xref ref-type="bibr" rid="B20">Dejours (2017)</xref> defende a centralidade do trabalho, a partir de diferentes níveis em que aspectos positivos e negativos devem ser considerados. Essa dualidade já tinha sido abordada por <xref ref-type="bibr" rid="B41">Marx (1993</xref>), ao defender a possibilidade de o trabalho extrair o melhor e o pior para os seres humanos.</p>
			<p>Apesar das pessoas não serem passivas e buscarem estratégias que previnam a doença, quando a organização do trabalho não oferece condições para que os trabalhadores consigam alterar situações potencialmente deletérias, surge o desgaste psíquico de uma luta inglória contra o sofrimento (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Dejours, 2017</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B25">Demaegdt, 2020</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B32">Gueguen &amp; Debout-Cosme, 2020</xref>). Esse cenário afeta a relação subjetiva com o trabalho, impactando a semiologia das defesas psíquicas e levando ao crescente número de trabalhadores adoecidos por descompensações psicopatológicas ligadas ao trabalho (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Duarte &amp; Dejours, 2019</xref>).</p>
			<p>O ato de trabalhar envolve um engajamento subjetivo para responder aos constrangimentos impostos pelo real. Essa mobilização é incentivada pela retribuição que advém do reconhecimento de natureza simbólica que se dá sobre o trabalho realizado e não sobre a pessoa. Assim, é possível julgar positivamente o trabalho de alguém e atribuir-lhe reconhecimento sem, necessariamente, gostar da pessoa (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Areosa, 2019</xref>). No entanto, e apesar de ser um julgamento da atividade, também pode afetar a identidade. Por isso, os <italic>feedbacks</italic> que os profissionais recebem dos usuários, da chefia e, sobretudo, de colegas, constroem a dinâmica das relações estabelecidas entre eles e ressoa na percepção de realização pessoal (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Dejours, 2012a</xref>).</p>
			<p>Compreender que o trabalho é construído a partir de relações evidencia o caráter coletivo que nele impera. Assim, o estabelecimento de uma identidade profissional é validado pelo meio. Por isso, trabalhar sempre carrega expectativas e preocupações sobre o julgamento e o reconhecimento que o outro profere para a atividade desenvolvida. Esse reconhecimento é capaz de transformar sofrimento em prazer e construir uma armadura para a saúde mental no trabalho (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Dejours, 2013</xref>). <xref ref-type="bibr" rid="B12">D’Avila e Melo (2022</xref>) estudaram as características da psicologia social do trabalho e suas possíveis relações com distintas abordagens teórico-metodológicas, considerando a subjetividade. Além disso, incluem a psicodinâmica do trabalho dentro de uma perspectiva clínica, que objetiva analisar a articulação entre sujeito e sociedade, atrelada aos fenômenos psíquicos e inconscientes (<xref ref-type="bibr" rid="B46">Nunes &amp; Silva, 2018</xref>).</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>O trabalhar em obstetrícia</title>
			<p>A complexidade da assistência ao parto está presente na significativa quantidade de atividades e responsabilidades a gerir sob a observação das políticas de humanização do cuidado e das diretrizes científicas baseadas em evidências. A Confederação Internacional de Obstetrizes (ICM) ressalta a importância do investimento no fortalecimento dos serviços de obstetrícia e na necessidade de pessoas qualificadas para atuação, a fim de reduzir a morbidade e a mortalidade materna e neonatal, de partos prematuros e natimortos (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Cintra &amp; Riesco, 2019</xref>).</p>
			<p>Mesmo com todos os cuidados, <xref ref-type="bibr" rid="B29">Foucault (2010</xref>) observa que toda abordagem médica dispõe de uma série de instrumentos e técnicas que podem produzir efeito tanto terapêutico como nocivo. A especialidade médica da obstetrícia está sujeita a muitas implicações éticas em sua atividade profissional, uma vez que o binômio materno-fetal expõe o profissional ao risco de erros devido à imprevisibilidade do surgimento de quadros graves que podem colocar em risco a vida da paciente e do feto/recém-nascido (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Boyaciyan, 2018</xref>).</p>
			<p>Segundo dados do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, a obstetrícia é a especialidade que obtém o maior número de denúncias e processos contra a má prática médica. As seções de denúncias e de processos disciplinares contra esses profissionais têm como foco principal a qualidade da atenção ao parto (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Boyaciyan, 2018</xref>).</p>
			<p>O parto no Brasil, então, assumiu um significado patológico com foco na dor e em experiências traumáticas, como a violência obstétrica (<xref ref-type="bibr" rid="B54">Sens &amp; Stamm, 2019</xref>). Órgãos públicos e movimentos sociais de mulheres têm denunciado o cuidado inadequado recebido por parturientes no Brasil, em um contexto de abuso de procedimentos e violação de direitos sexuais e reprodutivos, de modo que a violência obstétrica é considerada um problema de saúde pública (<xref ref-type="bibr" rid="B47">Palharini, 2017</xref>). Esse contexto pode ser considerado como uma das explicações para o alto índice de cesarianas no Brasil, uma vez que há no imaginário popular a valorização do parto cirúrgico como aquele que é indolor, moderno e seguro (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Hotimsky &amp; Schraiber, 2005</xref>).</p>
			<p>Além disso, também há uma parcela do discurso biomédico que se utiliza do risco do parto vaginal para justificar os procedimentos como necessários à boa prática obstétrica (<xref ref-type="bibr" rid="B47">Palharini, 2017</xref>), e que entendem que os procedimentos médicos estão a serviço da saúde e do bem-estar do ser humano e da coletividade e não do seu oposto (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Boyaciyan, 2018</xref>). Esse contexto de atuação profissional evidencia que se trata de um terreno de relações marcadas por incertezas, controvérsias, conflitos e negociações entre a obstetrícia, a estrutura do serviço de saúde e seus usuários, de modo que é necessário compreender as implicações dessas relações a partir da perspectiva dos trabalhadores envolvidos.</p>
			<p>No caso da presente pesquisa, interessamo-nos pelo próprio trabalhar desses profissionais na situação de trabalho (<xref ref-type="bibr" rid="B33">Guérin et al., 2001</xref>), isto é, embora a literatura traga diversos relatos de violência no trabalho nesse ofício, como descrito acima, tratou-se aqui de compreender como os obstetras, de uma maternidade pública em especial, relacionam-se com o seu trabalho e até mesmo com a vida fora do trabalho.</p>
			<p>Utilizamos aqui não apenas o substantivo <italic>trabalho</italic>, mas o verbo <italic>trabalhar</italic> substantivado, segundo <xref ref-type="bibr" rid="B15">Dejours (2012a</xref>). Indica-se, assim, que não se trata de algo estático, mas que está sempre se transformando e, dessa maneira, modificando também quem o realiza, seja do ponto de vista individual, seja com derivações para o coletivo no qual esse trabalhar se encontra. É a oportunidade de cada um desenvolver a sua vida e a sua saúde, visto que,</p>
			<disp-quote>
				<p>“trabalhar constitui uma segunda oportunidade depois da infância, para ampliar os poderes do corpo de experimentar-se a si próprio e de gozar de si. Mas a passagem da experiência do trabalho à formação de novos registros não é mecânica. Supõe, ao contrário, uma mobilização de toda a subjetividade (...) para transformar-se a si próprio e adquirir novos registros de sensibilidade, novas habilidades profissionais” (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Dejours, 2012a</xref>, p. 200).</p>
			</disp-quote>
			<p>No caso das(os) obstetras que participaram desta pesquisa, interessou-nos compreender o que ocorre com elas(es) ao irem trabalhar e se depararem não apenas com gestantes e parturientes, mas também com a violência.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Método</title>
			<p>A presente pesquisa tem um caráter essencialmente qualitativo. Fazer ciência é dispor do tripé teoria, métodos e técnicas, de modo que estas se condicionam mutuamente e dependem do objeto de análise (<xref ref-type="bibr" rid="B44">Minayo, 2012</xref>). Com base nesse entendimento, a adoção de uma perspectiva qualitativa para a construção do conhecimento deste estudo converge com o alicerce teórico que inspira esta pesquisa: a psicodinâmica do trabalho.</p>
			<p>De acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B4">Becker (1992</xref>), os estudos desenvolvidos nas ciências humanas e sociais que envolvem a construção de métodos qualitativos, necessariamente, envolvem o desenvolvimento de uma metodologia que seja possível, ou seja, uma “ciência viável” sem perder de vista o seu rigor. Em concordância com esse raciocínio, é possível refletir que o método é para os pesquisadores como o trabalho prescrito, importante meio que norteia o modo de compreender/conhecer um objeto. Todavia, no curso dessa ação investigativa, o encontro com o real esbarra sempre na necessidade de reformulação, que é próprio da atividade humana, da vida e do viver, não sendo diferente no trabalho de pesquisa (<xref ref-type="bibr" rid="B42">Masson, 2007</xref>).</p>
			<p>Nesse sentido, o método idealizado não é uma ferramenta acabada e nem seu objeto puro e neutro. Essa pesquisa é, portanto, um processo vivo de investigação e estudo por meio de uma “ciência viável”.</p>
			<sec>
				<title>Participantes</title>
				<p>Participaram da pesquisa 13 médicas(os)<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref> obstetras<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref>. Como critério de inclusão, optou-se por profissionais médicas e médicos, especialistas em ginecologia e obstetrícia, com vínculo empregatício na saúde pública. Desse modo, todas as participantes trabalham em uma maternidade pública, situada em uma cidade de médio porte, no interior de um estado do Nordeste.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>Procedimentos de coleta de dados e considerações éticas</title>
				<p>Como instrumento foi utilizado um questionário sociodemográfico e entrevistas semiestruturadas contendo perguntas abertas, elaboradas pelos autores. As entrevistas foram realizadas de forma individual nas enfermarias da própria maternidade, com duração média de 35 minutos. As questões do roteiro de entrevista foram elaboradas, previamente, com base no seguinte eixo temático: as relações com os usuários de trabalho e suas implicações na mobilização para o exercício da profissão e nos imprevistos da atividade.</p>
				<p>Comumente, a psicodinâmica do trabalho não utiliza “entrevista individual” (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Dejours, 2004</xref>, p. 79), dado que privilegia procedimentos em grupo. Porém, em algumas ocasiões, a necessidade de lançar mão delas faz-se necessário, como presente em <xref ref-type="bibr" rid="B24">Dejours e Jayet (1994</xref>, p. 70), na parte em que apresentam as “entrevistas duais”, assim como em <xref ref-type="bibr" rid="B22">Dejours e Bègue (2010)</xref>, ocasião em que falam em “entrevistas individuais” (p. 121) sendo utilizadas como uma “etapa da investigação” (p. 117). Nesta pesquisa, lançou-se mão delas por entender que isso permite a aproximação com essa categoria profissional, levando em consideração a disponibilidade das pesquisadas(os) em conceder um período de seu tempo para falar sobre o trabalho. Embora a perspectiva teórica desta pesquisa priorize encontros coletivos, as dificuldades do campo se mostraram presentes em razão de dois fatores: (I) o plantão da maternidade em questão conta com um número reduzido de obstetras para um número considerável de pacientes, de modo que, quando estão no plantão, elas não podem dedicar um tempo a algo que não seja a própria atividade; além disso, (II) esses profissionais possuem outros vínculos empregatícios, inviabilizando um encontro fora do horário de trabalho.</p>
				<p>A saturação do tema foi o critério para o número de entrevistas realizadas (<xref ref-type="bibr" rid="B45">Minayo, 2017</xref>). Após a aprovação do comitê de ética em pesquisas com seres humanos, a captação dos profissionais se deu por intermédio de um procedimento de indicação, conhecido como <italic>bola de neve</italic>, no qual os próprios trabalhadores participantes da pesquisa indicaram colegas e assim sucessivamente. O primeiro contato com a maternidade se deu através do setor de recursos humanos do hospital que entregou a escala de funcionários e seus respectivos horários de trabalho. De posse dessa escala, foi possível convidá-los a participar da pesquisa no horário de plantão.</p>
				<p>Com a anuência dos participantes e mediante à assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), as entrevistas foram gravadas em áudio e posteriormente transcritas na íntegra.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>Análise das entrevistas</title>
				<p>A análise das falas foi realizada com base na técnica de análise temática de conteúdo, conforme <xref ref-type="bibr" rid="B37">Laville e Dionne (1999</xref>), abrangendo as seguintes etapas: fase inicial de transcrição e leitura, recortes de falas em unidades, definição de categorias analíticas, categorização final, análise e interpretação. A análise de conteúdo temática permite a identificação e interpretação de padrões de informações a partir de uma organização expositiva e explicativa (<xref ref-type="bibr" rid="B55">Souza, 2019</xref>). Visando garantir o anonimato e sigilo das(os) participantes, estas(estes) foram nomeadas(os) com nomes fictícios escolhidos de forma aleatória, por exemplo, Letícia, Adriana, Fernanda, Rafael etc.</p>
			</sec>
		</sec>
		<sec sec-type="results|discussion">
			<title>Resultados e Discussão</title>
			<sec>
				<title>Perfil dos participantes</title>
				<p>A idade das participantes variou entre 31 e 61 anos. Em relação à distribuição por sexo, 10 participantes da pesquisa são do sexo feminino e três são do sexo masculino. No que se refere ao tempo de formação (graduação, especialidades e residências), a média foi de 10 anos de estudos. O tempo de profissão variou entre um e 40 anos e 8 participantes apresentam mais de 15 anos de carreira. Todos os entrevistados relataram possuir alguma relação com o ensino, 7 deles são professores de faculdades de medicina da rede pública e privada, e os demais atuam como preceptores de internos e residentes. Possuem, em média, três vínculos empregatícios e a carga horária fixa de, no mínimo, 40 horas semanais e, no máximo, 80 horas (essa soma inclui todos os outros locais de trabalho, além da maternidade estudada). Oito obstetras são concursados e os demais são contratados.</p>
				<p>Na análise foram identificadas as seguintes categorias: o reconhecimento e a realização pessoal; o conflito de expectativas frustradas com as relações movidas pelo imaginário social sobre a classe médica; e, a violência psicológica e o desenvolvimento de mecanismos de defesa.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>O reconhecimento e a realização pessoal através das relações no trabalho</title>
				<p>Quando questionados a respeito da relação que mantinham com as gestantes, relataram inicialmente ter uma boa relação, como se verifica na fala da participante Letícia:</p>
				<disp-quote>
					<p>Eu tenho um relacionamento muito bom com as minhas pacientes.... Ontem eu estava no shopping e chegou um senhor que eu fiz três partos, dois partos da mulher dele e um foi de gêmeos, aí ele: “Olhe, vá abraçar aquela ali que foi ela que lhe trouxe ao mundo”. Então aquilo para mim é gratificante.</p>
				</disp-quote>
				<p>Percebe-se que as palavras e gestos de carinho são vistos como uma importante fonte de reconhecimento no trabalho. Como aponta <xref ref-type="bibr" rid="B15">Dejours (2012a</xref>), apesar da importância da retribuição material, é através da retribuição simbólica que sentimentos de reconhecimento florescem no trabalhador, proporcionando engajamento profissional e favorecendo a saúde mental.</p>
				<p>Dessa maneira, a relação simbólica de reconhecimento ganha destaque na obstetrícia, visto que a médica(o) participa de um evento que não é apenas biológico, mas, sobretudo, afetivo e social. O nascimento de uma nova vida marca um cenário de expectativas com elementos culturais e históricos que se fazem presentes (<xref ref-type="bibr" rid="B54">Sens &amp; Stamm, 2019</xref>). Em confluência à experiência de médicas(os) obstetras, enfermeiras também afirmam vivenciar o reconhecimento por parte de pacientes e familiares, sendo esta uma vivência geradora de satisfação e prazer no cotidiano do trabalho, pois valida seu trabalho e reforça sua identidade profissional (<xref ref-type="bibr" rid="B26">Duarte et al., 2021</xref>).</p>
				<p>Na assistência hospitalar, o processo de cuidar é recíproco e de troca, de modo que é necessário existir disponibilidade, confiança e receptividade de ambas as partes, profissionais e usuárias/familiares. Quando ocorre essa parceria, o reconhecimento para com o profissional repercute na apreciação do esforço e do sofrimento investido para a prestação do cuidado, promovendo sentido no trabalho e gerando um retorno não somente financeiro, mas também simbólico (<xref ref-type="bibr" rid="B26">Duarte et al., 2021</xref>).</p>
				<p>O poder simbólico promovido pelo reconhecimento é resultado não só da mobilização subjetiva dos trabalhadores, mas também do julgamento dos outros (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Areosa, 2019</xref>). De acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B15">Dejours (2012a</xref>), o reconhecimento através do julgamento de utilidade pode ser proferido não só pelos superiores hierárquicos e subordinados, mas também pelos usuários, quando estes reconhecem a contribuição dada pelo trabalhador aos objetivos fixados. Além dessa forma de reconhecimento, aquele que advém dos pares, através do julgamento estético, é também central para a identidade e a saúde mental.</p>
				<p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B17">Dejours (2013</xref>), o julgamento de utilidade confere ao trabalhador um <italic>status</italic> na organização na qual trabalha. A entrevistada Ana menciona que:</p>
				<disp-quote>
					<p>Eu não sou uma pessoa de autoestima muito alta não, eu normalmente não sou uma pessoa de me elogiar não, mas eu sempre escuto: “Ah, ela nasceu para isso”. Aí eu acho que realmente, de repente, eu nasci. Aí tudo bem (risos). O fato de eu ficar satisfeita com isso e a recíproca ser verdadeira me faz ter certeza que eu acho que estou no lugar certo.</p>
				</disp-quote>
				<p>Evidencia-se, nessa fala, o quanto o trabalho possibilitou ganhos para a construção da identidade da trabalhadora, o que confirma a centralidade do trabalho na vida das pessoas, uma vez que trabalhar nunca é somente transformar algo, mas transformar, sobretudo, a si mesmo, construindo uma identidade, adquirindo novas habilidades, novas competências (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Areosa, 2019</xref>). <xref ref-type="bibr" rid="B50">Revuz et al. (2021</xref>) tratam do caráter coletivo do trabalho no “ser com os outros”, no processo de consolidação das identidades individuais e coletivas, pois o ser humano é movido pelo que faz e pela forma que faz. Para tanto, o trabalho não é só central, mas também é constituinte na sua vida.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>As dificuldades diante das expectativas frustradas pelo real do trabalho</title>
				<p>“Eu acho que eu tenho uma relação boa com as pacientes, pelo menos eu tento, né, ninguém vai agradar todo mundo”. A fala de Adriana sinaliza que a relação com as gestantes nem sempre pode resultar em agradecimentos, reconhecimentos ou satisfação no trabalho, e quando a participante se expressa através da afirmativa: “pelo menos eu tento”, demonstra um entendimento de reconhecimento de sua mobilização frente aos obstáculos do real.</p>
				<p>Durante o desenvolvimento da atividade, o trabalhador confronta-se com diferentes constrangimentos, a saber: imprevistos de ordem técnica; perturbações advindas do ambiente e dos clientes; dificuldades nos relacionamentos; falta de insumos etc (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Dejours, 2012a</xref>, 2013). Diante dessas dificuldades, o trabalhador mobiliza sua economia psíquica para superar o inesperado e pode experimentar a sensação de fracasso, a qual abre espaço para a mobilização da engenhosidade e inteligência prática, na superação de obstáculos e do sofrimento, pelo confronto com o que não está prescrito (<xref ref-type="bibr" rid="B31">Gernet, 2021</xref>). Por isso, os conflitos da relação médico-paciente são permeados pelas dificuldades impostas pelo real do trabalho, como relata a participante Fernanda:</p>
				<disp-quote>
					<p>A teoria é bem diferente da prática, então, o que todo médico sonha é trabalhar no hospital de ponta, com tecnologia de ponta, que não falte nada, né? Mas só que a realidade é outra, bem diferente, principalmente em nível de Brasil, em nível de serviço público. Às vezes, eles já chegam assim, muito armados para cima da gente. Às vezes já vêm do interior, já viajou várias horas, já veio passando de hospital em hospital, de mão em mão, então quando eles chegam aqui, eles chegam já tudo armado, querendo que a gente dê um jeito em tudo. E nem sempre a gente pode dar um jeito em tudo.</p>
				</disp-quote>
				<p>As condições de trabalho criam dificuldades para que a obstetra possa realizar suas atividades do modo como desejaria fazê-lo. Em consequência, a falta de estrutura na saúde pública gera atritos com as gestantes, familiares e acompanhantes que, frequentemente, responsabilizam os médicos por seu padecimento. Elas esperam que seus problemas com a gestação sejam solucionados e suas demandas atendidas, mas o confronto com as infidelidades do meio (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Canguilhem, 2016</xref>), infladas pela carência da unidade de saúde em que trabalham, limitam o poder de resolução do profissional da saúde, de modo que eventos inesperados e catastróficos podem ocorrer.</p>
				<p>Para a psicodinâmica do trabalho, é essencial entender as dinâmicas das relações que permeiam o ambiente laboral (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Dejours, 2017</xref>). Toda atividade é exposta ao olhar e ao julgamento do outrem, e a vivência de um <italic>feedback</italic> negativo leva à sensação de frustração no trabalho (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Areosa, 2019</xref>). Na medicina, a interação que acontece entre o médico-paciente vai determinar a construção de um vínculo de confiança que se torna essencial ao bom desenvolvimento da prestação de serviço e na satisfação profissional (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Campos &amp; Fígaro, 2021</xref>).</p>
				<p>Outro conflito nas relações envolve a escolha da conduta mais adequada para o parto e o desejo da paciente, conforme expresso por Ana:</p>
				<disp-quote>
					<p>As pessoas da família acham que podem nos dizer a conduta a ser tomada, chega aqui e dizem: “Não! Tem que ser cesárea”. E não é assim, existe um caminho, existe um passo a passo, existem as indicações de cesárea, mas eles querem tomar essa indicação, entendeu? E querem que a gente faça, e quando a gente não faz, eles ficam dizendo: “Oh, tá empurrando”. Mas não é assim, toda profissão tem a suas condutas, né? Então, o mais difícil para mim é isso, é você ter que, não é nem de lidar com a paciente diretamente, é você ter que lidar com essa pressão externa para que você faça o que as pessoas querem.</p>
				</disp-quote>
				<p>Essa fala aponta para o momento atual da medicina como um todo. Conforme <xref ref-type="bibr" rid="B2">Aguiar et al. (2020</xref>), a medicina tecnológica está submersa em um cenário no qual o protagonismo recai sobre as tecnologias utilizadas, deixando de lado a prática profissional. Isso resulta em uma crise de confiança na tomada de decisão clínica, se esta não for acompanhada pelo uso da tecnologia. Soma-se a isso o entendimento, por parte da sociedade, que o parto cirúrgico é a via mais segura e menos dolorosa para a mãe e para o bebê (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Hotimsky &amp; Schraiber, 2005</xref>). Essa compreensão não está apenas ligada a uma vontade de não sentir dor, mas, sobretudo, há uma demanda por dignidade, já que parir de forma natural tem sido vivenciado, em muitos casos, como traumático (<xref ref-type="bibr" rid="B39">Maia, 2010</xref>).</p>
				<p>Além disso, o progresso do conhecimento na sociedade atual tem possibilitado ao cidadão o entendimento de seus direitos em relação à saúde, que podem e devem ser reivindicados. Contudo, ao lado desse avanço, cresceu a ocorrência de manifestações agressivas e contestadoras que têm produzido situações desconfortáveis na relação médico-paciente, advinda da ausência de confiança no profissional (<xref ref-type="bibr" rid="B51">Rocco, 2010</xref>). Esse contexto contribui para gerar sofrimentos patogênicos (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Dejours, 2013</xref>), as participantes deste estudo expressaram a dificuldade que é conciliar a vontade das gestantes e acompanhantes com as evidências médicas e as deficiências da assistência pública.</p>
				<p>Por outro lado, compreender a vontade das gestantes como um fator complicador do trabalho é visto com crítica por <xref ref-type="bibr" rid="B47">Palharini (2017</xref>). Para ela, a autoridade médica é muitas vezes compreendida como algo que não pode ser questionado, como uma verdade que é absoluta, sendo desqualificado todo discurso questionador. Ainda, para a autora, a relação médico-paciente se torna precária ao estabelecer aquele sujeito que possui uma autoridade legítima e aquele outro que nada sabe. <xref ref-type="bibr" rid="B54">Sens e Stamm (2019</xref>) observam que vários estudos sobre a assistência nas maternidades demonstram que a obediência é uma qualidade esperada do paciente, já a não obediência é interpretada como desrespeito ou agressividade. Por esse motivo, há que se refletir sobre as melhores estratégias para mediar uma comunicação acolhedora, empática e compreensiva entre médico-paciente.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>As relações movidas pelo imaginário social sobre a classe médica</title>
				<p>Conforme <xref ref-type="bibr" rid="B54">Sens e Stamm (2019</xref>), o desempenho de um profissional não se estabelece apenas nas condições materiais ou de sua sabedoria técnico-científica, mas também nas relações humanas, fruto de uma ética interpessoal. Sendo importante, portanto, uma relação de respeito e empatia na prática profissional. Para <xref ref-type="bibr" rid="B1">Aguiar et al. (2013</xref>), o caminho para uma melhor assistência está na compreensão e tolerância mútua. Caso a parceria não seja bilateral, a presença de violência no campo das interações se torna mais comum.</p>
				<p>As médicas e médicos obstetras entrevistados vivenciam um contexto de dificuldade nas relações interpessoais em seu ofício. Expressões como “mercenário” (Cecília), “matador” (Bárbara), “incompetente” (Luís), “carniceiro e criminoso” (Bruna) e “assassino” (Priscila) foram elencadas pelas participantes como características que lhes foram atribuídas pelas pacientes e acompanhantes e que também circulam nos veículos de comunicação. Para a psicodinâmica do trabalho, o reconhecimento é fundamental para a construção da vida e da saúde de cada um ao trabalhar (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Dejours, 2015</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B19">2016</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B22">Dejours &amp; Bégue, 2010</xref>), de modo que lidar com ofensas, ao invés de reconhecimento, é amedrontador e angustiante para esses profissionais.</p>
				<p>Foi unânime o relato de que, por estimularem o parto vaginal (seguindo as diretrizes e normas oficiais), são vistos como: aqueles que produzem sofrimento e até maus-tratos; pessoas sem sentimentos; e, ainda, que todo profissional que atua na maternidade pesquisada trabalha mal ou não quer trabalhar. Nessas situações, a precarização do serviço público desaparece aos olhos desses familiares e o médico se vê face a face com a violência verbal e o medo da violência física. Mesmo na França, onde o estado de bem-estar social se desenvolveu muito mais que no Brasil, o fenômeno da precarização do serviço público ocorre, cujas consequências aparecem diariamente no trabalho médico (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Dejours, 2015</xref>). Os profissionais, então, precisam desenvolver estratégias para evitar o colapso (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Dejous, 2012b</xref>), visto haver sempre mais pacientes necessitando de cuidados na maternidade pública do que profissionais para fazer uma boa assistência. A fala de Bruna ilustra tal situação:</p>
				<disp-quote>
					<p>A imprensa já não divulga coisa boa, só divulga o que deu errado, nunca divulga o que deu certo. Então aí a população tem uma imagem que tudo que se faz aqui é errado, que todo profissional que trabalha aqui trabalha errado, que todo o profissional que trabalha aqui é carniceiro, que quer maltratar, que trata mal. Como é que você pode mudar essa imagem? Afinal de contas, é a profissão da gente. Mas devido ao sistema, a falta de informação, a achar que a gente, que todo mundo é um criminoso, que hoje em dia o médico é visto como um criminoso, não existe mais respeito, então a gente fica temeroso.</p>
				</disp-quote>
				<p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B23">Dejours et al. (1993</xref>, p. 99), quando perguntamos qual o trabalho de alguém, há um imaginário social que remete à caracterização de toda profissão, por isso, o trabalho “não é só um modo de ganhar a própria vida, é um status social ao qual se associam, às vezes, uma roupa específica, um vocabulário particular” e que marca também um clima de solidariedade ou conflito entre os profissionais e os seus clientes. Para a participante citada, essa relação de conflito é alimentada pela mídia que gera uma má reputação da maternidade e, consequentemente, de seus profissionais. Proporcionando, assim, que os pacientes e acompanhantes já cheguem na maternidade prontos para discussão. Segundo Fernanda:”eles já chegam na maternidade ‘armados’”.</p>
				<p>Pesquisa realizada por <xref ref-type="bibr" rid="B1">Aguiar et al. (2013</xref>), sobre a violência institucional em maternidades públicas, corrobora a afirmação de que a relação médico-gestante pode ser conflituosa. De acordo com as autoras, há uma dificuldade de mão dupla: médicas que não se comunicam bem e pacientes que agem de forma agressiva verbalmente com os profissionais, pois já chegam no serviço público com medo de serem maltratadas, seja por experiências anteriores ou por terem sido alertadas anteriormente sobre essa possibilidade. A participante Priscila afirma: “Depende muito, então assim, depende de como se chega, de como está. Então, às vezes a gente termina trocando o que recebe, né?”.</p>
				<p>O sofrimento vivenciado também pode impulsionar o indivíduo a resistir e a agir. Apesar das respostas dos participantes mostrarem que os conflitos vivenciados não têm levado a uma desmobilização subjetiva, certamente representam um alto custo psíquico para que se mantenham trabalhando. A participante Ana expressa seu engajamento da seguinte maneira:</p>
				<disp-quote>
					<p>A gente luta com essa questão da maternidade ser muito difamada, né? Então, a gente, vamos dizer assim, eu sempre faço muita propaganda a favor da maternidade. É, eu faço parte daqui. Eu trabalho aqui, e se você for me ver fazendo as minhas evoluções, eu sempre converso muito com elas, eu explico tudo a elas, eu dou bastante atenção a elas, assim, já para desmitificar essa ideia de matadouro.</p>
				</disp-quote>
				<p>Quando a afetividade é atingida, chega-se ao sofrimento, que é uma experiência indissociável do confronto com o que não está prescrito (<xref ref-type="bibr" rid="B31">Gernet, 2021</xref>). Esse sofrimento é alvo de combate de processos psíquicos específicos, como a sublimação, as possibilidades de prazer e desenvolvimento no trabalho, para que a experiência subjetiva do sofrimento não seja deletéria. O sofrimento de Ana não se tornou patogênico, pois impulsionou a trabalhadora a resistir ao real, defender a maternidade e buscar fazer o seu melhor. É a mobilização da engenhosidade e inteligência prática na superação de obstáculos.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>A violência psicológica e o desenvolvimento de mecanismos de defesa</title>
				<p>Foi possível verificar quatro exemplos de situações que provocam atritos entre médicas, gestantes e acompanhantes, a saber: o fato de um parto normal ter sido proposto ao invés de uma cesárea; a gestação ter evoluído para uma urgência/emergência; a alta hospitalar demorar; a gestante e/ou o feto irem a óbito ou terem sequelas. Essas situações de atrito na interação entre médico-paciente podem levar à violência e à agressividade, tanto por parte dos pacientes para com os profissionais como por parte dos profissionais para com os pacientes (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Aguiar et al., 2013</xref>).</p>
				<p>A expectativa do nascimento da vida pode terminar em uma tragédia irreversível. Bárbara menciona que “obstetrícia é um pouco difícil por isso. Porque assim, a família não aceita né? E quer culpar alguém, e nem sempre é culpa da gente”. A fala de Bárbara demonstra que a origem dessa tragédia pode estar tanto nas imprevisibilidades da ação quanto na ação do trabalhador. O participante Luís relatou tais dilemas da seguinte forma:</p>
				<disp-quote>
					<p>Nós somos, para você ter uma ideia, sem medo de errar, nós somos ameaçados todos os dias. A obstetrícia, ela é ameaçada todos os dias. Mais tarde você vai ver acompanhante gritando com a gente: “Por que não vai operar a paciente? Por que que não vai resolver? Por que a paciente está internada? E se acontecer alguma coisa com o menino, vocês vão pagar!”. Então isso é uma forma velada de ameaça, então todos nós somos ameaçados diuturnamente no serviço público.</p>
				</disp-quote>
				<p>
					<xref ref-type="bibr" rid="B10">Chappell e Martino (2006</xref>) caracterizam a violência no trabalho como situações em que pessoas são abusadas, ameaçadas e agredidas em circunstâncias relacionadas com o seu trabalho. Quando a violência é psicológica, pode-se configurar como ameaça ou através de promessas ou insinuações que visam coagir, inibir ou constranger uma pessoa ou um grupo. Os participantes relataram que no momento do parto, por exemplo, os acompanhantes ficam “sacudindo o pé” (Carlos), ameaçam levar o caso à justiça ou chamar a imprensa. Além disso, muitos relataram que as ameaças à própria vida são constantes, não só na forma verbal, mas que já ocorreu um episódio de ameaça com o uso de arma branca.</p>
				<p>Essas situações se tornam ainda mais difíceis quando o acompanhante é do sexo masculino, levando os participantes a ficarem mais preocupados e temerosos das ameaças se concretizarem. Para <xref ref-type="bibr" rid="B13">Dejours (2004</xref>), o abuso verbal é visto como uma ameaça de violência, uma vez que não é possível prever se o ataque permanecerá no registro do discurso ou se atingirá o abuso físico, o que, por sua vez, provoca sentimentos de medo no trabalhador. Luana menciona que “muitas vezes entram aqui acompanhantes alcoolizados.... Eles intimidam, ameaçam, gritam com a gente, então assim, realmente não respeitam a nossa profissão, não respeitam a nossa conduta, não nos respeitam como pessoas”.</p>
				<p>Ainda conforme <xref ref-type="bibr" rid="B13">Dejours (2004</xref>), quando o risco de agressão está presente no trabalho e se torna trivial, parte da tarefa, faz-se necessário que o trabalhador busque neutralizá-la tanto quanto possível. Assim, tornou-se parte da atividade médica a continuação do trabalho em outro ambiente, para preservar-se do risco. Além disso, quando sofrem ameaças, todos relataram que tentam não discutir com os pacientes e acompanhantes, o que configura uma regra de trabalho. Se assim o fizessem, acabariam por deixar o ambiente mais desagradável, conforme ilustra a fala a seguir: “Se você for discutir com paciente, se indispor com paciente é uma coisa extremamente desagradável para você. Qualquer aborrecimento que você tiver em um plantão eu acho que mexe com você durante o plantão todinho” (Carlos). Essa conduta representa uma forma de estratégia coletiva de defesa, no sentido de preservação de um equilíbrio psíquico necessário ao desenvolvimento das atividades.</p>
				<p>Tal quadro exige, desses profissionais, estratégias para conjurar a violência e continuar trabalhando apesar do risco eminente, o que somente é possível se houver apoio mútuo e proteção entre eles (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Dejours, 2019</xref>). “Trabalhar não é apenas produzir, é também viver junto” (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Dejours, 2012a</xref>, p. 85), por isso a importância das relações de convivência, de pertencimento e das regras e valores que constituem um coletivo de trabalho na elaboração de estratégias de defesa para manutenção da saúde mental e no fortalecimento da identidade ocupacional de cada um. Diante das imprevisibilidades das situações de trabalho, há, nessa categoria de profissionais, a necessidade de saber lidar com a vivência de sentimentos opostos, ora de prazer, ora de sofrimento, conforme relatado por Luís:</p>
				<disp-quote>
					<p>A relação com os pacientes às vezes é uma relação de amor e ódio. É uma relação que você vai do céu ao inferno em questões de segundo. Eu digo isso aqui, em obstetrícia isso é muito evidente, por exemplo, a gente estava na sala de parto, teve uma emergência, a gente colocou na sala cirúrgica, fez o trabalho, saiu, deu tudo certo, saiu tudo bem e a paciente e os familiares saíram agradecendo demais né, aquele negócio todo. Quando a gente põe o pé no pré-parto, a outra acompanhante da outra paciente disse “tá vendo esse médico, é um incompetente, não sabe de nada”, então você foi do céu ao inferno em 30 segundos.</p>
				</disp-quote>
				<p>Evidencia-se, portanto, nessa fala, que ora o obstetra é reconhecido pelo trabalho bem-feito, ora é desacreditado. Essa vivência ambivalente gera sentimentos divergentes, com os quais o médico precisa aprender a lidar. A participante Priscila relata: “Mãe de uma paciente chamando a gente: ‘Vocês são uns assassinos, vocês são os assassinos’. É difícil né? Tem que ter muita psicologia para isso”.</p>
				<p>O trabalho é capaz de mobilizar afetos nos trabalhadores e a psicanálise trata da construção do sujeito, baseada na relação de amor e ódio que surge da interação psíquica e emocional do bebê com a mãe, a partir da ambivalência de sentimentos que se complementam na formação daquela pessoa (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Dejours, 2009</xref>). O ódio se torna importante e estruturante no desenvolvimento da criança, pois na vivência da ansiedade é que se desenvolve a tolerância. Ainda, é das sensações que causam amor e ódio que surge uma força criadora capaz de controlar o desconforto causado pelo desprazer (<xref ref-type="bibr" rid="B30">Freud, 1996</xref>). Para tanto, na perspectiva organizacional, as relações ambivalentes podem ser interpretadas a partir de benefícios associados a criatividade, resolução de problemas e precisão na tomada de decisões, exatamente o que aconteceu no caso dos participantes dessa pesquisa.</p>
			</sec>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Considerações Finais</title>
			<p>O presente estudo abordou o trabalho de médicas e médicos obstetras, no que diz respeito à relação com as gestantes, familiares e acompanhantes. O discurso dos participantes evidenciou ser permeado de complexidades na relação médica com as gestantes, com vivências de afeto, bem como de conflitos e ameaças. Apesar desses diversos impasses e de muitas vezes essas dificuldades causarem sentimentos de mal-estar no ambiente de trabalho, as(os) participantes demonstraram que ainda permanecem engajados com a sua profissão. Supõe-se que as vivências de prazer e reconhecimento auxiliam o suporte das vivências desagradáveis de ameaças no ambiente de trabalho.</p>
			<p>Este estudo contribuiu para o conhecimento acerca do ponto de vista dos verdadeiros protagonistas da atividade. É necessário, então, refletir e ampliar os horizontes para visualizar o contexto social em que essa categoria profissional se encontra, sobretudo no campo da saúde pública. Os obstetras, portanto, têm vivenciado, no cotidiano laboral, um contexto de controvérsias e disputas, que colocam em pauta o seu ofício e a sua atividade profissional diante de sofrimentos patógenos que podem levar ao adoecimento mental. O espaço midiático influencia para a complexidade dessa relação, a partir da ênfase dada a situações que não foram bem-sucedidas, principalmente relacionadas à via de parto vaginal.</p>
			<p>No que se refere às limitações presentes neste estudo, há de se ponderar a dificuldade de realizar encontros grupais com a categoria, em virtude da limitação de tempo dos profissionais, não só durante o turno de trabalho, como também por causa da carga horária que ultrapassa o marco de 40 horas semanais. Por fim, sugere-se a realização de mais pesquisas com esses profissionais, aprofundando a compreensão da relação médico-paciente, por meio de encontros coletivos sobre o trabalho.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<ref-list>
			<title>Referências</title>
			<ref id="B1">
				<mixed-citation>Aguiar, J. M., d’Oliveira, A. F. P. L., &amp; Schraiber, L. B. (2013). Violência institucional, autoridade médica e poder nas maternidades sob a ótica dos profissionais de saúde. <italic>Cadernos de Saúde Pública</italic>, <italic>29</italic>(11), 2287-2296. https://doi.org/10.1590/0102-311x00074912</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
					<person-group person-group-type="author">
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							<surname>Aguiar</surname>
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					<article-title>Amostragem e saturação em pesquisa qualitativa: Consensos e controvérsias</article-title>
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				<mixed-citation>Nunes, C. G. F., &amp; Silva, P. H. I. (2018). A Sociologia clínica no Brasil. <italic>Revista Brasileira de Sociologia</italic>, 6(12), 181-199. https://doi.org/10.20336/rbs.239</mixed-citation>
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				<mixed-citation>Palharini, L. A. (2017). Autonomia para quem? O discurso médico hegemônico sobre a violência obstétrica no Brasil. <italic>Cadernos Pagu</italic>, (49), 1-37. https://doi.org/10.1590/18094449201700490007</mixed-citation>
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				<mixed-citation>Pereira, M. H. M., Pena, P. G. L., &amp; Fernandes, R. C. P. (2017). Conflitos e estratégias dos trabalhadores de enfermagem na emergência de uma maternidade pública. In: M. A. G. Lima, M. C. S. Freitas, &amp; P. G. L. Pena (Eds.), <italic>Estudos de saúde, ambiente e trabalho</italic>: <italic>Aspectos socioculturais</italic> (pp. 79-107). https://doi.org/10.7476/9788523218645.0005</mixed-citation>
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				<mixed-citation>Petrarca, F. R. (2017). De coronéis a bacharéis: Reestruturação das elites e medicina em Sergipe (1840-1900). <italic>Revista Brasileira de História</italic>, <italic>37</italic>(74), 1-24. https://doi.org/10.1590/1806-93472017v37n74-04</mixed-citation>
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					<article-title>De coronéis a bacharéis: Reestruturação das elites e medicina em Sergipe (1840-1900)</article-title>
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			<ref id="B54">
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				<label>1</label>
				<p> A escolha pelo termo no feminino ao invés do masculino se deu por dois motivos. Primeiro, a especialidade médica ginecologia e obstetrícia é composta por maioria feminina, 57,7%, segundo dados do Conselho Federal de Medicina <xref ref-type="bibr" rid="B53">(Scheffer, et al., 2020</xref>). Segundo, o grupo de participantes da pesquisa é, majoritariamente, feminino. Tal situação ocorreu pela maior recusa dos homens em participarem da pesquisa, em sua maioria justificadas pela falta de disponibilidade de tempo.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p> Embora a especialidade médica se denomine ginecologia e obstetrícia, optou-se aqui por simplificar o termo, utilizando a área mais vinculada ao objeto de estudo em questão.</p>
			</fn>
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	<sub-article article-type="translation" id="s1" xml:lang="en">
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            <article-id pub-id-type="doi">10.5020/23590777.rs.v25i1.e14534</article-id>
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					<subject>RELATOS DE PESQUISA</subject>
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				<article-title>Obstetrics through the lens of the psychodynamics of work</article-title>
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				<institution content-type="original">BA in Psychology, Universidade Estadual da Paraíba (2014). MSc (2016) and PhD (2023) in Social Psychology, Universidade Federal da Paraíba (UFPB) and USP, respectively.</institution>
				<institution content-type="orgname">USP</institution>
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			<aff id="aff6">
				<institution content-type="original">BA in Psychology, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ, 1992); MSc in Psychology, UFRJ (1997), advised by Prof. Maria Luíza Lo Presti Seminério; PhD in Social Psychology, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ, 2006).</institution>
				<institution content-type="orgname">Universidade do Estado do Rio de Janeiro</institution>
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			<aff id="aff7">
				<institution content-type="original">MSc and PhD in Social Psychology of Work, UFPB. BA in Psychology, Centro Universitário de João Pessoa.</institution>
				<institution content-type="orgname">UFPB</institution>
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			<aff id="aff8">
				<institution content-type="original">BA in Psychology, UFPB (1983); MSc in Administration, UFPB (1991); PhD in Sciences, Fundação Oswaldo Cruz (2001); postdoctoral fellowship, UERJ.</institution>
				<institution content-type="orgname">UERJ</institution>
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			<abstract>
				<title>Abstract</title>
				<p>Obstetrics is embedded in a social, cultural, and historical event of great significance: birth. Consequently, professionals in this field face constant pressure to deliver good outcomes. Added to this is the Brazilian context, marked by multiple challenges in childbirth care within the public health system, which affects the interpersonal relationships established between obstetricians and the users of their services. This article aims to understand physicians’ perspectives on the obstetrician-pregnant patient relationship - and on interactions with families and companions - within the Unified Health System. Data were collected using a semi-structured interview guide and analyzed through thematic content analysis, grounded in the psychodynamics of work. The study identified work overload stemming from precarious working conditions in public healthcare, which is one reason the physician-patient relationship is compromised. We also found that relationships with pregnant women, their families, and companions are ambivalent: at times difficult, conflictual, and even violent; at other times calm, rewarding, and marked by recognition - yielding, in line with the psychodynamics of work, benefits for professional identity and mental health.</p>
			</abstract>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>health workers</kwd>
				<kwd>obstetrics</kwd>
				<kwd>medicine</kwd>
				<kwd>psychology</kwd>
				<kwd>work</kwd>
			</kwd-group>
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		<body>
			<p>The medical profession is commonly associated with recognition, power, and social prestige (<xref ref-type="bibr" rid="B49">Petrarca, 2017</xref>). Among its specialties, obstetrics holds a prominent place, as it contributes to the birth of a new life - an event that is not only biological but, above all, social, and steeped in cultural, emotional, and affective meanings (<xref ref-type="bibr" rid="B54">Sens &amp; Stamm, 2019</xref>).</p>
			<p>At the same time, practice in this field is marked by multiple conflicts. Obstetrics involves a diversity of actors and interests, differing conceptions of childbirth, and various models of care. These raise questions about which technical guidelines should guide practice, which professionals are best qualified, which settings and equipment are safest, and a range of issues linked to reproductive rights (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Hotimsky &amp; Schraiber, 2005</xref>).</p>
			<p>This work context becomes even more complex for public-sector health workers, who face constraints that hamper the proper course of their work - low pay, inadequate conditions, precarious contracts, among others (<xref ref-type="bibr" rid="B52">Santini et al., 2017</xref>). Such conditions reverberate not only in professional practice but also in the quality of care itself (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Bonassi &amp; Melgaço, 2020</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B48">Pereira et al., 2017</xref>). Pregnant women often struggle to secure adequate care and treatment throughout maternity (<xref ref-type="bibr" rid="B43">Menezes et al., 2006</xref>). As a result, the public’s perception of the shortcomings of the public system is frequently directed at the workers themselves, who consequently bear the brunt of negative reactions (<xref ref-type="bibr" rid="B35">Lancman et al., 2007</xref>).</p>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B5">Bonassi and Melgaço (2020</xref>) report that 87.5% of pregnant women experience anxiety about the future, with signs of depression and stress. They attribute the poor mental-health outcomes in part to insufficient professional training, generalized care practices, and limited prenatal guidance. By contrast, <xref ref-type="bibr" rid="B40">Martins and Remoaldo (2014</xref>) found that pregnant women often have a friendly relationship with the obstetric nurse, who is seen as essential support during childbirth.</p>
			<p>Regarding the obstetrician-patient relationship specifically, <xref ref-type="bibr" rid="B28">Flores and Mello (2023</xref>) argue that it is conflict-ridden. For these authors, obstetric violence has been a recurring topic of analysis since the 1980s. It refers to a veiled form of violence in which the physician acts aggressively under the justification of providing care, especially in disputes over the route of delivery. From another angle, <xref ref-type="bibr" rid="B38">Maganha et al. (2023</xref>) discuss the important role obstetricians can play in preventing obstetric violence. Through a trusting relationship, good communication, and health education, patients can feel safe and supported and gain a clearer understanding of appropriate childbirth care.</p>
			<p>In addition to these studies, others point to violence suffered by pregnant women - known as institutional or obstetric violence - perpetrated by health professionals through unnecessary interventions and mistreatment during childbirth care (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Aguiar et al., 2020</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B9">Carvalho &amp; Brito, 2017</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B36">Lansky et al., 2019</xref>). Nevertheless, it is important to reflect on the tendency to blame individual professionals and to consider a form of violence that is not inherent to the medical act itself but arises from state omission-failure to ensure beds, analgesia, privacy, and adequate conditions for safe care (<xref ref-type="bibr" rid="B47">Palharini, 2017</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B54">Sens &amp; Stamm, 2019</xref>).</p>
			<p>Because of the impact of physician-patient relationships on work activity, it is essential to understand and reflect on physicians’ perspectives. The interest in this topic stems from the observation that this professional group - surrounded by an atmosphere of status and prestige - faces, in daily practice, a conflict-laden context that calls their craft and professional activity into question.</p>
			<p>Accordingly, this article - based on the first author’s master’s dissertation - aims to understand physicians’ views on the obstetrician-pregnant patient relationship, including interactions with families and companions, within Brazil’s Unified Health System (SUS). The theoretical foundation is the psychodynamics of work, an approach that holds that work organization is not rigid but dynamic and constantly changing, since real work situations are complex and multifaceted and can generate both harms and benefits for people. In other words, work can be a source of pathogenic suffering and illness or of pleasure and fulfillment (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Areosa, 2019</xref>).</p>
			<sec>
				<title>A psychodynamic lens on relationships at work</title>
				<p>The psychodynamics of work-whose principal representative is Christophe Dejours - offers a framework for understanding how work shapes mental health. It is a scientific approach that analyzes work experience as fundamental to the production of subjectivity (<xref ref-type="bibr" rid="B31">Gernet, 2021</xref>). <xref ref-type="bibr" rid="B20">Dejours (2017)</xref> argues for the centrality of work, considering multiple levels at which both positive and negative aspects must be considered. This duality had already been discussed by <xref ref-type="bibr" rid="B41">Marx (1993</xref>), who contended that work can bring out both the best and the worst in human beings.</p>
				<p>Although people are not passive and develop strategies to prevent illness, when the organization of work does not allow workers to change potentially harmful situations, a psychic wear-and-tear sets in - a futile struggle against suffering (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Dejours, 2017</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B25">Demaegdt, 2020</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B32">Gueguen &amp; Debout-Cosme, 2020</xref>). This scenario affects one’s subjective relationship to work, alters the semiology of psychic defenses, and contributes to the growing number of workers who fall ill from work-related psychopathological decompensations (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Duarte &amp; Dejours, 2019</xref>).</p>
				<p>Working involves subjective engagement to respond to the constraints imposed by the real. Such mobilization is spurred by the symbolic recognition granted for the work accomplished - not for the person. Thus, it is possible to judge someone’s work positively and grant recognition without necessarily liking the person (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Areosa, 2019</xref>). Even so, because it is a judgment on activity, it can still affect identity. Feedback from users, supervisors, and - above all - colleagues shapes the dynamics of relationships at work and resonates in one’s sense of personal accomplishment (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Dejours, 2012a</xref>).</p>
				<p>Recognizing that work is built through relationships highlights its collective character. Professional identity is validated by the milieu. Working therefore always carries expectations and concerns about others’ judgment and recognition of the activity performed. Such recognition can transform suffering into pleasure and help build armor for mental health at work (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Dejours, 2013</xref>). <xref ref-type="bibr" rid="B12">D’Avila and Melo (2022</xref>) examined features of social psychology of work and its links with distinct theoretical-methodological approaches centered on subjectivity. They place the psychodynamics of work within a clinical perspective that seeks to analyze the articulation between subject and society, tied to psychic and unconscious phenomena (<xref ref-type="bibr" rid="B46">Nunes &amp; Silva, 2018</xref>).</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>Working in obstetrics</title>
				<p>The complexity of childbirth care lies in the substantial set of activities and responsibilities to be managed under policies of humanized care and evidence-based guidelines. The International Confederation of Midwives (ICM) underscores the importance of strengthening obstetric services and ensuring qualified personnel to reduce maternal and neonatal morbidity and mortality, preterm births, and stillbirths (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Cintra &amp; Riesco, 2019</xref>).</p>
				<p>Even with all due care, <xref ref-type="bibr" rid="B29">Foucault (2010</xref>) notes that every medical approach comprises instruments and techniques that can have both therapeutic and harmful effects. Obstetrics, as a medical specialty, is subject to numerous ethical implications. The maternal-fetal dyad exposes professionals to the risk of error due to the unpredictability of severe conditions that can endanger the life of the patient and the fetus/newborn (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Boyaciyan, 2018</xref>).</p>
				<p>According to the Regional Council of Medicine of the State of São Paulo, obstetrics is the specialty with the largest number of complaints and proceedings related to medical malpractice. Complaints and disciplinary cases focus primarily on the quality of childbirth care (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Boyaciyan, 2018</xref>).</p>
				<p>In Brazil, childbirth has come to be framed pathologically, with an emphasis on pain and traumatic experiences such as obstetric violence (<xref ref-type="bibr" rid="B54">Sens &amp; Stamm, 2019</xref>). Public agencies and women’s social movements have denounced inadequate care provided to parturients, in a context of overuse of procedures and violations of sexual and reproductive rights. Obstetric violence is therefore considered a public health problem (<xref ref-type="bibr" rid="B47">Palharini, 2017</xref>). This context helps explain Brazil’s high cesarean rate, sustained in the popular imagination by the idea that surgical birth is painless, modern, and safe (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Hotimsky &amp; Schraiber, 2005</xref>).</p>
				<p>Part of the biomedical discourse also invokes the risks of vaginal birth to justify procedures as necessary to good obstetric practice (<xref ref-type="bibr" rid="B47">Palharini, 2017</xref>), maintaining that medical interventions serve individual and collective health and well-being rather than their opposites (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Boyaciyan, 2018</xref>). Professional practice thus unfolds on terrain marked by uncertainty, controversy, conflict, and negotiation among obstetrics, the health-service structure, and users. It is therefore necessary to understand the implications of these relationships from the workers’ perspective.</p>
				<p>In this study, our interest lies in the very act of working performed by these professionals in the concrete work situation (<xref ref-type="bibr" rid="B33">Guérin et al., 2001</xref>). While the literature documents multiple forms of workplace violence in this field, our focus was to understand how obstetricians - at a particular public maternity hospital - relate to their work and even to life outside work.</p>
				<p>Here we use not only the noun “work,” but the substantivized verb “working,” following <xref ref-type="bibr" rid="B15">Dejours (2012a</xref>). This signals that we are not dealing with something static, but with a process in constant transformation - one that also transforms those who do it, individually and collectively, wherever this working takes place. It is an opportunity for each person to develop their life and health, since</p>
				<disp-quote>
					<p>“working constitutes a second opportunity after childhood to expand the powers of the body to experience itself and to take pleasure in itself. But the passage from the experience of work to the formation of new registers is not mechanical. On the contrary, it presupposes a mobilization of the whole of subjectivity (…) in order to transform oneself and acquire new registers of sensitivity, new professional skills” (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Dejours, 2012a</xref>, p. 200).</p>
				</disp-quote>
				<p>In the case of the obstetricians who took part in this research, we sought to understand what happens to them when they go to work and encounter not only pregnant and laboring women but also violence.</p>
			</sec>
			<sec sec-type="methods">
				<title>Method</title>
				<p>This research is essentially qualitative. Doing science rests on the tripod of theory, methods, and techniques, which condition one another and depend on the object of analysis (<xref ref-type="bibr" rid="B44">Minayo, 2012</xref>). Based on this understanding, adopting a qualitative perspective to build knowledge in this study converges with the theoretical foundation that guides it: the psychodynamics of work.</p>
				<p>According to <xref ref-type="bibr" rid="B4">Becker (1992</xref>), studies in the human and social sciences that employ qualitative methods necessarily involve developing a methodology that is feasible - i.e., a “viable science” - without losing rigor. In line with that reasoning, one may reflect that method is to researchers what prescribed work is to workers: an important means that orients how to understand/know an object. However, over the course of this investigative action, the encounter with the real always collides with the need for reformulation - a feature intrinsic to human activity, to life and living-and research work is no different (<xref ref-type="bibr" rid="B42">Masson, 2007</xref>).</p>
				<p>In this sense, the envisioned method is neither a finished tool nor its object pure and neutral. This research is therefore a living process of inquiry and study through a “viable science.”</p>
				<sec>
					<title>Participants</title>
					<p>Thirteen obstetrician<xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>1</sup></xref> physicians participated in the study. Inclusion criteria were physicians specialized in gynecology and obstetrics with an employment relationship in the public health system. Accordingly, all participants work at a public maternity hospital located in a medium-sized city in the interior of a Northeastern state.</p>
				</sec>
				<sec>
					<title>Data collection procedures and ethical considerations</title>
					<p>Data were collected using a sociodemographic questionnaire and semi-structured interviews with open-ended questions developed by the authors. Interviews were conducted individually in the hospital wards of the maternity unit and lasted an average of 35 minutes. The interview guide was prepared in advance around the following thematic axis: relationships with service users and their implications for mobilization to exercise the profession as well as for the unforeseen events of the activity.</p>
					<p>In general, the psychodynamics of work does not employ the “individual interview” (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Dejours, 2004</xref>, p. 79), as it privileges group procedures. However, in certain cases, resorting to them becomes necessary, as in <xref ref-type="bibr" rid="B24">Dejours and Jayet (1994</xref>, p. 70), where they present “dual interviews,” and in <xref ref-type="bibr" rid="B22">Dejours and Bègue (2010)</xref>, where they discuss “individual interviews” (p. 121) used as a “stage of the investigation” (p. 117). In this study, we used individual interviews because this approach allowed closer contact with the professional group, considering participants’ limited availability to dedicate a portion of their time to discussing their work. Although the theoretical perspective of this research prioritizes collective encounters, field constraints emerged for two reasons: (i) the maternity unit’s on-call shift has a small number of obstetricians for a considerable number of patients, meaning that when they are on duty they cannot devote time to anything other than their tasks; and (ii) these professionals hold other jobs, making meetings outside work hours unfeasible.</p>
					<p>Thematic saturation determined the number of interviews conducted (<xref ref-type="bibr" rid="B45">Minayo, 2017</xref>). After approval by the human research ethics committee, participant recruitment used a referral procedure known as snowball sampling, in which participating workers referred colleagues, and so on. Initial contact with the maternity unit occurred through the hospital’s human resources department, which provided the staff roster and corresponding work schedules. With this roster in hand, we were able to invite professionals to participate during their shifts.</p>
					<p>With participants’ consent and upon signing the informed consent form, interviews were audio-recorded and later transcribed in full.</p>
				</sec>
				<sec>
					<title>Interview analysis</title>
					<p>Analysis followed thematic content analysis (<xref ref-type="bibr" rid="B37">Laville &amp; Dionne, 1999</xref>), encompassing: initial transcription and reading, segmentation of statements into units, definition of analytical categories, final categorization, and analysis and interpretation. Thematic content analysis enables the identification and interpretation of informational patterns through an expository and explanatory organization (<xref ref-type="bibr" rid="B55">Souza, 2019</xref>). To ensure anonymity and confidentiality, participants were assigned randomly chosen pseudonyms - for example, Letícia, Adriana, Fernanda, Rafael, etc.</p>
				</sec>
			</sec>
			<sec sec-type="results|discussion">
				<title>Results and Discussion</title>
				<sec>
					<title>Participant profile</title>
					<p>Participants’ ages ranged from 31 to 61 years. Regarding sex distribution, 10 participants were female and three were male. The average time spent in training (undergraduate degree, specialties, and residencies) was 10 years. Time in the profession ranged from 1 to 40 years, and eight participants had more than 15 years of experience. All interviewees reported some involvement with teaching; seven are professors at public or private medical schools, and the remainder serve as preceptors for interns and residents. On average, participants reported three employment ties and a fixed weekly workload of at least 40 hours and at most 80 hours (summing all workplaces in addition to the maternity unit studied). Eight obstetricians hold permanent civil-service posts, and the others are on fixed-term contracts.</p>
					<p>The analysis identified the following categories: recognition and personal fulfillment; the clash of frustrated expectations with relationships driven by the social imaginary surrounding the medical profession; and psychological violence and the development of defense mechanisms.</p>
				</sec>
				<sec>
					<title>Recognition and personal fulfillment through workplace relationships</title>
					<p>When asked about their relationships with pregnant patients, participants initially reported positive interactions, as in the account from Letícia:</p>
					<disp-quote>
						<p>I have a very good relationship with my patients… Yesterday I was at the mall and a man came up - I delivered three births for his family, two for his wife and one set of twins - and he said: “Look, go hug her; she’s the one who brought you into the world.” That, to me, is gratifying.</p>
					</disp-quote>
					<p>Words and gestures of affection are seen as an important source of recognition at work. As <xref ref-type="bibr" rid="B15">Dejours (2012a</xref>) notes, although material compensation matters, it is through symbolic retribution that feelings of recognition flourish in workers, fostering professional engagement and promoting mental health.</p>
					<p>Thus, symbolic recognition takes on special salience in obstetrics, since physicians take part in an event that is not merely biological but also deeply affective and social. The birth of a new life unfolds amid expectations embedded with cultural and historical elements (<xref ref-type="bibr" rid="B54">Sens &amp; Stamm, 2019</xref>). In line with obstetricians’ experiences, nurses also report receiving recognition from patients and families - a source of satisfaction and pleasure in daily practice that validates their work and reinforces professional identity (<xref ref-type="bibr" rid="B26">Duarte et al., 2021</xref>).</p>
					<p>In hospital care, the caring process is reciprocal and involves mutual exchange; there must be availability, trust, and receptivity on both sides - professionals and users/families. When this partnership materializes, recognition of the professional entails appreciation of the effort and suffering invested in delivering care, generating meaning in work and yielding not only financial but also symbolic returns (<xref ref-type="bibr" rid="B26">Duarte et al., 2021</xref>).</p>
					<p>The symbolic power afforded by recognition results not only from workers’ subjective mobilization but also from others’ judgments (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Areosa, 2019</xref>). According to <xref ref-type="bibr" rid="B15">Dejours (2012a</xref>), recognition through a “judgment of utility” may be conferred not only by superiors and subordinates but also by service users, when they acknowledge the worker’s contribution to agreed-upon goals. Recognition from peers - through an “aesthetic judgment” - is also central to identity and mental health.</p>
					<p>As <xref ref-type="bibr" rid="B17">Dejours (2013</xref>) argues, a judgment of utility confers status within the organization. Interviewee Ana observed:</p>
					<disp-quote>
						<p>I’m not someone with very high self-esteem; I’m not usually one to praise myself. But I always hear, “Ah, she was born for this.” Then I think, maybe I really was. And that’s fine (laughs). The fact that I feel satisfied with it - and the feeling is mutual - makes me sure I’m in the right place.</p>
					</disp-quote>
					<p>This statement highlights how work contributed to building the worker’s identity, confirming the centrality of work in people’s lives: working is never only about transforming something “out there,” but above all about transforming oneself - building an identity and acquiring new skills and competencies (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Areosa, 2019</xref>). <xref ref-type="bibr" rid="B50">Revuz et al. (2021</xref>) emphasize the collective character of work - the “being with others” - in consolidating individual and collective identities, since human beings are moved by what they do and how they do it. Work is therefore not only central but constitutive in their lives.</p>
				</sec>
				<sec>
					<title>Difficulties when expectations collide with the realities of work</title>
					<p>“I think I have a good relationship with patients - at least I try to; you can’t please everyone.” Adriana’s words signal that relationships with pregnant women do not always yield thanks, recognition, or job satisfaction. Her phrase “at least I try” acknowledges the effort she mobilizes in the face of obstacles posed by the real of work.</p>
					<p>In carrying out their activity, workers face various constraints: technical contingencies; disruptions arising from the environment and from users; relational difficulties; lack of supplies; and so on (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Dejours, 2012a</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B17">2013</xref>). In the face of such difficulties, the worker mobilizes their psychic economy to overcome the unexpected and may experience a sense of failure - an opening for ingenuity and practical intelligence to be mobilized to confront what is not prescribed and to surmount obstacles and suffering (<xref ref-type="bibr" rid="B31">Gernet, 2021</xref>). Accordingly, conflicts in the physician-patient relationship are permeated by difficulties imposed by the realities of work, as Fernanda relates:</p>
					<disp-quote>
						<p>Theory is very different from practice. Every physician dreams of working in a cutting-edge hospital with cutting-edge technology, where nothing’s missing, right? But reality is something else - very different - especially in Brazil, in the public system. Sometimes they arrive already on the defensive with us. Sometimes they’ve come from the countryside, traveled for hours, gone from hospital to hospital, hand to hand; so when they get here, they arrive all braced for a fight, expecting us to fix everything. And we can’t always fix everything.</p>
					</disp-quote>
					<p>Working conditions make it hard for obstetricians to do their job as they would like. As a consequence, the lack of infrastructure in public health generates friction with pregnant women, their families, and companions, who often hold physicians responsible for their suffering. They expect their pregnancy-related problems to be solved and their demands met, but the “infidelities of the milieu” (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Canguilhem, 2016</xref>) - amplified by the scarcity of the unit - limit clinicians’ ability to resolve problems, and unexpected, catastrophic events can occur.</p>
					<p>For the psychodynamics of work, grasping the dynamics of workplace relationships is essential (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Dejours, 2017</xref>). Every activity is exposed to others’ gaze and judgment, and negative feedback breeds a sense of frustration (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Areosa, 2019</xref>). In medicine, the interaction between physician and patient determines the construction of a bond of trust that is crucial for the delivery of care and for professional satisfaction (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Campos &amp; Fígaro, 2021</xref>).</p>
					<p>Another axis of conflict concerns choosing the most appropriate conduct for childbirth and the patient’s wishes, as Ana explains:</p>
					<disp-quote>
						<p>Family members think they can tell us what conduct to take. They arrive and say, “No! It has to be a C-section.” And it’s not like that. There’s a pathway, a step-by-step; there are indications for a C-section, but they want to make that call, you know? They want us to do it; and when we don’t, they say, “Oh, you’re dragging things out.” But that’s not how it works - every profession has its protocols, right? So that’s the hardest part for me. It’s not even dealing with the patient directly; it’s dealing with this external pressure to do what people want.</p>
					</disp-quote>
					<p>This speaks to a broader moment in medicine. As <xref ref-type="bibr" rid="B2">Aguiar et al. (2020</xref>) note, technological medicine operates in a context where technologies take center stage, sidelining professional practice. This produces a crisis of trust in clinical decision-making if it is not accompanied by technological use. Added to this is a social belief that surgical delivery is the safest and least painful option for mother and baby (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Hotimsky &amp; Schraiber, 2005</xref>). This is not only a desire to avoid pain; above all, it is a demand for dignity, since “natural” birth has often been experienced as traumatic (<xref ref-type="bibr" rid="B39">Maia, 2010</xref>).</p>
					<p>At the same time, expanding public knowledge has enabled citizens to understand-and rightly claim - their health rights. Alongside this progress, however, there has been a rise in aggressive, confrontational behaviors that create discomfort in the physician-patient relationship, often stemming from a lack of trust in professionals (<xref ref-type="bibr" rid="B51">Rocco, 2010</xref>). This context contributes to pathogenic suffering (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Dejours, 2013</xref>). Participants in this study described the difficulty of reconciling pregnant women’s and companions’ wishes with medical evidence and with deficiencies in public provision.</p>
					<p>Conversely, treating pregnant women’s wishes as a complicating factor is criticized by <xref ref-type="bibr" rid="B47">Palharini (2017</xref>), who argues that medical authority is often construed as unquestionable and absolute, disqualifying any dissenting discourse. From this perspective, the physician-patient relationship becomes precarious when one subject is assigned legitimate authority and the other is assumed to know nothing. <xref ref-type="bibr" rid="B54">Sens and Stamm (2019</xref>) observe that many maternity-care studies show obedience is expected of patients, while non-obedience is interpreted as disrespect or aggression. Hence the need to reflect on better strategies for fostering welcoming, empathetic, and comprehensible communication between physician and patient.</p>
				</sec>
				<sec>
					<title>Relationships shaped by the social imaginary about the medical profession</title>
					<p>As <xref ref-type="bibr" rid="B54">Sens and Stamm (2019</xref>) note, professional performance is grounded not only in material conditions or technical-scientific knowledge but also in human relations - an interpersonal ethic. Respectful, empathetic relationships are therefore vital in practice. For <xref ref-type="bibr" rid="B1">Aguiar et al. (2013</xref>), better care hinges on mutual understanding and tolerance; absent reciprocity, violence within interactions becomes more common.</p>
					<p>The obstetricians interviewed reported difficult interpersonal contexts in their work. Terms such as “mercenary” (Cecília), “killer” (Bárbara), “incompetent” (Luís), “butcher” and “criminal” (Bruna), and “murderer” (Priscila) were cited as labels applied to them by patients and companions and circulating in the media. In the psychodynamics of work, recognition is fundamental to building life and health through work (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Dejours, 2015</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B19">2016</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B22">Dejours &amp; Bégue, 2010</xref>). Facing insults in place of recognition is frightening and distressing for these professionals.</p>
					<p>Participants unanimously reported that, because they encourage vaginal birth (in line with official guidelines and norms), they are seen as those who produce suffering and even mistreatment; as unfeeling; and as proof that everyone working in the studied maternity unit works poorly or does not want to work. In such situations, the precarious public service “disappears” from families’ view, and the physician confronts verbal violence and the fear of physical violence. Even in France - where the welfare state is far more developed than in Brazil - public-service precarization occurs, with daily consequences for medical work (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Dejours, 2015</xref>). Professionals must therefore devise strategies to avoid collapse (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Dejours, 2012b</xref>), since there are always more patients in need of care than professionals available to provide good-quality assistance in the public maternity setting. Bruna illustrates:</p>
					<disp-quote>
						<p>The media doesn’t publicize good things - it only shows what went wrong, never what went right. So people think everything done here is wrong; that every professional who works here works badly; that every professional here is a butcher who wants to mistreat, who treats people poorly. How can you change that image? After all, this is our profession. But because of the system, the lack of information, this idea that we’re all criminals - that nowadays physicians are seen as criminals - there’s no respect anymore, so we’re afraid.</p>
					</disp-quote>
					<p>As <xref ref-type="bibr" rid="B23">Dejours et al. (1993</xref>, p. 99) argue, when we ask what someone’s job is, a social imaginary about the profession is invoked. Work is “not only a way to earn a living; it is a social status to which are sometimes attached a specific attire, a particular vocabulary,” and it also sets the tone for solidarity or conflict between professionals and their users. For the participant quoted above, the media feeds this conflict by tarnishing the maternity hospital’s reputation and, by extension, its staff, so that patients and companions arrive “ready for an argument.” As Fernanda put it: “they already arrive at the maternity ward ‘armed’.”</p>
					<p>Research by <xref ref-type="bibr" rid="B1">Aguiar et al. (2013</xref>) on institutional violence in public maternity hospitals corroborates that the physician-pregnant patient relationship can be conflictual. The authors point to a two-sided difficulty: physicians who do not communicate well, and patients who verbally aggress professionals because they arrive at public services fearing mistreatment - whether due to prior experiences or warnings from others. Priscila observed: “It depends a lot; it depends on how people arrive, on how things are. Sometimes we end up giving back what we receive, right?”</p>
					<p>Suffering can also impel resistance and action. Although the participants’ responses suggest that lived conflicts have not led to subjective demobilization, they do exact a high psychic cost for remaining at work. Ana expressed her engagement this way:</p>
					<disp-quote>
						<p>We struggle with how maligned the maternity hospital is, right? So we - let’s put it this way - I always do a lot of propaganda on its behalf. I’m part of this place; I work here. If you saw my chart notes, I’m always talking a lot with patients; I explain everything to them; I give them a lot of attention - to demystify this “slaughterhouse” idea.</p>
					</disp-quote>
					<p>When affectivity is wounded, suffering ensues - an experience inseparable from confronting what is not prescribed (<xref ref-type="bibr" rid="B31">Gernet, 2021</xref>). Such suffering becomes the target of specific psychic processes - sublimation, possibilities for pleasure and development at work - so that subjective experience does not become harmful. Ana’s suffering did not turn pathogenic; it spurred her to resist the real, defend the maternity hospital, and do her best. This is ingenuity and practical intelligence mobilized to overcome obstacles.</p>
				</sec>
				<sec>
					<title>Psychological violence and the development of defense mechanisms</title>
					<p>We identified four recurring situations that generate friction among physicians, pregnant women, and companions: proposing vaginal birth instead of a cesarean; a pregnancy evolving into an urgent/emergent situation; delays in hospital discharge; and cases in which the pregnant woman and/or fetus die or suffer sequelae. Such points of tension in physician-patient interaction can lead to violence and aggression - both from patients toward professionals and from professionals toward patients (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Aguiar et al., 2013</xref>).</p>
					<p>The expectation of a new life can end in irreversible tragedy. As Bárbara notes, “Obstetrics is difficult in that way. The family doesn’t accept it, right? And they want to blame someone, and it’s not always our fault.” Her words show that tragedy may stem both from the unpredictability of events and from the worker’s own action. Luís described these dilemmas as follows:</p>
					<disp-quote>
						<p>To give you an idea - without exaggeration - we are threatened every day. Obstetrics is threatened every day. Before long you’ll see a companion yelling at us: “Why won’t you operate on the patient? Why won’t you resolve this? Why is the patient still hospitalized? And if something happens to the baby, you’re going to pay!” That’s a veiled threat. So all of us are threatened day and night in the public service.</p>
					</disp-quote>
					<p>
						<xref ref-type="bibr" rid="B10">Chappell and Martino (2006</xref>) define workplace violence as situations in which people are abused, threatened, or assaulted in circumstances related to their work. Psychological violence may take the form of threats, promises, or insinuations aimed at coercing, inhibiting, or constraining a person or group. Participants reported that, during labor, for example, companions may “shake their foot impatiently” (Carlos), threaten legal action, or call the media. Many also reported frequent threats to their lives - not only verbal ones; one episode involved a threat with a bladed weapon.</p>
					<p>Such situations become more fraught when the companion is male, heightening concern that threats may be carried out. For <xref ref-type="bibr" rid="B13">Dejours (2004</xref>), verbal abuse constitutes a threat of violence, since one cannot predict whether it will remain at the level of discourse or escalate to physical abuse - provoking fear in the worker. As Luana recounts, “Many times companions arrive intoxicated… They intimidate us, threaten us, yell at us. They really don’t respect our profession, our conduct, or us as people.”</p>
					<p>Still according to <xref ref-type="bibr" rid="B13">Dejours (2004</xref>), when the risk of aggression is present at work and becomes trivialized - part of the task - the worker must seek to neutralize it as far as possible. Thus, continuing the work in another environment to preserve oneself from risk has become part of medical activity. In addition, when threatened, all participants reported trying not to argue with patients or companions - amounting to an informal work rule. Otherwise, the atmosphere becomes even more unpleasant, as Carlos explains: “If you argue with a patient - if you get into it with a patient-it becomes extremely unpleasant for you. Any annoyance you have during a shift will stick with you for the entire shift.” This conduct functions as a collective defense strategy, preserving the psychic balance needed to carry on.</p>
					<p>Such a scenario demands strategies to ward off violence and continue working despite imminent risk - possible only when mutual support and protection exist among colleagues (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Dejours, 2019</xref>). “Working is not only producing; it is also living together” (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Dejours, 2012a</xref>, p. 85). Hence the importance of relationships, belonging, and the rules and values that constitute a work collective in forging defensive strategies to protect mental health and strengthen occupational identity. Given the unpredictability of work situations, these professionals must manage opposing feelings - now of pleasure, now of suffering - as Luís describes:</p>
					<disp-quote>
						<p>The relationship with patients is sometimes love-hate. You go from heaven to hell in seconds. In obstetrics this is very clear. For example, we were in the delivery room; there was an emergency; we moved her to the OR, did the work, and it all went well. The patient and her family were extremely grateful. Then, as soon as we stepped into the pre-delivery area, a companion of another patient said, “See that doctor there? He’s incompetent; he doesn’t know anything.” So you went from heaven to hell in 30 seconds.</p>
					</disp-quote>
					<p>Thus, at times the obstetrician is recognized for good work; at others, discredited. This ambivalence generates divergent feelings that physicians must learn to handle. As Priscila reports: “A patient’s mother calling out to us: ‘You’re murderers, you’re murderers.’ It’s hard, right? You need a lot of psychology for that.”</p>
					<p>Work mobilizes affects, and psychoanalysis addresses subject formation based on the infant’s ambivalent love-hate relation with the mother-complementary feelings that shape the person (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Dejours, 2009</xref>). Hate plays a structuring role in development: through anxiety, tolerance grows. From the sensations that produce love and hate arises a creative force capable of managing the discomfort of displeasure (<xref ref-type="bibr" rid="B30">Freud, 1996</xref>). At the organizational level, such ambivalent relations can yield benefits - creativity, problem-solving, and decisional accuracy - precisely what emerged among participants in this study.</p>
				</sec>
			</sec>
			<sec sec-type="conclusions">
				<title>Final considerations</title>
				<p>This study examined obstetricians’ work, focusing on relationships with pregnant women, families, and companions. Participants’ accounts revealed complex physician-patient dynamics, encompassing both affection and conflict/threat. Despite recurrent impasses - and the distress they often cause - participants remain engaged in their profession. We surmise that experiences of pleasure and recognition help support them in the face of threatening situations at work.</p>
				<p>The study contributes to understanding the viewpoints of those who are the true protagonists of this activity. It is necessary to broaden our lens to the social context in which this professional group operates, especially in public health. Obstetricians face a daily landscape of controversies and disputes that puts their craft and practice in question, in the midst of pathogenic suffering that can lead to mental illness. Media coverage compounds these complex relations by emphasizing adverse events - particularly those related to vaginal birth.</p>
				<p>As for limitations, conducting group meetings with the category proved difficult due to time constraints - not only during shifts but also because weekly workloads often exceed 40 hours. We suggest future research deepen understanding of the physician-patient relationship through collective dialogues about work.</p>
			</sec>
		</body>
		<back>
			<fn-group>
				<fn fn-type="other" id="fn3">
					<label>1</label>
					<p>Although the medical specialty is termed obstetrics and gynecology, here we opted to simplify the terminology by using only the area most closely related to our object of study.</p>
				</fn>
			</fn-group>
		</back>
	</sub-article>
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