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			<journal-id journal-id-type="publisher-id">subj</journal-id>
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				<journal-title>Revista Subjetividades</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">R Subj</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="epub">2359-0777</issn>
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				<publisher-name>Universidade de Fortaleza</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.5020/23590777.rs.v25i2.e13122</article-id>
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				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>Relatos de Experiências</subject>
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				<article-title>Os Fundamentos Teórico-Práticos da Psicologia Clínica Histórico-Cultural de L. S. Vigotski</article-title>
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					<trans-title>Los Fundamentos Teórico-Prácticos de la Psicología Clínica Histórico-Cultural de L. S. Vigotski</trans-title>
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					<trans-title><italic>Les Fondements Théoriques et Pratiques de la Psychologie Clinique Historico-Culturelle de L. S. Vygotski</italic></trans-title>
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					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0002-5125-3513</contrib-id>
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						<surname>Oliveira</surname>
						<given-names>José da Silva</given-names>
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					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0001-6106-9229</contrib-id>
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						<surname>Nunes</surname>
						<given-names>Ana Ignêz Belém Lima</given-names>
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				<institution content-type="original">Graduado em Psicologia pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Especialista em Psicologia Clínica Histórico-Cultural pela Faculdade de Quixeramobim (UNIQ). Especialista em Sexualidade Humana pelo Child Behavior Instituute (CBI) of Miami. Mestre em Psicologia pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Ceará (UFC). Doutorando em Psicologia pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Ceará.</institution>
				<institution content-type="orgdiv1">Programa de Pós-Graduação em Psicologia</institution>
				<institution content-type="orgname">Universidade Federal do Ceará</institution>
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				<institution content-type="original">Graduada em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará (1989), Mestra em Educação pela Universidade Federal do Ceará (1995) e Doutora em Ciencias de la Educación - Universidad de Santiago de Compostela/Espanha (2004) com pós-doutorado em Educação pela Universidade Federal do RioGrande do Norte (UFRN). Atualmente, é professora adjunta da Universidade Estadual do Ceará das áreas de Psicologia da Educação e Psicologia Clínica, nas quais também é supervisora, lecionando também no Programa de Pós Graduação em Educação da UECE.</institution>
				<institution content-type="orgname">Universidade Estadual do Ceará</institution>
				<institution content-type="orgdiv1">Psicologia da Educação e Psicologia Clínica</institution>
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			<author-notes>
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					<label>Endereço para correspondência:</label> José da Silva Oliveira Neto E-mail: <email>netooliveirapsi@gmail.com</email> Ana Ignêz Belém Lima Nunes E-mail: <email>ana.belem@uece.br</email>
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			</author-notes>
			<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
				<day>10</day>
				<month>09</month>
				<year>2026</year>
			</pub-date>
			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
				<year>2026</year>
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			<volume>25</volume>
			<issue>02</issue>
			<elocation-id>e13122</elocation-id>
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				<date date-type="received">
					<day>14</day>
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				<date date-type="accepted">
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					<year>2025</year>
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				<license license-type="open-access" xlink:href="https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/" xml:lang="pt">
					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
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			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>A psicologia histórico-cultural, desenvolvida por L. S. Vigotski é uma teoria complexa que responde às necessidades clínicas contemporâneas, uma vez que pensa as relações sociais e a formação da personalidade como processualidade histórica. Este estudo é eminentemente qualitativo e é do tipo relato de experiência, no qual se objetivou ilustrar os fundamentos teórico-práticos da psicologia clínica histórico-cultural, a partir do caso de um paciente do Serviço de Psicologia Aplicada (SPA), de uma universidade pública do estado do Ceará, durante um processo de psicoterapia de base histórico-cultural. Todos os procedimentos éticos foram seguidos e, tendo em vista seu caráter qualitativo, foi possível um maior detalhamento do objeto de estudo, dos procedimentos empregados e dos resultados percebidos. A partir do caso estudado e das intervenções realizadas pelo psicólogo, foram percebidas mudanças na dinâmica da personalidade do paciente, bem como em seu modo de vida, como resultado da mediação psicoterápica histórico-cultural. Assim, o presente artigo se insere entre os poucos estudos clínicos na psicologia histórico-cultural, agregando valor à área e estimulando mais produções que relacionem teoria e prática nos estudos vigotskiano-marxistas.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="es">
				<title>Resumen</title>
				<p><italic>La Psicología Histórico-Cultural, desarrollada por L. S. Vigotski, constituye una teoría compleja que responde a las necesidades clínicas contemporáneas, en la medida en que concibe las relaciones sociales y la formación de la personalidad como una procesualidad histórica. Este estudio, eminentemente cualitativo, se presenta como un relato de experiencia cuyo objetivo fue ilustrar los fundamentos teórico-prácticos de la Psicología Clínica Histórico-Cultural, a partir del caso de un paciente del Servicio de Psicología Aplicada (SPA) de una universidad pública del estado de Ceará, durante un proceso de psicoterapia de base histórico-cultural. Se siguieron todos los procedimientos éticos y, dado su carácter cualitativo, fue posible un mayor nivel de detalle respecto al objeto de estudio, los procedimientos empleados y los resultados observados. A partir del caso analizado y de las intervenciones realizadas por el psicólogo, se identificaron cambios en la dinámica de la personalidad del paciente, así como en su modo de vida, como resultado de la mediación psicoterapéutica histórico-cultural. De este modo, el presente artículo se inscribe entre los escasos estudios clínicos en Psicología Histórico-Cultural, aportando valor al área y fomentando nuevas producciones que articulen teoría y práctica en los estudios vigotskiano-marxistas.</italic></p>
			</trans-abstract>
			<trans-abstract xml:lang="fr">
				<title>Resume</title>
				<p><italic>La psychologie historico-culturelle, développée par L. S. Vygotski, est une théorie complexe qui répond aux besoins cliniques contemporains, car elle considère les relations sociales et la formation de la personnalité comme une processualité historique. Cette étude est éminemment qualitative et est de type récit d’expérience, visant à illustrer les fondements théorico-pratiques de la psychologie clinique historico-culturelle, à partir du cas d’un patient du Service de Psychologie Appliquée (SPA), d’une université publique de l’État du Ceará, au cours d’un processus de psychothérapie d’orientation historico-culturelle. Toutes les procédures éthiques ont été respectées et, en raison de son caractère qualitatif, il a été possible de détailler davantage l’objet d’étude, les procédures employées et les résultats perçus. À partir du cas étudié et des interventions réalisées par le psychologue, des changements ont été perçus dans la dynamique de la personnalité du patient, ainsi que dans son mode de vie, résultant de la médiation psychothérapeutique historico-culturelle. Ainsi, cet article fait partie des rares études cliniques en psychologie historico-culturelle, enrichissant le domaine et stimulant davantage de productions qui relient la théorie et la pratique dans les études vygotskiennes-marxistes.</italic></p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>psicologia clínica histórico-cultural</kwd>
				<kwd>relato de experiência</kwd>
				<kwd>L. S. Vigotski</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="es">
				<title><italic>Palabras clave:</italic></title>
				<kwd>psicología clínica histórico-cultural</kwd>
				<kwd>relato de experiencia</kwd>
				<kwd>L. S. Vigotski</kwd>
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			<kwd-group xml:lang="fr">
				<title>Mots-clés:</title>
				<kwd>psychologie clinique historico-culturelle</kwd>
				<kwd>rapport d’expérience</kwd>
				<kwd>L. S. Vygotski</kwd>
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	<body>
		<p>A contemporaneidade impõe novos horizontes e novos desafios para a constituição das relações sociais e, por conseguinte, para a construção da personalidade humana (<xref ref-type="bibr" rid="B24">Silva, 2009</xref>). <xref ref-type="bibr" rid="B15">Mészáros (2011</xref>) aponta que, tendo em vista a complexificação do capital em novas formas, as relações sociais têm se tornado mais alienantes, contribuindo para a produção de processos de adoecimento no ser humano. Para <xref ref-type="bibr" rid="B29">Silva (2009)</xref>, pensar em novas condições de formação da personalidade é pensar em um novo indivíduo na contemporaneidade, na qual noções como intersubjetividade, cultura e historicidade devem ser repensadas.</p>
		<p>Diante dos desafios contemporâneos relacionados à formação da personalidade humana, discutem-se neste texto os fundamentos teórico-práticos da psicologia clínica histórico-cultural - uma clínica que, devido às suas bases epistemológicas e metodológicas, dá conta criticamente dos ecos da contemporaneidade na produção da personalidade humana. Amparados também no conceito de personalidade, desenvolvido por Vigotski e outros autores - conceito este que explicaremos nas próximas sessões -, avançamos rumo à compreensão do desenvolvimento da subjetividade em uma perspectiva vigotskiana, dialogando especificamente com o campo da clínica.</p>
		<p>
			<xref ref-type="bibr" rid="B12">Lima et al. (2021</xref>) defendem que a psicologia histórico-cultural é um sistema complexo e completo em psicologia, o que significa que, dentro dessa perspectiva psicológica, encontramos os conceitos e as estratégias necessárias para construir uma atuação clínica histórico-cultural. Apesar de a psicologia histórico-cultural ter sido silenciada e não devidamente estudada no Brasil, por muito tempo se acreditou que Vigotski não tinha contribuições específicas para a clínica psicológica, ficando este campo relegado aos pensamentos abstracionistas e mecanicistas das psicologias burguesas.</p>
		<p>Vigotski, que também era um clínico, desenvolveu estudos sobre pedologia clínica e defectologia, nos quais pesquisava o desenvolvimento de crianças com problemas de desenvolvimento (<xref ref-type="bibr" rid="B33">Vigotski, 1997</xref>). Ademais, cabe destacar que Vigotski se dedicou ao estudo de outras temáticas do campo clínico, tais quais a esquizofrenia, a afasia e a histeria (<xref ref-type="bibr" rid="B25">Silva &amp; Tuleski, 2015</xref>). Nesse sentido, defende-se aqui a psicologia histórico-cultural como sistema teórico em psicologia que possui aplicação clínica, sendo seu objetivo central a promoção de consciência em seu sentido mais amplo e vigotskiano e, por consequência, da reestruturação da personalidade. Deve-se lembrar de que <xref ref-type="bibr" rid="B37">Vigotski (2006)</xref> definiu sua teoria como uma teoria que se preocupa com os processos da consciência, que é aquilo que diferencia o humano das demais espécies.</p>
		<p>Alguns estudos já têm proposto uma compreensão clínica histórico-cultural, sendo ainda necessário que novos estudos clínicos sejam desenvolvidos a partir de uma correta relação entre os aspectos teórico-práticos (práxis) da abordagem. Urge que estudos atuais mostrem como transcorre um processo psicoterápico vigotskiano, apontando intervenções e manejo clínicos associados ao complexo teórico-metodológico (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Aita &amp; Facci, 2022</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B3">Clarindo, 2020</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B9">Lima, 2019</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B10">Lima &amp; Oliveira, 2023</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B11">2025</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B13">Marangoni, 2007</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B22">Silva, 2023</xref>).</p>
		<p>Para que se compreendam os fundamentos teórico-práticos da psicologia clínica histórico-cultural em sua relação com os processos de formação da personalidade humana na contemporaneidade, escolheu-se para este estudo um desenho de relato de experiência, este referente ao acompanhamento psicoterápico de um paciente de clínica-escola de uma universidade pública do Ceará. Nesse fluxo, visando melhor sistemática, o texto foi organizado em três momentos: a) Enlaces históricos sobre a psicologia clínica histórico-cultural; b) Fundamentos teóricos da psicologia clínica histórico-cultural; e c) Relato de experiência: os fundamentos práticos da psicologia clínica histórico-cultural. Também se explica, na seção a seguir, os caminhos metodológicos adotados, os procedimentos e os aspectos éticos que envolveram o desenvolvimento da experiência clínica mencionada.</p>
		<sec>
			<title>Método</title>
			<p>O presente estudo se insere dentro do espectro das pesquisas qualitativas em psicologia, de maneira que verte seu olhar sobre o processo de psicoterapia em si e sobre os detalhamentos dos recursos utilizados e dos resultados obtidos, tendo sido o relato de experiência o caminho específico que se optou. Ele possibilita o registro das experiências e das percepções do pesquisador sobre o objeto de estudo, neste caso, um processo de psicoterapia de base histórico-cultural, realizado em uma universidade pública cearense, que envolve a relação terapêutica, os procedimentos de intervenção adotados e a avaliação de desenvolvimento do paciente (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Casarin &amp; Porto, 2021</xref>).</p>
			<p>O relato de experiência se deu através da investigação de um paciente de psicoterapia acompanhado ao longo de um ano no Serviço de Psicologia Aplicada (SPA) de uma universidade pública do estado do Ceará sob o formato de uma disciplina de estágio clínico. As análises feitas neste estudo foram documentais, tendo como fonte para análise do objeto os relatórios, as sínteses dos atendimentos, as fichas de triagem do paciente, bem como outros documentos referentes ao registro do paciente junto ao SPA da instituição.</p>
			<p>No tocante ao caso clínico, trata-se de um sujeito do sexo masculino, de 23 anos de idade, autodeclarado negro e heterossexual. O paciente foi atendido ao longo de um ano, totalizando 26 sessões de psicoterapia, com aproximadamente 50 minutos de duração cada. Por razões éticas e de sigilo, o paciente será identificado neste estudo pelo pseudônimo C. O. Ressalta-se que o paciente foi assíduo e demonstrou alto nível de comprometimento com o processo de psicoterapia. Todas as intervenções e condutas se deram respeitando a saúde e integridade do paciente, conforme prescreve a <xref ref-type="bibr" rid="B27"><italic>Resolução nº 466</italic> (2012)</xref> do Conselho Nacional de Saúde. Conforme a <xref ref-type="bibr" rid="B28"><italic>Resolução nº 510</italic> (2016)</xref>, as informações clínicas, previamente autorizadas para uso por paciente, podem se configurar como material de pesquisa-estudo. No caso aqui explicitado, o documento foi assinado e devidamente autorizado nas tratativas para o atendimento em psicoterapia no SPA.</p>
			<sec>
				<title>Enlaces Históricos sobre a Psicologia Clínica Histórico-Cultural</title>
				<p>A psicologia histórico-cultural é uma corrente de pensamento psicológico cunhada na Rússia soviética por L. S. Vigotski e colaboradores como A. R. Luria e A. N. Leontiev. Esse grupo de trabalho, liderado por Vigotski e conhecido como <italic>Troika</italic>, teve grande influência teórica. De maneira que todos que se associavam a ele assumiam a liderança teórica de Vigotski, aplicando suas compreensões e os seus postulados em suas próprias pesquisas (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Martins et al., 2016</xref>). Essa psicologia surge da insatisfação de Vigotski com os modelos teóricos hegemônicos da sua época, os quais ora se direcionaram a compreensões mecanicistas e abstratas, aqui entendidas como psicologias burguesas. Vigotski desenvolve sua teoria especificamente sobre esse tema em “O significado histórico da crise da psicologia: uma investigação metodológica” (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Vigotski, 2004</xref>).</p>
				<p>Nesse cenário, a psicologia de Vigotski aparece como resposta às necessidades que se colocavam com o estabelecimento do estado soviético unificado, a saber: a construção de um modelo de sociedade não capitalista, exigindo, portanto, bases teóricas que pensassem o homem e os processos psíquicos a partir de referências convergentes com esse novo modelo (<xref ref-type="bibr" rid="B30">Tuleski, 2008</xref>). Assim, Vigotski construiu um sistema teórico em psicologia complexo e completo, não podendo ser subsumido por uma única área de aplicação da psicologia, como o que acontece ao associar a psicologia histórico-cultural apenas ao campo da educação.</p>
				<p>Note-se que Vigotski conduzia atividades de intervenção clínica ao modelo de sua época, as quais tinham como enfoque as problemáticas da pedologia e da psicopatologia clínica, como pode ser observado em alguns de seus estudos (<xref ref-type="bibr" rid="B33">Vigotski, 1997</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B38">2008a</xref>). Contudo, em consonância com o apontado por <xref ref-type="bibr" rid="B30">Tuleski (2008</xref>), os estudos da psicologia histórico-cultural, sobretudo os de Vigotski, ao entrarem no Ocidente, encontraram certas barreiras, como a resistência aos seus textos. Tal resistência ocorria porque Vigotski era acusado de comunismo. Durante as décadas de 1960 e 1970, a América Latina vivia sob regimes ditatoriais que se opunham às ideias políticas veiculava por sua psicologia. Além disso, traduções de suas obras frequentemente eliminavam referências ao marxismo, desfigurando seus escritos e seus textos originais.</p>
				<p>Dessa forma, as traduções mais próximas dos textos originais russos, bem como obras em outras línguas, sobretudo aquelas nas quais a prática da Clínica Histórico-Cultural é apresentada, só chegaram ao Brasil recentemente. A partir delas, foi possível a apropriação de temas centrais para a prática da Clínica Histórico-Cultural na contemporaneidade, como: a clínica pedológica, a neuropsicologia, a investigação dos transtornos psiquiátricos e outros temas relevantes à clínica (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Lima &amp; Oliveira, 2023</xref>). Nota-se também que, nos últimos dez anos, assistiu-se tanto ao crescimento da organização de grupos de pesquisa em todo o Brasil quanto dos temas mais clínicos da psicologia de Vigotski, com atenção para as atividades desenvolvidas por grupos de pesquisa cearenses, como o Laboratório de Estudos da Subjetividade e Saúde Mental (LADES). Nessa linha, é válido expor que recentemente houve a publicação dos cadernos de notas de <xref ref-type="bibr" rid="B41">Vigotski (2022)</xref>, um compilado de anotações do estudioso que ratifica a existência da práxis Clínica Histórico-Cultural, que avance na descrição, na interpretação e na explicação dos desafios psicológicos que passam os indivíduos na contemporaneidade.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>Fundamentos Teóricos da Psicologia Clínica Histórico-Cultural</title>
				<p>Pensar a Psicologia Clínica Histórico-Cultural é um desafio, seja por conta da complexidade da teoria desenvolvida por Vigotski, com conceitos interdependentes e entrelaçados, seja por conta de, diferentemente de outras abordagens, sua clínica não ser comunicada de forma sistemática. Apesar disso, há avanços na área que definem a Clínica Histórico-Cultural como uma terapêutica do desenvolvimento, da transformação e da produção de autonomia. Isso ocorre a partir da construção de projetos terapêuticos singulares contextualizados à dinâmica de vida do paciente, à sua situação social de desenvolvimento e aos elementos psicossociais que são base para seu desenvolvimento psíquico (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Lima &amp; Oliveira, 2025</xref>).</p>
				<p>Existem conceitos que devem nortear o olhar do psicólogo em sua atuação histórico-cultural e, definitivamente, o primeiro deles é a mediação. Para se compreender esse conceito, deve-se lembrar que Vigotski elaborou uma teoria social sobre a gênese da personalidade humana e sua conduta. Sobre a gênese e o desenvolvimento dos processos psicológicos, <xref ref-type="bibr" rid="B43">Vigotski e Luria (1996)</xref> esclarecem que o psiquismo se desenvolve a partir de estágios iniciais eminentemente coordenados pelas leis biológicas, mas que, à medida que imergimos na cultura, cedem lugar, por incorporação, a formas culturais, complexas e especificamente humanas de funcionamento psíquico.</p>
				<p>A mediação deve ser compreendida como a interposição de um elo intermediário na relação do ser humano com o mundo. Como se viu, a conduta humana era determinada por aquilo que estava prevista na sua história como espécie, mas que, com o advento da cultura e da linguagem, o ser humano passa a simbolizar o mundo e a ter consciência de suas relações (<xref ref-type="bibr" rid="B39">Vigotski, 2008b</xref>). Essa é uma ideia fundamental para a Clínica Histórico-Cultural, pois a relação terapêutica é consequência direta do espaço simbólico compartilhado pelo ser humano, à medida que seu desenvolvimento foi cruzado e modificado qualitativamente pela cultura.</p>
				<p>Nessa medida, em uma relação mediada com o mundo, construímos representações mentais da realidade, o que envolve os elementos mediadores a que temos acesso, relações interpessoais e cenário de vida. Entretanto, aquilo que o indivíduo produz em sua relação com o mundo só é possível a partir de processos mentais específicos chamados por <xref ref-type="bibr" rid="B31">Vigotski (1994</xref>) de funções psicológicas superiores - outro conceito fundamental para se pensar a prática clínica na perspectiva histórico-cultural. Como informado, de acordo com o autor, os processos psicológicos são a base para o estabelecimento da representação mental e podendo ser: inferiores, de ordem mais biológica ou superiores, de ordem mais cultural. São muitos os processos psicológicos que compõem o psiquismo humano, como pensamento, linguagem, percepção, atenção, memória, formação de conceitos, imaginação, emoções e criatividade.</p>
				<p>Trata-se de um conceito importante, pois os processos de adoecimento psíquico, na perspectiva Clínica Histórico-Cultural, serão analisados a partir das alterações presentes nas funções psicológicas superiores. Assim, o papel do psicólogo clínico histórico-cultural é o de produzir intervenções que mobilizem certos processos, a fim de que as funções mentais sejam habilitadas, funcionem de forma interfuncional e auxiliem em uma relação mais consciente e autônoma quanto aos enfrentamentos ao longo do desenvolvimento psíquico.</p>
				<p>Avançando na perspectiva de entender como os conceitos da psicologia histórico-cultural se articulam na prática clínica, para <xref ref-type="bibr" rid="B31">Vigotski (1994</xref>), a constituição da personalidade se dá em um movimento dialético interno-externo, de modo que tudo que faz parte da vida subjetiva já fez parte das relações sociais. Em outros termos, primeiro o psiquismo é interpsicológico, para depois se tornar intrapsicológico. A esse processo de apropriação e transformação dos elementos mediadores presentes na realidade concreta e simbólica Vigotski dá o nome de internalização. </p>
				<p>Em uma mirada histórico-cultural, o conceito de internalização nos mostra como todos os processos de aprendizagem dos nossos pacientes se dão, a saber, de modo psicossocial. Assim, nessa abordagem da clínica, por exemplo, os processos de adoecimento têm uma etiologia muito clara, de origem social e eminentemente imbricada nas leis sócio-históricas a partir das quais o ser humano se desenvolve. A internalização fortalece a perspectiva de que, na psicologia histórico-cultural, deve-se olhar para a conduta humana saudável e adoecida como sua própria história, o que faz com que haja necessidade de investigação das raízes do comportamento, da conduta e da atividade humana (<xref ref-type="bibr" rid="B39">Vigotski, 2008b</xref>).</p>
				<p>Nesse fluxo de compreensão, o desenvolvimento psíquico do indivíduo histórico-cultural deve ser estudado como algo em movimento, afinal o ser humano se depara constantemente, em sua relação com a realidade, com novos elementos mediadores, dos quais se apropria, operando internalizações e conversões cada vez mais complexas, o que produz também sua personalidade. Nessa perspectiva de trabalho, a personalidade deve ser entendida como os contornos, mais ou menos fixos, que cada indivíduo produz em suas vivências e que vão diferenciá-lo de outros indivíduos com quem convive, mesmo aqueles cujas experiências são vivenciadas em uma mesma situação social de desenvolvimento.</p>
				<p>
					<xref ref-type="bibr" rid="B40">Vigotski (2010</xref>) desenvolve o tema e explica que a personalidade é produzida em uma relação ativa e dialética do ser humano com a realidade material, o que significa que o ser humano muda o mundo, e o mundo transforma o ser humano, em um movimento que não se esgota. Assim, a personalidade, na psicologia histórico-cultural, não é uma instância que alcance a maturidade em certo período do desenvolvimento, mas sim um processo que não se acaba, pois está em constante movimento. Entretanto, como bem explica <xref ref-type="bibr" rid="B8">Leontiev (1978</xref>), a personalidade é “a ponta do <italic>iceberg</italic>”; na sua base, há outros processos cuja compreensão é de fundamental importância para a Clínica Histórico-Cultural, dentre eles o conceito de atividade.</p>
				<p>A Psicologia Clínica Histórico-Cultural é uma abordagem psicológica eminentemente marxista, derivando do materialismo histórico e dialético os seus métodos de investigação e de trabalho, assim, ela pressupõe que o ser humano é ativo e que sua relação com o mundo é constituída pela cultura, de modo que essa relação ativa e dialética se dá mediante o exercício da sua atividade. De acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B7">Leontiev (2021</xref>), a atividade é o exercício de mudança e transformação que um dado indivíduo realiza sobre sua situação social de desenvolvimento, compondo sua conduta e seu comportamento. É durante a atividade que produzimos sentidos sobre o mundo e construímos a nossa personalidade.</p>
				<p>Conforme o autor, a atividade se sustenta sobre uma base dinâmico-causal de necessidades e motivos, os quais impulsionam o indivíduo em busca de satisfazê-las através de objetos, que podem ser os mais variados, desde aqueles concretos (como comida) até aqueles mais subjetivos (um emprego ou um casamento). A teia conceitual que envolve personalidade e atividade é de grande importância para a Clínica Histórico-Cultural, pois ela é o modelo histórico-cultural de compreensão da conduta e do comportamento do ser humano. Assim, a partir desses conceitos, o psicoterapeuta histórico-cultural irá pensar de que forma pode ampliar e tornar mais saudável os processos que estão na base da produção da personalidade.</p>
				<p>Cabe destacar que, apesar de a Psicologia Clínica Histórico-Cultural encontrar fundamentação desde os precursores dessa teoria, tem havido importantes avanços por parte de autores e grupos de pesquisa contemporâneos, os quais têm dado atenção a tópicos diversos da psicologia histórico-cultural na Clínica, como: processos de formação de consciência, práxis clínica, constituição do sujeito, método clínico, demandas clínicas ligadas à sexualidade e raça, dentre outros pontos que têm tornado a Clínica Histórico-Cultural mais robusta e qualificada academicamente (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Aita &amp; Facci, 2022</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B3">Clarindo, 2020</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B6">Kahhale &amp; Montreozol, 2019</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B9">Lima, 2019</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B10">Lima &amp; Oliveira, 2023</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B13">Marangoni, 2007</xref>; Oliveira et al., 2022; <xref ref-type="bibr" rid="B18">Oliveira &amp; Lima, 2024a</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B19">2024b</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B22">Silva, 2023</xref>).</p>
				<p>Encaminhando-se para o encerramento do diálogo sobre como os conceitos da psicologia histórico-cultural se expressam na prática clínica, é importante apontar que, em alguns momentos do desenvolvimento humano, é possível que o indivíduo não consiga lidar com os conflitos, não produzindo novos sentidos e significados em sua relação com o meio e não sendo capaz de transitar pelas muitas contradições resultantes das relações no capitalismo. Nessas situações, tendo em vista uma inversão na hierarquia de necessidades que sustenta a atividade, produz-se um processo de desregulação psíquica em que as funções psicológicas superiores não funcionam de forma integrada, apresentando-se com menor nível de habilitação e funcionamento, por vezes, podendo, além de se enrijecerem, desintegrarem-se (<xref ref-type="bibr" rid="B23">Silva, 2021</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B44">Zeigarnik, 1979</xref>).</p>
				<p>Nesse olhar, os processos de adoecimento devem ser estudados e vistos como resultados do desenvolvimento ontogenético do indivíduo, o que significa que a atividade adoecida, assim como qualquer outro processo de aprendizagem, também tem uma história, cuja gênese social deve ser investigada ao longo da caminhada terapêutica histórico-cultural. <xref ref-type="bibr" rid="B39">Vigotski (2008b</xref>) explica que as alterações e os distúrbios psíquicos devem ser analisados à luz do desenvolvimento humano, o qual sintetiza aspectos filogenéticos, ontogenéticos e sociogenéticos. Somente assim, o psicólogo clínico histórico-cultural conseguirá estruturar intervenções eficazes para a superação do sofrimento psíquico apresentado pelo paciente. Nesse esteio de reflexão, <xref ref-type="bibr" rid="B16">Lima e Oliveira (2023</xref>) lembram que a singularidade se expressa a partir da internalização da materialidade na qual está inserido o ser humano. Desse modo, compreende-se que a marca da personalidade saudável é a habilidade de a pessoa ser flexível, transitar da concretude para o mundo das emoções, ser capaz de reconceitualizar as situações vividas e buscar novos motivos para sua atividade no mundo, enfrentando o adoecimento.</p>
				<p>A psicologia clínica histórico-cultural não só tem seus próprios conceitos, como também é um sistema psicológico por si só, com aplicabilidade para o campo da clínica, assim como para as demais áreas do fazer psi. Entretanto, inclusive em conformidade com seus princípios marxistas, a psicologia histórico-cultural não pode ser composta apenas por elocubrações teóricas, antes deve ser feita através de uma harmoniosa relação entre teoria e prática. Dessa forma, amparando-se a partir de agora nas experiências de um atendimento clínico, passa-se à compreensão dos fundamentos práticos da psicologia clínica de Vigotski.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>Relato de Experiência: Os Fundamentos Práticos da Psicologia Clínica Histórico-Cultural</title>
				<p>O processo psicoterápico aqui apresentado, conforme já descrito, deu-se no espaço físico do Serviço de Psicologia Aplicada (SPA) de uma universidade pública do estado do Ceará. Considerando-se as diretrizes relacionadas às pesquisas com seres humanos, foram selecionadas algumas sessões conduzidas ao longo do ano em que transcorreu a psicoterapia histórico-cultural. Em um primeiro momento, serão apresentados os aspectos gerais da demanda clínica de C. Em seguida, serão sinalizadas, à luz da psicologia histórico-cultural, o raciocínio clínico e as intervenções realizadas ao longo da caminhada terapêutica histórico-cultural e de que modo foram observadas as mudanças na configuração de sua personalidade.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>A Caracterização da Demanda</title>
				<p>C. é um paciente do gênero masculino, de 23 anos de idade, autodeclarado negro e heterossexual, estudante do curso de Geografia de uma universidade pública cearense. Ele procurou o SPA para psicoterapia individual, descrevendo como queixa inicial dores na região dorsal relacionadas a momentos de intenso conflito. Apresentou também demanda articulada a autoconceito e à autoestima, o que comprometia suas relações interpessoais amorosas e de trabalho. Relatou também problemas com seu núcleo familiar, tendo em vista tensionamentos com seus irmãos e irmãs por ele ser filho adotivo.</p>
				<p>Nessa aproximação inicial, ratifica-se a compreensão de que o indivíduo na psicoterapia histórico-cultural é um ser concreto, ou seja, que se constitui nos fluxos e nos influxos históricos, os quais, de acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B20">Oliveira et al. (2022</xref>), são marcados por processos psicossociais de violação que interferem na construção da personalidade do paciente. No caso de C., aponta-se como inevitável que se entenda que as implicações do racismo e do heterocispatriarcado constituíram sua personalidade e sua conduta, contribuindo para uma expressão psíquica adoecida na relação consigo e com seus pares.</p>
				<p>Na clínica histórico-cultural, o processo de compreensão da demanda trazida se caracteriza por ir além do fenômeno em uma atitude de investigação e explicação da base dinâmica causal (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Vigotski, 2004</xref>). Nesse sentido, é comum que, no início da caminhada terapêutica histórico-cultural, invista-se em estratégias que ponham em perspectiva a história de desenvolvimento do paciente, a fim de que observemos seus processos de saúde e de doença como processo de aprendizagem. No caso de C., utilizou-se o instrumento Dinâmica do Tempo, que consiste em uma tarefa proposta pelo psicoterapeuta histórico-cultural, na qual o paciente registrar, por escrito, eventos significativos de sua vida, tanto aqueles com valor emocional positivo quanto os de valor emocional negativo (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Oliveira &amp; Bandeira, 2019</xref>).</p>
				<p>A intervenção revelou pontos importantes da dinâmica psíquica de C. no que se refere aos aspectos saudáveis e adoecidos de sua atividade. É importante lembrar que a Clínica Histórico-Cultural não é uma terapêutica com foco na doença, mas sim um processo voltado à promoção de consciência, com fins de fortalecimento de processos de transformação, desenvolvimento e autonomia (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Lima &amp; Oliveira, 2023</xref>). Assim, nas suas ações de mediação, o psicólogo clínico histórico-cultural deverá estar atento à dialética saúde-doença, buscando pelo que não está habilitado, mas também por aquilo que está preservado, pois é a partir dos comportamentos fossilizados saudáveis que serão promovidas novas generalizações de saúde.</p>
				<p>No caso de C., observou-se a preservação de algumas funções mentais superiores como a linguagem e a percepção, assim o paciente era capaz de, com certa clareza, operar sínteses, comparações e fazer reflexões sobre sua relação com o mundo (<xref ref-type="bibr" rid="B35">Vigotski, 1996</xref>b). Na Dinâmica do Tempo, C. se narra em um fluxo mais ou menos contínuo, começando pela infância, passando pela adolescência, chegando à vida adulta e, por fim, retornando à adolescência. Nesse caminho de reflexão, <xref ref-type="bibr" rid="B34">Vigotski (1999a)</xref> considera que a ontogênese humana é semelhante a um drama, constituída em um cenário, com vários personagens e marcada por elementos emocionais e cognitivos, os quais se articulam formando um todo único. O psicoterapeuta histórico-cultural, ao lançar mão de estratégias como a Dinâmica do Tempo, deverá estar atento a como cada um desses elementos se articula para produzir a história de desenvolvimento do paciente.</p>
				<p>C. relatou que, já na infância, foi submetido a cobranças e a exigências intensas por parte de sua família, apesar de nunca ter tido notas baixas na escola. Também deu destaque ao fato de ter passado por episódios de <italic>bullying</italic> devido à sua aparência e expressão de gênero, o que afetou negativamente a maneira como se percebia/percebe. Na adolescência, essa sensação de desagrado se aprofundou tendo em vista problema com acne, o que contribuiu para seu isolamento em relação a grupos. Diante da necessidade de reorganização que a vida adulta lhe trouxe, sobretudo quanto à universidade e à vida laboral, o paciente identificou melhorias na sua capacidade de comunicação e trabalho em grupo. </p>
				<p>Em uma mirada histórico-cultural, <xref ref-type="bibr" rid="B20">Oliveira et al. (2022</xref>) discutem que existe uma expectativa de que homens se comportem de forma masculina no trato social, de modo que são ensinados desde a mais tenra infância que devem ser viris em seu comportamento social de gênero. Quando isso não acontece, abre-se, ancorado na autorização social, um precedente para práticas de violência contra aquele que não corresponde às expectativas baseadas no heterocispatriarcado, o que costuma trazer consequências psicológicas negativas para a constituição subjetiva de quem sofre essa violência.</p>
				<p>Como resultado das cobranças oriundas do heterocispatriarcado e dos padrões estéticos sobre a construção de sua personalidade, C. destacou o aparecimento de sensações identificadas por ele como ansiedade, o que geralmente se manifesta em comportamentos como roer as unhas até sangrar e arrancar fios de cabelo. Nas sessões seguintes, como estratégia para regulação do paciente em situações de estresse intenso, adotou-se o Caderno da Psicoterapia. Através dele, era comum pedir para que, durante e após os momentos de desregulação emocional, o paciente escrevesse como se sentiu, nomeando as emoções e identificando os contextos e as relações promotores de estresse e ansiedade. Há evidências e discussões na psicologia histórico-cultural que apontam que pessoas negras, como C., em sua relação com o racismo, são menos oportunizadas de acessar mediadores de qualidade em seu desenvolvimento, o que necessariamente impacta em sua capacidade de regulação das emoções quando comparadas aos seus pares brancos (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Cruz, 2024</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B18">Oliveira &amp; Lima, 2024a</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B26">Silva, 2019</xref>). É nesse sentido que se justifica a construção do raciocínio clínico neste caso, pois se trata de um paciente constituído por muitos vetores psicossociais e estruturais de violência. </p>
			</sec>
			<sec>
				<title>A Relação com o Meio</title>
				<p>
					<xref ref-type="bibr" rid="B31">Vigotski (1994</xref>) esclarece que é na relação com o meio que a dinâmica das necessidades e dos motivos ganha contornos eminentemente diferentes, uma vez que se coloca na dinâmica psíquica do indivíduo a necessidade de reorganização e reestruturação da atividade. Como pode ser percebido, a queixa inicial do paciente se mostrou bastante relacionada aos recursos criados por ele para lidar com os elementos estressores e possíveis desorganizadores encontrados na relação com o meio.</p>
				<p>Conforme já mencionado, C. é filho adotivo. Em seu núcleo familiar, tal fator gera tensões em sua relação com seus irmãos, todos mais velhos, pois eles lhe atribuem a maior parte das responsabilidades para com seus pais já idosos. De acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B21">Schucman (2010</xref>), a lógica do racismo e da violência racial se operacionaliza em todo o tecido social, o que inclui as práticas institucionalizadas que nele se operam, tais como a adoção. Como confirmação dessa compreensão, lembrando-lhe do seu lugar de adotivo, os irmãos e irmãs delegam os cuidados da mãe, com quadro de Alzheimer. Nesse aspecto, ele relata emoções contraditórias em sua vivência, pois ao mesmo tempo em que sente o dever de cuidar dos pais, não acha justo tomar conta da maior parte dessas responsabilidades. Nesse sentido, amparada em Vigotski, <xref ref-type="bibr" rid="B29">Toassa (2009</xref>) descreve que as emoções são desenvolvidas também de forma concreta, o que significa que, a depender da situação social de desenvolvimento em que uma dada pessoa está inserida, suas emoções também se modificarão. No caso de C., as contradições entre “amar os pais” e “ser obrigado a desempenhar certos papéis familiares” produziam desconforto e sofrimento psíquico.</p>
				<p>Com o objetivo de investigar a maneira como os afetos e as emoções estavam interferindo na vida psíquica do paciente, conduziu-se junto a ele uma atividade chamada Cenário de Vida, também de orientação histórico-cultural. Trata-se de um recurso que objetiva perceber como se configura a relação do paciente com o meio, identificando as redes de relação e de conexão entre o indivíduo e os elementos trazidos por ele e/ou entre os próprios elementos presentes em seu Cenário de Vida (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Oliveira &amp; Bandeira, 2019</xref>). Na ocasião da atividade, C. demonstrou sua capacidade de reflexão sobre como se sentia em relação a seus familiares, reconhecendo a necessidade de serem repensados os limites entre si e o outro, definindo novas fronteiras em sua relação com seus pares. </p>
				<p>As atividades de mediação na Clínica Histórico-Cultural têm um papel importante na atuação para promoção e fortalecimento das zonas de desenvolvimento e aprendizagem do indivíduo. Na perspectiva vigotskiana, elas são entendidas como instrumentos e signos que atuam no sentido de mobilizar aspectos enrijecidos e não conscientes do psiquismo, desde funções psicológicas menos habilitadas até a relação entre a cognição e o afeto na produção da consciência. Com isso, pode-se afirmar que o psicólogo clínico histórico-cultural tem o papel de organizar mediações que promovam saúde, isto é, que tornem o paciente capaz de produzir novos sentidos, alterando sua atividade e produção da personalidade.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>Mudanças nas Configurações da Personalidade</title>
				<p>Com o decorrer da psicoterapia histórico-cultural, novos arranjos de personalidade começaram a tomar forma. Avanços foram percebidos, sobretudo no que se refere ao nível de consciência e de reflexão do paciente sobre si, construindo novas maneiras de se narrar e de se colocar na relação com o outro. Também houve mudanças significativas no que diz respeito ao estabelecimento de limites e demarcações na sua relação com os outros, tanto no âmbito universitário quanto em seu núcleo familiar. Deve-se lembrar que a interpessoalidade, alinhada aos aspectos sociogenéticos, é uma das principais fontes do processo de desenvolvimento (<xref ref-type="bibr" rid="B43">Vigotski, 1996</xref>). Assim, pacientes como C., cujas vivências são marcadas pelo olhar despotencializador do outro, tendem a se desenvolver de forma a não se agradarem de si mesmos, além de, em linhas gerais, acreditarem não merecer afeto ou respeito.</p>
				<p>Inicialmente, a atuação se deu sobre os sintomas mais urgentes manifestados por C., uma vez que se entende, na perspectiva histórico-cultural, a necessidade de algumas condições básicas de organização e sistematização da vida psíquica para que o paciente consiga avançar rumo à resolução de demandas mais complexas (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Oliveira, 2023</xref>). No caso acompanhado, a avaliação é de que foram necessárias por volta de 11 sessões, aproximadamente três meses de psicoterapia, para que a síndrome sintomática de C. se enfraquecesse. É importante apontar que, além de termos com o uso de instrumentos histórico-culturais, como Dinâmica do Tempo e Cenário de Vida, também foram necessárias outras intervenções que auxiliassem na regulação mais imediata de crises, como técnicas de respiração e neurofeedback, auxílio na reconstrução de uma rotina em que o paciente conseguisse fazer atividade física, além de instruções sobre organização de tempo com foco em um melhor aproveitamento de suas atividades laborais e acadêmicas. </p>
				<p>A partir das novas construções, e com o vínculo entre psicoterapeuta histórico-cultural e paciente mais fortalecido, outros aspectos foram sendo descortinados. Por exemplo, C. trouxe a relação que mantinha com sua namorada. Havia, conforme relatado por ele, duas problemáticas centrais nessa relação: a) dificuldade em permanecer com alguém que demonstrava baixa volição para construir uma vida profissional e pessoal próprias, de maneira que C. se negava a “namorar consigo mesmo do passado” (sic); e b) dificuldade para manter relações sexuais com sua namorada, marcada por sentimentos de vergonha em relação ao próprio corpo durante a atividade sexual.</p>
				<p>Com relação ao sofrimento do paciente, é importante lembrar que qualquer demanda clínica deve ser vista de forma psicossocial, isto é, a sua origem deve ser remetida ao campo das relações sociais, micro ou macro. <xref ref-type="bibr" rid="B12">Lima, Anauate e Oliveira (2021</xref>) lembram que a construção da personalidade em Vigotski é um processo que se dá na dialética de forma externa e interna, isto é, na relação que o ser humano estabelece singularmente com a história das relações sociais que desempenha e nas quais está inserido. Assim, nesse fluxo de compreensão, é falho não compreender os processos de personalidade de C. desarticulados das pressões e dos impactos psicossociais que vivencia seja como homem, pessoa preta ou ainda como alguém com uma performance de gênero não correspondente ao heterocispatriarcado.</p>
				<p>Quanto à primeira questão, C. relatou que, durante sua adolescência, era alguém bastante introspectivo e isolado, o que empobrecia a qualidade das suas relações pessoais. Para ele, tal tendência ao isolamento se devia a uma baixa autoestima e a um conceito empobrecido de si. Em meio a tensões e cobranças em sua vida escolar, ele tinha baixa volição para atuar nas suas relações sociais, preferindo arranjos de vida em que não precisava estar com o outro, deixando o contato para momentos estritamente necessários. Fazendo uma avaliação dos prejuízos tidos durante esse período de sua vida, o paciente compara a situação atual de sua namorada à sua situação passada.</p>
				<p>Quanto à segunda questão, C. relatou que, no decorrer de quase um ano de relacionamento, houve tentativas de estabelecer relações sexuais com sua namorada; todas elas, contudo, fracassadas, tendo em vista sensações e emoções descritas por ele como medo e nervosismo. O paciente relatou ter interesse em manter relações sexuais com sua namorada, porém afirmava um interesse bem maior por parte dela, cobrando-lhe que acontecesse. Nesse cenário, C. apontou como um fator agravador de sua intimidade sexual com a namorada o fato de não terem um espaço privado para tal. </p>
				<p>Tendo em vista, nesse momento da caminhada terapêutica, que desafios ligados à sexualidade estavam encabeçando dificuldades importantes na dinâmica de vida de C., propôs novamente a atividade Dinâmica do Tempo, só que, dessa vez, com foco em explorar as vivências de desenvolvimento sexual. O paciente apresentou bastante resistência no início, mas concordou em realizar a atividade caso tivesse suporte para fazê-lo, o que foi ofertado a C. Durante a atividade de mediação, o paciente acabou por revelar novos elementos sobre os quais se interviria nas próximas sessões, a saber: uma vivência de abuso sexual e experiências homossexuais durante a adolescência. </p>
				<p>É notório que o processo de construção da personalidade de C. era marcado por uma desconexão entre elementos cognitivos e aspectos emocionais, dificuldade esta que precisou ser compensada através de recursos de mediação com foco em reorganizar as funções psicológicas superiores, levantar mais informações sobre a dinâmica de sua atividade, além de lhe fornece instrumentos para autorregulação em momentos mais agudos de crise. Como indica <xref ref-type="bibr" rid="B39">Vigotski (2008b</xref>), na psicologia histórico-cultural, deve-se buscar uma relação harmoniosa entre cognição e afeto, pois se tratam de elementos que compõe uma unidade, interdependentes para que seu desempenho e funcionamento sejam ótimos.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>Intervenção na Zona de Desenvolvimento Sexual</title>
				<p>Como já se viu, L. S. Vigotski desenvolveu um sistema psicológico que propõe uma nova forma de compreensão do psiquismo humano, articulando-o à análise histórica de formação dos processos mentais. Entre os diversos temas abordados em sua teoria, destacam-se a aprendizagem e o desenvolvimento psíquico humano. Em matéria das relações entre aprendizagem e desenvolvimento psíquico, o psicólogo soviético faz alguns esclarecimentos, classificando as experiências de aprendizagens entre aquilo que já foi internalizado e aquilo que se pode conquistar com auxílio de mediação. Sobre as experiências de aprendizagem já conquistadas, <xref ref-type="bibr" rid="B32">Vigotski (1996)</xref> dá o nome de nível de desenvolvimento real, ao passo que ao conjunto de recursos psíquicos que ainda podem ser aprendidos, ele nomeou de nível de desenvolvimento potencial.</p>
				<p>Já se comentou também que o paciente chega ao processo terapêutico histórico-cultural, tanto com aprendizagens saudáveis como com aprendizagens adoecidas, as quais devem ser levantadas e analisadas. Entretanto, a psicoterapia histórico-cultural não para por aí, antes ela avança na organização de mediações clínicas que permitam indivíduo sair de um nível de desenvolvimento real marcado por desregulação psíquica para um nível de desenvolvimento potencial cuja marca será a personalidade saudável. No caso de C., algumas experiências traumáticas, como o abuso sexual, estiveram na base de seu processo de desenvolvimento, impactando profundamente suas aprendizagens posteriores sobre autoconceito, família e relacionamentos amorosos. </p>
				<p>Nesse cenário, a psicoterapia histórico-cultural atuou em suas zonas de desenvolvimento com atividades mediadoras que potencializassem a consciência sobre sua vida sexual. Por exemplo, no caso do uso da Dinâmica do Tempo com foco na vida sexual de C., esse manejo revelou outras experiências sexuais para além do abuso, como: atividade sexual pontual com uma garota no Ensino Médio; manutenção de atividade sexual com um primo por três anos; e envolvimento sexual com um garoto na escola. Nesse momento, o paciente relatou que aquela era a primeira vez que falava sobre sua vida sexual com profundidade e era a primeira vez que estava elaborando sobre o abuso e suas experiências homossexuais. Ou seja, esses conteúdos não faziam parte plenamente da sua consciência, não sendo integrados às suas funções psicológicas superiores. Além disso, outros instrumentos de intervenção foram utilizados para mobilizar a zona de desenvolvimento sexual do paciente.</p>
				<p>Com o objetivo de perceber como as experiências de aprendizagem sexual afetaram a forma como seus conceitos se desenvolveram, propôs-se uma nova atividade mediadora: os Cartões-Conceito. <xref ref-type="bibr" rid="B17">Oliveira e Bandeira (2019</xref>) explicam que se trata de uma técnica cujo foco é analisar como a função psicológica, na formação de conceitos, desenvolveu-se ao longo da ontogênese do paciente. Nessa intervenção, o psicoterapeuta histórico-cultural oferta um conjunto de cartões com palavras inscritas, de modo que essas palavras pudessem triangular com algum problema clínico vivido pelo paciente. No caso de C., os cartões traziam as seguintes palavras: heterossexualidade, homossexualidade, bissexualidade, assexualidade, monogamia, poligamia - todas elas referentes à dinâmica de sexualidade de C.</p>
				<p>O intuito é que o psicólogo clínico histórico-cultural explore os significados e os sentidos atribuídos pelo paciente a cada uma das palavras contidas nos cartões. Retornando à C., após o exercício da atividade, o paciente percebeu que, apesar de se sentir mais identificado com uma performance sexual ligada à heterossexualidade monogâmica, havia possibilidades futuras de construir relações fora desse padrão. A intervenção indicou que a organização de mediações clínico-terapêuticas pode auxiliar na reconstrução de identidades sexuais reificadas e influenciadas pelas determinações do cishetropatriarcado.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>A Mudança na Configuração da Personalidade</title>
				<p>Após a identificação das raízes genéticas do comportamento de C. e as intervenções nas suas zonas de desenvolvimento, os sintomas iniciais começaram a se dissolver. Os episódios de somatização passaram a acontecer em raras ocasiões, diferente do início do processo terapêutico, em que as crises aconteciam, pelo menos, uma vez por semana. Além disso, na sua relação com a sua família e com a universidade, ele passou a ter posicionamentos mais ativos, passando a se implicar nas decisões que o envolviam, o que indica mudanças significativas na dinâmica de sua personalidade e de sua atividade.</p>
				<p>Retomando a discussão sobre personalidade, deve-se compreender sua construção como um processo contínuo e constituído, tanto pelas relações interpessoais de aprendizagem como por fatores socioculturais mais amplos. Apesar de a personalidade apresentar zonas mais rígidas de mudança, elas não são imutáveis, necessitando, para que haja transformação de configurações adoecidas em saudáveis, de mediações intencionalmente organizadas a fim de ampliar o repertório de atividade do paciente e seus processos de produção de sentido (<xref ref-type="bibr" rid="B42">Vigotski, 2024</xref>).</p>
				<p>Quanto aos novos posicionamentos indicadores de mudança na configuração subjetiva de C., aponta-se como exemplo uma reunião marcada por ele com seus familiares em que expôs como se sentia na relação com eles e qual, de fato, deveria ser o seu papel na dinâmica familiar. Ademais, o paciente fez uma proposta de nova organização familiar, dividindo as atividades entre todos os irmãos. Evidencia-se, com isso, que, a partir da apropriação de novos signos e instrumentos, houve uma maior consciência da realidade e de seu papel na mudança dela, tornando-lhe mais capaz de transformar suas relações.</p>
				<p>Nessa perspectiva clínica de trabalho, o paciente não deve ser pensado como um sujeito estratificado, mas sim como a síntese entre a biologia, os processos de aprendizagem e as determinações do social, além de que deve ser assumida a existência e a necessidade do funcionamento unificado entre a cognição e o afeto (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Vigotski, 2004</xref>). No caso de C., é possível observar um estado de cisão da vida psíquica, de modo que os elementos cognitivos e afetivos se encontravam separados. Com relação a esse tema, <xref ref-type="bibr" rid="B40">Vigotski (2010)</xref> destaca o lugar de importância que ocupa a vivência para se pensar o desenvolvimento da personalidade humana. O autor também destaca que as vivências são basicamente compostas por funções afetivas, como emoções, imaginação e criatividade. Por isso, desempenham grande parte do processo de formação de sentidos que se dá durante o exercício da atividade - a qual, por sua vez, é a base para a construção da personalidade. Como pode ser observado nas intervenções descritas, a Psicologia Clínica Histórico-Cultural busca a integração entre a cognição e o afeto na dinâmica psicológica do indivíduo, a fim de que sua consciência, sua atividade e seus processos psicológicos superiores sejam fortalecidos.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>O Processo de Alta</title>
				<p>Na Clínica Histórico-Cultural, o esvaziamento de demandas está relacionado ao desenvolvimento da capacidade de se gerir com autonomia. Esse recurso psíquico está intimamente relacionado com o quanto a pessoa consegue se apropriar de elementos mediadores suficientes para conseguir desenvolver uma atividade articulada com o meio. Isso porque os elementos mediadores auxiliam o indivíduo a viver, a atribuir novos sentidos e significados, a mudar sua conduta e a avaliar a realidade etc. (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Lima &amp; Oliveira, 2023</xref>).</p>
				<p>O processo de alta de C. ocorreu após um ano de psicoterapia histórico-cultural e foi organizado em três sessões, de forma participativa, convocando o paciente a reflexões, análises e avaliações. Assim, à medida que se percebeu que houve esvaziamento de demandas e maior capacidade de enfrentamento dos elementos estressores, sinalizou-se para C. a possibilidade de alta, com a qual o paciente concordou. Dessa forma, levantou-se, junto de C., quais elementos, nesse último momento da caminhada terapêutica, mereciam atenção para serem incorporados nos diálogos das sessões de alta.</p>
				<p>O paciente destacou algumas questões que gostaria que fizessem parte das intervenções finais de seu processo psicoterápico, como angústia relacionadas ao futuro e preocupações sobre com quem poderia contar após o fim da psicoterapia. Para que essas necessidades fossem atendidas, foram utilizados alguns recursos clínicos histórico-culturais. Como recursos para o trabalho nas sessões de alta, foram utilizados, como a Complementação de Frases e o Cenário de Vida. Enquanto o Cenário de Vida foi mediado, com fim de perceber os novos elementos saudáveis na situação social de desenvolvimento do paciente e colocá-lo em contato sistemático com eles, a Complementação de Frases teve o propósito de explorar as principais angústias relacionadas ao futuro, em formato de frases incompletas. Por fim, destacou-se que, caso o paciente tornasse a ter problemas de ordem parecida ou completamente diferentes no futuro, poderia e deveria procurar novamente pelas mediações da psicoterapia histórico-cultural.</p>
				<p>A Psicologia Clínica Histórico-Cultural é um processo dialético, ou seja, caracteriza-se pelo constante movimento de forças contraditórias que se expressam na intrincada relação do humano com a materialidade histórica. Assim, em termos histórico-culturais, a promoção de desenvolvimento, transformação e autonomia na Clínica Histórico-Cultural é marcada por processos psicossociais de nível estrutural e daqueles de nível interpessoal. Logo, superando uma visão tradicional de dialética, o enfoque histórico-cultural na clínica se sedimenta sobre a materialidade histórica.</p>
			</sec>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Considerações Finais</title>
			<p>A psicologia histórico-cultural de Lev Vigotski é um sistema complexo e completo em psicologia e possui aplicabilidade nas mais variadas áreas de atuação psicológica. Assim, é um erro ingênuo subsumir a psicologia vigotskiana a campos restritos do saber psicológico. Percebeu-se que o relato de experiência contribuiu para uma melhor elucidação da relação entre teoria e prática na Clínica histórico-cultural. Quanto ao caso clínico conduzido, notou-se que a queixa do paciente evoluiu no sentido de sair da somatização de mediadores estressores para a restruturação de uma personalidade saudável, capaz de sintetizar novos processos de aprendizagem.</p>
			<p>Na psicologia clínica histórico-cultural, o cenário terapêutico se estrutura como <italic>espaço</italic> dialógico de aprendizagens que integram cognição e afeto. Além disso, aponta-se para o fato de que a intervenção Clínica Histórico-Cultural se dá mediante um raciocínio clínico que parte da investigação da história e do desenvolvimento dos processos de adoecimento psíquico para a seleção das técnicas verbais e dos instrumentos que auxiliarão na ampliação das zonas de desenvolvimento despotencializadas do paciente. Aponta-se, ainda, a necessidade de maiores produções no campo clínico histórico-cultural, privilegiando a relação entre teoria e prática e a investigação sobre estratégias de intervenção específicas fundamentadas nos pressupostos teóricos e metodológicos da psicologia histórico-cultural. Por fim, destaca-se a importância dos estudos e das pesquisas desenvolvidas no Laboratório de Estudos da Subjetividade e Saúde Mental da Universidade Estadual do Ceará para o fortalecimento da psicologia clínica histórico-cultural no Brasil.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<ref-list>
			<title>Referências</title>
			<ref id="B1">
				<mixed-citation>Aita, E. B., &amp; Facci, M. G. D. (2022). Psicoterapia e o processo de formação de consciência: Uma análise histórico-cultural.<italic>Revista Subjetividades</italic>,<italic>22</italic>(2), 1-13. https://doi.org/10.5020/23590777.rs.v22i2.e12328</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>Aita</surname>
							<given-names>E. B.</given-names>
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            <article-id pub-id-type="doi">10.5020/23590777.rs.v25i2.e13122</article-id>
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					<subject>Experience Report</subject>
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				<article-title>The Theoretical and Practical Foundations of L. S. Vygotsky’s Historical-Cultural Clinical Psychology</article-title>
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				<institution content-type="original">BA in Psychology from State University of Ceará (UECE). Specialist in Historical-Cultural Clinical Psychology from Faculty of Quixeramobim. Specialist in Human Sexuality from the Child Behavior Institute, Miami. MA in Psychology from the Graduate Program in Psychology at UFC. PhD student in Psychology at the Graduate Program in Psychology at UFC.</institution>
				<institution content-type="orgdiv1">PhD student in Psychology at the Graduate Program in Psychology</institution>
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				<institution content-type="original">BA in Psychology from UFC (1989), MA in Education from UFC (1995), PhD in Education from the University of Santiago de Compostela, Spain (2004), and postdoctoral training in Education at Federal University of Rio Grande do Norte. Currently an Associate Professor at UECE, working in the areas of Educational Psychology and Clinical Psychology, where she also serves as a supervisor. She also teaches in the Graduate Program in Education at UECE.</institution>
				<institution content-type="orgname">UECE</institution>
				<country country="BR">Brazil</country>
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			<abstract>
				<title>Abstract</title>
				<p>Developed by L. S. Vygotsky, historical-cultural psychology is a complex theoretical framework that addresses contemporary clinical needs by conceptualizing social relations and personality formation as historically mediated processes. This study is qualitative in nature and adopts an experience report design. Its objective was to illustrate the theoretical and practical foundations of historical-cultural clinical psychology through the case of a patient treated at the Applied Psychology Service of a public university in the state of Ceará, Brazil, during a course of historical-cultural-based psychotherapy. All ethical procedures were observed. Given its qualitative approach, the study allowed for detailed description of the object of investigation, the procedures employed, and the outcomes observed. Based on the analyzed case and the psychologist’s interventions, changes were identified in the patient’s personality dynamics as well as in their way of life, understood as results of historical-cultural psychotherapeutic mediation. Thus, this article contributes to the limited body of clinical studies within historical-cultural psychology, adding value to the field and encouraging further research that integrates theory and practice within Vygotskian-Marxist perspectives.</p>
			</abstract>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>historical-cultural clinical psychology</kwd>
				<kwd>experience report</kwd>
				<kwd>L. S. Vygotsky</kwd>
			</kwd-group>
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		<body>
			<p>Contemporaneity imposes new horizons and new challenges for the constitution of social relations and, consequently, for the formation of human personality (<xref ref-type="bibr" rid="B24">Silva, 2009</xref>). <xref ref-type="bibr" rid="B15">Mészáros (2011</xref>) argues that, in light of the increasing complexity of capital in its new forms, social relations have become more alienating, contributing to processes of human suffering and illness. For <xref ref-type="bibr" rid="B24">Silva (2009)</xref>, reflecting on new conditions for personality formation means reflecting on a new individual in contemporaneity, in which notions such as intersubjectivity, culture, and historicity must be reconsidered.</p>
			<p>In view of the contemporary challenges related to the formation of human personality, this article discusses the theoretical and practical foundations of historical-cultural clinical psychology - a clinical approach that, due to its epistemological and methodological bases, critically addresses the reverberations of contemporaneity in the production of human personality. Drawing also on the concept of personality developed by Vygotsky and other authors - a concept that will be explained in the following sections - we advance toward an understanding of the development of subjectivity from a Vygotskian perspective, engaging specifically with the clinical field.</p>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B12">Lima et al. (2021</xref>) argue that historical-cultural psychology constitutes a complex and comprehensive psychological system. This implies that, within this theoretical framework, one finds the concepts and strategies necessary to construct a historical-cultural clinical practice. Despite this, historical-cultural psychology was silenced and insufficiently studied in Brazil for a long period. As a result, it was long believed that Vygotsky had no specific contributions to clinical psychology, and this field was relegated to the abstractionist and mechanistic traditions of bourgeois psychologies.</p>
			<p>Vygotsky, who was also a clinician, developed studies in clinical pedology and defectology, in which he investigated the development of children with developmental difficulties (<xref ref-type="bibr" rid="B33">Vygotsky, 1997</xref>). In addition, it is important to note that he devoted himself to the study of other clinical topics, such as schizophrenia, aphasia, and hysteria (<xref ref-type="bibr" rid="B25">Silva &amp; Tuleski, 2015</xref>). From this perspective, historical-cultural psychology is defended here as a theoretical system in psychology with concrete clinical applicability. Its central objective is the promotion of consciousness in its broad, Vygotskian sense and, consequently, the restructuring of personality. It should be recalled that <xref ref-type="bibr" rid="B37">Vygotsky (2006)</xref> defined his theory as one concerned with the processes of consciousness, which he understood as the defining feature that distinguishes human beings from other species.</p>
			<p>Some studies have already proposed a historical-cultural clinical understanding; however, there remains a pressing need for further clinical research grounded in a rigorous articulation between theoretical and practical aspects (praxis) of the approach. There is an urgent need for contemporary studies to demonstrate how a Vygotskian psychotherapeutic process unfolds in practice, highlighting clinical interventions and management strategies aligned with its complex theoretical and methodological framework (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Aita &amp; Facci, 2022</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B3">Clarindo, 2020</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B9">Lima, 2019</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B10">Lima &amp; Oliveira, 2023</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B11">2025</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B13">Marangoni, 2007</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B22">Silva, 2023</xref>).</p>
			<p>To elucidate the theoretical and practical foundations of historical-cultural clinical psychology in relation to contemporary processes of human personality formation, this study adopts an experience report design based on the psychotherapeutic follow-up of a patient treated at a university-based clinic of a public institution in the state of Ceará, Brazil. For greater methodological clarity, the text is organized into three sections: i) historical connections of historical-cultural clinical psychology; ii) theoretical foundations of historical-cultural clinical psychology; and iii) experience report: the practical foundations of historical-cultural clinical psychology. The following section also details the methodological pathways adopted, the procedures employed, and the ethical considerations involved in the development of the reported clinical experience.</p>
			<sec sec-type="methods">
				<title>Method</title>
				<p>The present study falls within the scope of qualitative research in psychology, as it focuses on the psychotherapeutic process itself and provides detailed descriptions of the resources employed and the outcomes observed. An experience report design was adopted, as it allows for the systematic documentation of the researcher’s experiences and perceptions regarding the object of study; in this case, a historical-cultural-based psychotherapeutic process conducted at a public university in the state of Ceará, Brazil. This approach encompasses the therapeutic relationship, the intervention procedures adopted, and the assessment of the patient’s development (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Casarin &amp; Porto, 2021</xref>).</p>
				<p>The experience report was based on the investigation of a patient who underwent psychotherapy over the course of 1 year at the applied psychology service (APS) of a public university in Ceará, within the context of a clinical internship course. The analyses conducted in this study were documentary in nature. The sources of analysis included clinical reports, session summaries, patient intake forms, and other documents related to the patient’s records within the APS.</p>
				<p>Regarding the clinical case, the participant was a 23-year-old male who self-identified as Black and heterosexual. The patient was followed for 1 year, totaling 26 psychotherapy sessions, each lasting approximately 50 minutes. For ethical and confidentiality reasons, the patient is identified in this study by the pseudonym C.O. Notably, the patient attended sessions regularly and demonstrated a high level of commitment to the psychotherapeutic process. All interventions and clinical conduct were carried out in accordance with standards for the protection of the patient’s health and integrity, as established by <xref ref-type="bibr" rid="B27">Resolution No. 466 (2012)</xref> of the Brazilian National Health Council. In accordance with <xref ref-type="bibr" rid="B28">Resolution No. 510 (2016)</xref>, clinical information previously authorized by the patient for use may constitute research material. In the present case, the relevant consent form was signed and duly authorized as part of the procedures for psychotherapeutic care at the APS.</p>
				<sec>
					<title>Historical Links of Historical-Cultural Clinical Psychology</title>
					<p>Historical-cultural psychology is a psychological current developed in Soviet Russia by L. S. Vygotsky and collaborators such as A. R. Luria and A. N. Leontiev. This working group, led by Vygotsky and known as the Troika, exerted substantial theoretical influence. All those associated with it adopted Vygotsky’s theoretical leadership, applying his conceptual framework and postulates within their own research (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Martins et al., 2016</xref>). This psychological perspective emerged from Vygotsky’s dissatisfaction with the hegemonic theoretical models of his time, which were oriented toward mechanistic and abstract explanations-understood here as bourgeois psychologies. Vygotsky developed his theory explicitly in response to this issue in <italic>The Historical Meaning of the Crisis in Psychology: A Methodological Investigation</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Vygotsky, 2004</xref>).</p>
					<p>Within this context, Vygotsky’s psychology emerged as a response to the demands posed by the establishment of the unified Soviet state, namely, the construction of a non-capitalist social model. This project required theoretical foundations capable of conceptualizing human beings and psychological processes in ways consistent with this new social order (<xref ref-type="bibr" rid="B30">Tuleski, 2008</xref>). Accordingly, Vygotsky developed a complex and comprehensive theoretical system in psychology that cannot be reduced to a single field of application, as often occurs when historical-cultural psychology is associated exclusively with education.</p>
					<p>Notably, Vygotsky engaged in clinical intervention activities according to the standards of his time, focusing on issues related to pedology and clinical psychopathology, as evidenced in several of his studies (<xref ref-type="bibr" rid="B33">Vygotsky, 1997</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B38">2008a</xref>). However, as noted by <xref ref-type="bibr" rid="B30">Tuleski (2008</xref>), when historical-cultural psychology, particularly Vygotsky’s work, reached Western contexts, it encountered significant barriers, including resistance to his texts. This resistance was largely due to accusations of communism. During the 1960s and 1970s, Latin America was under dictatorial regimes opposed to the political ideas conveyed by his psychology. Moreover, translations of his works often removed references to Marxism, distorting both his writings and their original meanings.</p>
					<p>As a result, translations more faithful to the original Russian texts, as well as works in other languages, particularly those addressing the practice of historical-cultural clinical psychology, only became available in Brazil relatively recently. These works enabled the appropriation of central themes relevant to contemporary historical-cultural clinical practice, such as clinical pedology, neuropsychology, the investigation of psychiatric disorders, and other clinically relevant topics (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Lima &amp; Oliveira, 2023</xref>). Notably, over the past decade, there has been significant growth in research groups across Brazil focusing on more clinical themes within Vygotsky’s psychology, with particular emphasis on initiatives developed by research groups in Ceará, such as the Laboratory for the Study of Subjectivity and Mental Health (LADES for short, in Portuguese). In this context, the recent publication of <xref ref-type="bibr" rid="B41">Vygotsky’s notebooks (2022)</xref> deserves attention. This compilation of the author’s notes corroborates the existence of historical-cultural clinical praxis, advancing the description, interpretation, and explanation of the psychological challenges faced by individuals in contemporaneity.</p>
				</sec>
				<sec>
					<title>Theoretical Foundations of Historical-Cultural Clinical Psychology</title>
					<p>Conceptualizing historical-cultural clinical psychology is a challenge, both due to the complexity of Vygotsky’s theory, with its interdependent and intertwined concepts, and because, unlike other approaches, its clinical practice was not systematized in a formal manner. Despite this, advances in the field have defined historical-cultural clinical psychology as a therapeutic approach oriented toward development, transformation, and the production of autonomy. This occurs through the construction of individualized therapeutic projects that are contextualized to the patient’s life dynamics, their social situation of development, and the psychosocial elements that underpin psychological development (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Lima &amp; Oliveira, 2025</xref>).</p>
					<p>Several concepts guide the psychologist’s perspective in historical-cultural practice, with mediation being the most fundamental. To understand this concept, it is essential to recall that Vygotsky developed a social theory of the genesis of human personality and behavior. Regarding the genesis and development of psychological processes, <xref ref-type="bibr" rid="B43">Vygotsky and Luria (1996)</xref> explain that the psyche initially develops under the coordination of biological laws. As individuals become immersed in culture, however, these laws give way, through incorporation, to cultural, complex, and specifically human forms of psychological functioning.</p>
					<p>Mediation should be understood as the interposition of an intermediate link in the human being’s relationship with the world. Human behavior was once determined by what was inscribed in species history, but with the advent of culture and language, human beings began to symbolize the world and become conscious of their relationships (<xref ref-type="bibr" rid="B39">Vygotsky, 2008b</xref>). This idea is fundamental to historical-cultural clinical psychology, as the therapeutic relationship is a direct consequence of the symbolic space shared by human beings, whose development has been crossed and qualitatively transformed by culture.</p>
					<p>Within a mediated relationship with the world, individuals construct mental representations of reality, involving available mediational elements, interpersonal relationships, and life contexts. What individuals produce in their relationship with the world is made possible by specific mental processes referred to by <xref ref-type="bibr" rid="B31">Vygotsky (1994)</xref> as higher psychological functions, another core concept for clinical practice within the historical-cultural perspective. According to the author, psychological processes constitute the basis for mental representation and may be classified as lower, of a more biological order, or higher, of a more cultural order. The human psyche is composed of multiple psychological processes, including thinking, language, perception, attention, memory, concept formation, imagination, emotions, and creativity.</p>
					<p>This concept is particularly relevant because, within historical-cultural clinical psychology, processes of psychological suffering are analyzed through alterations in higher psychological functions. The role of the historical-cultural clinical psychologist, therefore, is to design interventions that mobilize specific processes, enabling mental functions to be activated, operate in an interfunctional manner, and support a more conscious and autonomous engagement with the challenges encountered throughout psychological development.</p>
					<p>Advancing in the understanding of how historical-cultural concepts are articulated in clinical practice, <xref ref-type="bibr" rid="B31">Vygotsky (1994)</xref> posits that personality is constituted through an internal-external dialectical movement, such that everything belonging to subjective life was once part of social relations. In other words, psychological processes are first interpsychological and later become intrapsychological. Vygotsky refers to this process of appropriation and transformation of mediational elements present in concrete and symbolic reality as internalization.</p>
					<p>From a historical-cultural perspective, the concept of internalization demonstrates that all learning processes experienced by patients occur in a psychosocial manner. Within this clinical approach, processes of psychological suffering have a clearly defined social etiology, deeply embedded in the sociohistorical laws through which human beings develop. Internalization reinforces the view that, in historical-cultural psychology, both healthy and disordered human behavior must be understood as part of the individual’s own history, requiring an investigation of the roots of behavior, conduct, and human activity (<xref ref-type="bibr" rid="B39">Vygotsky, 2008b</xref>).</p>
					<p>In this framework, psychological development must be studied as a dynamic process, as individuals constantly encounter new mediational elements in their relationship with reality. Through the appropriation of these elements, increasingly complex internalizations and transformations occur, contributing to personality formation. From this perspective, personality can be understood as the relatively stable contours produced by each individual through lived experiences, distinguishing them from others, even those who share the same social situation of development.</p>
					<p>
						<xref ref-type="bibr" rid="B40">Vygotsky (2010)</xref> further elaborates that personality is produced through an active and dialectical relationship between human beings and material reality. This means that human beings transform the world, and the world, in turn, transforms human beings in an ongoing process. Consequently, in historical-cultural psychology, personality is not a fixed instance that reaches maturity at a specific developmental stage, but rather an ongoing process in constant movement. As <xref ref-type="bibr" rid="B8">Leontiev (1978</xref>) aptly explains, personality represents “the tip of the iceberg”; beneath it lie other processes of fundamental importance for historical-cultural clinical psychology, among which the concept of activity stands out.</p>
					<p>Historical-Cultural Clinical Psychology is an explicitly Marxist psychological approach, deriving its investigative and practical methods from historical and dialectical materialism. It assumes that human beings are active agents and that their relationship with the world is culturally constituted, unfolding through activity. According to <xref ref-type="bibr" rid="B7">Leontiev (2021</xref>), activity consists of the transformative actions through which individuals modify their social situation of development, shaping behavior and conduct. It is through activity that individuals produce meanings about the world and construct their personalities.</p>
					<p>Activity is grounded in a dynamic-causal system of needs and motives, which drive individuals to seek satisfaction through objects that may range from concrete (e.g., food) to more subjective (e.g., employment or marriage). This conceptual network linking personality and activity is central to historical-cultural clinical psychology, as it provides the historical-cultural model for understanding human conduct and behavior. Based on these concepts, the historical-cultural psychotherapist reflects on how to expand and promote healthier processes underlying personality formation.</p>
					<p>Although historical-cultural clinical psychology finds its foundations in the pioneers of this theoretical tradition, significant advances have been made by contemporary authors and research groups. These contributions have addressed diverse clinical topics, including processes of consciousness formation, clinical praxis, subject constitution, clinical method, and clinical demands related to sexuality and race, among others. Such developments have contributed to strengthening and academically consolidating Historical-Cultural Clinical Psychology (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Aita &amp; Facci, 2022</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B3">Clarindo, 2020</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B6">Kahhale &amp; Montreozol, 2019</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B9">Lima, 2019</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B10">Lima &amp; Oliveira, 2023</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B13">Marangoni, 2007</xref>; Oliveira et al., 2022; <xref ref-type="bibr" rid="B18">Oliveira &amp; Lima, 2024a</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B19">2024b</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B22">Silva, 2023</xref>).</p>
					<p>As this discussion on the expression of historical-cultural concepts in clinical practice draws to a close, it is important to note that, at certain moments in human development, individuals may be unable to cope with conflicts, failing to generate new meanings in their relationship with the environment and to navigate the contradictions inherent in capitalist social relations. In such situations, an inversion occurs in the hierarchy of needs that sustain activity, leading to a process of psychological dysregulation. In this process, higher psychological functions cease to operate in an integrated manner, exhibiting reduced levels of activation and functioning and, in some cases, becoming rigid or even disintegrated (<xref ref-type="bibr" rid="B23">Silva, 2021</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B44">Zeigarnik, 1979</xref>).</p>
					<p>From this perspective, processes of psychological suffering must be understood as outcomes of ontogenetic development. This implies that disordered activity, like any other learning process, has its own history, whose social genesis must be investigated throughout the historical-cultural therapeutic trajectory. <xref ref-type="bibr" rid="B39">Vygotsky (2008b)</xref> emphasizes that psychological alterations and disturbances should be analyzed in light of human development, which synthesizes phylogenetic, ontogenetic, and sociogenetic aspects. Only through this approach can the historical-cultural clinical psychologist structure effective interventions to overcome psychological suffering. In this line of reflection, <xref ref-type="bibr" rid="B16">Lima and Oliveira (2023</xref>) highlight that singularity is expressed through the internalization of the material conditions in which human beings are situated. Accordingly, healthy personality is marked by flexibility, the ability to move between concreteness and the emotional world, the capacity to reconceptualize lived situations, and the pursuit of new motives for activity in the world when confronting psychological suffering.</p>
					<p>Historical-cultural clinical psychology not only possesses its own conceptual framework but also constitutes a psychological system in itself, with applicability to clinical practice as well as to other areas of psychological work. Nevertheless, in accordance with its Marxist principles, historical-cultural psychology cannot be reduced to theoretical speculation alone; it must be grounded in a harmonious relationship between theory and practice. Therefore, drawing on the experience of a clinical case, the discussion now turns to the practical foundations of Vygotsky’s historical-cultural clinical psychology.</p>
				</sec>
				<sec>
					<title>Experience Report: Practical Foundations of Historical-Cultural Clinical Psychology</title>
					<p>The psychotherapeutic process presented here, as previously described, took place at the APS of a public university in the state of Ceará, Brazil. In accordance with ethical guidelines for research involving human participants, selected sessions conducted over the 1-year course of historical-cultural psychotherapy were analyzed. Initially, the general characteristics of C.’s clinical presenting concerns are described. Subsequently, drawing on historical-cultural psychology, the clinical reasoning and interventions implemented throughout the therapeutic trajectory are outlined, as well as the ways in which changes in the configuration of the patient’s personality were observed.</p>
				</sec>
				<sec>
					<title>Characterization of the Presenting Concerns</title>
					<p>C. was a 23-year-old male who self-identified as Black and heterosexual and was a student in the Geography program at a public university in Ceará. He sought individual psychotherapy at the APS, reporting dorsal pain associated with episodes of intense conflict as his initial complaint. He also presented concerns related to self-concept and self-esteem, which negatively affected his romantic and work-related interpersonal relationships. Additionally, he reported difficulties within his family system, particularly tensions with his siblings related to his status as an adopted child.</p>
					<p>This initial clinical formulation reinforces the historical-cultural understanding that the individual in psychotherapy is a concrete subject, constituted through historical processes. According to <xref ref-type="bibr" rid="B20">Oliveira et al. (2022</xref>), such processes are often marked by psychosocial forms of violation that interfere with personality development. In C.’s case, it was essential to recognize how the implications of racism and heterocispatriarchy contributed to the constitution of his personality and conduct, fostering psychological suffering in his relationship with himself and with others.</p>
					<p>In historical-cultural clinical practice, understanding the presenting concerns goes beyond the observable phenomenon, adopting an investigative stance aimed at explaining the dynamic-causal basis of the complaint <xref ref-type="bibr" rid="B36">(Vygotsky, 2004</xref>). Accordingly, in the early stages of historical-cultural psychotherapy, strategies are commonly employed to situate the patient’s developmental history, allowing health and illness processes to be understood as learning processes. In C.’s case, the Time Dynamics instrument was used, which consists of a task proposed by the historical-cultural psychotherapist in which the patient records, in writing, significant life events, including those with both positive and negative emotional valence (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Oliveira &amp; Bandeira, 2019</xref>).</p>
					<p>This intervention revealed important aspects of C.’s psychic dynamics, particularly regarding both healthy and impaired dimensions of his activity. Historical-cultural clinical psychology is not a disease-centered approach, but rather a process aimed at promoting consciousness, with the purpose of strengthening transformation, development, and autonomy (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Lima &amp; Oliveira, 2023</xref>). Thus, in mediational actions, the historical-cultural clinician attends to the health-illness dialectic, identifying not only what is underdeveloped or constrained, but also what remains preserved, as healthier fossilized behaviors can serve as the basis for new generalizations of health.</p>
					<p>In C.’s case, some higher psychological functions, such as language and perception, appeared preserved. He was able to produce relatively coherent syntheses, comparisons, and reflections regarding his relationship with the world (<xref ref-type="bibr" rid="B32">Vygotsky, 1996b</xref>). In the Time Dynamics task, C. narrated his life in a relatively continuous flow, beginning in childhood, moving through adolescence, reaching adulthood, and then returning to adolescence. <xref ref-type="bibr" rid="B34">Vygotsky (1999a)</xref> conceptualizes human ontogenesis as a drama unfolding within a scenario, involving multiple characters and marked by emotional and cognitive elements that together form a unified whole. When employing strategies such as Time Dynamics, the historical-cultural therapist must attend to how these elements are articulated to produce the patient’s developmental history.</p>
					<p>C. reported that, since childhood, he had been subjected to intense demands and expectations from his family, despite never having had poor academic performance. He also highlighted experiences of bullying related to his appearance and gender expression, which negatively affected how he perceived, and continues to perceive, himself. During adolescence, this dissatisfaction intensified due to acne, contributing to social withdrawal. With the demands of adulthood, particularly those related to university and work life, the patient identified improvements in his communication skills and ability to work in groups.</p>
					<p>From a historical-cultural perspective, <xref ref-type="bibr" rid="B20">Oliveira et al. (2022</xref>) discuss how social expectations prescribe masculine behavior for men, teaching from early childhood that virility is a normative standard of gender performance. When these expectations are not met, socially sanctioned forms of violence may be directed at those who do not conform to heterocispatriarchal norms, often resulting in negative psychological consequences for subjective development.</p>
					<p>As a result of heterocispatriarchal demands and aesthetic standards shaping his personality development, C. reported experiences he identified as anxiety, which commonly manifested in behaviors such as biting his nails until bleeding and pulling out strands of hair. In subsequent sessions, as a strategy to support regulation during periods of intense stress, the Psychotherapy Notebook was introduced. Through this tool, C. was encouraged to write during and after moments of emotional dysregulation, describing his feelings, naming emotions, and identifying contexts and relationships that generated stress and anxiety. Historical-cultural studies indicate that Black individuals, in the context of racism, often have reduced access to high-quality mediational resources throughout development, which necessarily affects emotional regulation capacities when compared to White peers (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Cruz, 2024</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B18">Oliveira &amp; Lima, 2024a</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B26">Silva, 2019</xref>). This consideration was central to the clinical reasoning in this case, given the multiple psychosocial and structural vectors of violence involved in C.’s developmental history.</p>
				</sec>
				<sec>
					<title>Relationship with the Environment</title>
					<p>
						<xref ref-type="bibr" rid="B31">Vygotsky (1994)</xref> emphasizes that it is through the relationship with the environment that the dynamics of needs and motives acquire distinct contours, as the individual’s psychic organization is confronted with demands for the reorganization and restructuring of activity. In C.’s case, the initial complaint was closely related to the strategies he had developed to cope with stressors and potentially destabilizing elements arising from his interaction with the environment.</p>
					<p>As previously noted, C. was adopted, a factor that generated tensions within his family system, particularly with his older siblings, who attributed to him most of the responsibilities related to caring for their elderly parents. According to <xref ref-type="bibr" rid="B21">Schucman (2010</xref>), the logic of racism and racialized violence operates across the social fabric, including institutionalized practices such as adoption. Consistent with this understanding, C. reported that his siblings frequently reinforced his status as an adopted child while delegating to him the primary responsibility for caring for their mother, who had Alzheimer’s disease. He described experiencing contradictory emotions, simultaneously feeling a sense of duty toward his parents and perceiving the situation as unjust. Drawing on Vygotsky, <xref ref-type="bibr" rid="B29">Toassa (2009</xref>) notes that emotions also develop concretely; thus, depending on an individual’s social situation of development, emotional life is transformed. In C.’s case, the contradiction between “loving his parents” and “being compelled to occupy specific family roles” generated psychological discomfort and suffering.</p>
					<p>To investigate how affects and emotions were interfering in the patient’s psychic life, a historical-cultural activity known as the Life Scenario was conducted. This resource aims to examine how the patient’s relationship with the environment is configured, identifying networks of relationships and connections between the individual and the elements they bring forth, as well as connections among those elements (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Oliveira &amp; Bandeira, 2019</xref>). During this activity, C. demonstrated reflective capacity regarding his feelings toward family members and recognized the need to reconsider boundaries between himself and others, establishing new relational limits with significant others.</p>
					<p>Mediational activities in historical-cultural clinical psychology play a central role in promoting and strengthening zones of development and learning. Within a Vygotskian framework, they are understood as instruments and signs that mobilize rigidified and non-conscious aspects of the psyche, ranging from less developed psychological functions to the relationship between cognition and affect in the production of consciousness. Accordingly, the historical-cultural clinician is responsible for organizing mediations that promote health-that is, that enable the patient to generate new meanings, transform activity, and reshape personality development.</p>
				</sec>
				<sec>
					<title>Changes in Personality Configuration</title>
					<p>Over the course of historical-cultural psychotherapy, new personality configurations gradually emerged. Progress was observed particularly in the patient’s level of consciousness and self-reflection, including new ways of narrating himself and positioning himself in relation to others. Significant changes were also observed in his ability to establish boundaries in interpersonal relationships, both in academic settings and within his family system. Interpersonal relationships, together with sociogenetic aspects, constitute one of the primary sources of development (<xref ref-type="bibr" rid="B32">Vygotsky, 1996</xref>). Thus, patients such as C., whose life experiences are marked by devaluing social gazes, tend to develop diminished self-acceptance and, more broadly, a belief that they do not deserve affection or respect.</p>
					<p>Initially, clinical work focused on the most urgent symptoms presented by C., as historical-cultural psychology recognizes the need for basic conditions of psychic organization before addressing more complex demands (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Oliveira, 2023</xref>). In the present case, approximately 11 sessions, around 3 months of psychotherapy, were required for a noticeable reduction in the symptomatic syndrome. In addition to historical-cultural instruments such as Time Dynamics and Life Scenario, other interventions were necessary to support immediate regulation during crises, including breathing techniques, neurofeedback, assistance in restructuring daily routines to include physical activity, and guidance on time organization to improve academic and work performance.</p>
					<p>As new constructions emerged and the therapeutic bond strengthened, additional aspects of C.’s life became accessible for clinical work. One such aspect was his relationship with his girlfriend. He identified two central difficulties: i) difficulty remaining in a relationship with someone who demonstrated low motivation to build an independent personal and professional life, leading C. to state that he did not wish to “date his past self” (sic); and ii) difficulty engaging in sexual relations with his girlfriend, marked by feelings of shame regarding his own body during sexual activity.</p>
					<p>Clinical suffering, within a historical-cultural perspective, must be understood as psychosocial in origin, rooted in social relations at both micro- and macro-levels. <xref ref-type="bibr" rid="B12">Lima, Anauate, and Oliveira (2021</xref>) emphasize that personality construction in Vygotsky’s framework occurs through an external-internal dialectic, shaped by the individual’s singular relationship with the history of the social relations in which they participate. Accordingly, it would be inadequate to interpret C.’s personality processes without considering the psychosocial pressures he experienced as a Black man and as someone whose gender performance did not conform to heterocispatriarchal norms.</p>
					<p>Regarding the first issue, C. reported that during adolescence he was highly introspective and socially isolated, which impoverished the quality of his interpersonal relationships. He attributed this tendency to low self-esteem and a diminished self-concept. In the context of academic pressures, he exhibited low motivation to engage socially, preferring life arrangements that minimized interaction with others. Reflecting on the losses associated with this period, he compared his girlfriend’s current situation to his own past experiences.</p>
					<p>Regarding the second issue, C. reported that over nearly 1 year of relationship, attempts to engage in sexual relations with his girlfriend were unsuccessful due to emotions he described as fear and nervousness. Although he expressed desire for sexual intimacy, he perceived greater pressure from his partner for it to occur. He also identified the lack of a private space as an aggravating factor in their sexual difficulties.</p>
					<p>At this stage of the therapeutic process, since issues related to sexuality had become central to C.’s difficulties, the Time Dynamics activity was proposed again, this time focusing on sexual development experiences. Although initially resistant, C. agreed to engage in the activity with therapeutic support. During this mediational process, the patient disclosed experiences of sexual abuse and same-sex experiences during adolescence, which became central elements for subsequent clinical work.</p>
					<p>The development of C.’s personality was marked by a disconnection between cognitive elements and emotional aspects. This difficulty required compensatory mediational strategies aimed at reorganizing higher psychological functions, expanding understanding of his activity dynamics, and providing tools for self-regulation during acute crises. As <xref ref-type="bibr" rid="B39">Vygotsky (2008b)</xref> emphasizes, historical-cultural psychology seeks a harmonious relationship between cognition and affect, as these elements form an indivisible unity, interdependent for optimal psychological functioning.</p>
				</sec>
				<sec>
					<title>Intervention in the Zone of Sexual Development</title>
					<p>As previously discussed, L. S. Vygotsky developed a psychological system that proposes a new way of understanding the human psyche by articulating it with the historical analysis of the formation of mental processes. Among the various themes addressed in his theory, learning and human psychological development stand out. Regarding the relationship between learning and psychological development, the Soviet psychologist provided important clarifications by distinguishing learning experiences that have already been internalized from those that can be achieved through mediational support. Learning experiences that have already been consolidated were termed the level of actual development (<xref ref-type="bibr" rid="B32">Vygotsky, 1996</xref>), whereas the set of psychological resources that can still be developed was defined as the level of potential development.</p>
					<p>Patients enter historical-cultural psychotherapy carrying both healthy and maladaptive learning experiences, which must be identified and analyzed. However, historical-cultural psychotherapy does not stop at this point. Rather, it advances by organizing clinical mediations that enable individuals to move from a level of actual development marked by psychological dysregulation to a level of potential development characterized by healthier personality functioning. In C.’s case, traumatic experiences, such as sexual abuse, constituted a foundational element of his developmental process and had a profound impact on his subsequent learning related to self-concept, family relationships, and romantic partnerships.</p>
					<p>Within this context, historical-cultural psychotherapy intervened in C.’s zones of development through mediational activities aimed at enhancing consciousness regarding his sexual life. For example, the use of the Time Dynamics activity focused on C.’s sexual history revealed additional sexual experiences beyond the abuse, including a sporadic sexual experience with a girl during high school; the maintenance of sexual activity with a cousin for 3 years; and sexual involvement with a male peer at school. At this point, the patient reported that this was the first time he had spoken in depth about his sexual life and the first time he had elaborated on the abuse and his same-sex experiences. In other words, these contents were not fully integrated into his consciousness and had not yet been incorporated into his higher psychological functions. In addition, other intervention instruments were used to further mobilize the patient’s zone of sexual development.</p>
					<p>In order to examine how sexual learning experiences influenced the development of C.’s concepts, a new mediational activity was proposed: Concept Cards. According to <xref ref-type="bibr" rid="B17">Oliveira and Bandeira (2019</xref>), this technique aims to analyze how the psychological function involved in concept formation developed throughout the patient’s ontogenesis. In this intervention, the historical-cultural psychotherapist presents a set of cards containing written words that can be triangulated with a clinical issue experienced by the patient. In C.’s case, the cards included the following terms: heterosexuality, homosexuality, bisexuality, asexuality, monogamy, and polygamy, all of which were related to the dynamics of his sexuality.</p>
					<p>The purpose of this activity is for the historical-cultural clinical psychologist to explore the meanings and senses attributed by the patient to each of the words presented on the cards. In C.’s case, after completing the activity, he recognized that although he identified more strongly with a sexual orientation aligned with monogamous heterosexuality, there were potential future possibilities for constructing relationships outside this pattern. This intervention indicated that the organization of clinical-therapeutic mediations can contribute to the reconstruction of reified sexual identities shaped by the determinations of cisheteropatriarchy.</p>
				</sec>
				<sec>
					<title>Change in Personality Configuration</title>
					<p>Following the identification of the genetic roots of C.’s behavior and the interventions conducted within his zones of development, the initial symptoms began to diminish. Episodes of somatization became infrequent, in contrast to the early stages of therapy, when crises occurred at least once per week. In addition, in his relationships with family members and within the university context, C. adopted more active positions and began to take greater responsibility for decisions affecting him, indicating significant changes in the dynamics of his personality and activity.</p>
					<p>Revisiting the discussion on personality, its construction must be understood as a continuous process shaped by both interpersonal learning relationships and broader sociocultural factors. Although personality may present relatively rigid zones of change, these are not immutable. Transforming maladaptive configurations into healthier ones requires intentionally organized mediations aimed at expanding the patient’s repertoire of activity and processes of meaning-making (<xref ref-type="bibr" rid="B42">Vygotsky, 2024</xref>).</p>
					<p>Regarding new positions indicative of changes in C.’s subjective configuration, one illustrative example was a family meeting he organized in which he expressed how he felt in his relationships with family members and clarified what his role should be within the family dynamic. Furthermore, he proposed a new organization of family responsibilities, redistributing caregiving tasks among all siblings. This demonstrates that, through the appropriation of new signs and instruments, C. developed greater consciousness of reality and of his role in transforming it, thereby enhancing his capacity to modify his relationships.</p>
					<p>From this clinical perspective, the patient should not be understood as a stratified subject, but rather as a synthesis of biological factors, learning processes, and social determinations. Moreover, it is essential to assume the existence and necessity of unified functioning between cognition and affect (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Vygotsky, 2004</xref>). In C.’s case, it was possible to observe a state of division in psychic life, with cognitive and affective elements operating separately. On this topic, <xref ref-type="bibr" rid="B40">Vygotsky (2010)</xref> emphasizes the central role of lived experience (<italic>perezhivanie</italic>) in understanding the development of human personality. He also highlights that lived experiences are primarily composed of affective functions, such as emotions, imagination, and creativity. For this reason, they play a substantial role in the process of meaning production that occurs through activity, which in turn constitutes the foundation for personality construction. As demonstrated in the interventions described, historical-cultural clinical psychology seeks to integrate cognition and affect within the individual’s psychological dynamics in order to strengthen consciousness, activity, and higher psychological processes.</p>
				</sec>
				<sec>
					<title>The Discharge Process</title>
					<p>In historical-cultural clinical psychology, the resolution of clinical demands is associated with the development of autonomous self-management. This psychological resource is closely related to the extent to which individuals are able to appropriate sufficient mediational elements to develop activity in articulation with their environment. Mediational elements support individuals in living, attributing new meanings and senses, changing behavior, and evaluating reality, among other functions (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Lima &amp; Oliveira, 2023</xref>).</p>
					<p>C.’s discharge process occurred after 1 year of historical-cultural psychotherapy and was structured over three sessions conducted in a participatory manner, inviting the patient to engage in reflection, analysis, and evaluation. As a reduction in clinical demands and an increased capacity to cope with stressors were observed, the possibility of discharge was discussed with C., who agreed with this decision. At this stage, the elements that required attention during the final phase of the therapeutic trajectory were identified collaboratively.</p>
					<p>The patient highlighted issues he wished to address during the final sessions, such as anxiety related to the future and concerns about whom he could rely on after the conclusion of psychotherapy. To address these needs, historical-cultural clinical resources were employed, including Sentence Completion and the Life Scenario. While the Life Scenario was mediated to identify new healthy elements in the patient’s social situation of development and to promote systematic engagement with them, Sentence Completion was used to explore future-related anxieties through incomplete statements. Finally, it was emphasized that should the patient encounter similar or entirely different difficulties in the future, he could and should seek historical-cultural psychotherapeutic mediation again.</p>
					<p>Historical-cultural clinical psychology is a dialectical process, characterized by the constant movement of contradictory forces expressed in the complex relationship between human beings and historical materiality. Thus, from a historical-cultural standpoint, the promotion of development, transformation, and autonomy in clinical practice is shaped by both structural-level psychosocial processes and interpersonal-level dynamics. Consequently, moving beyond a traditional understanding of dialectics, the historical-cultural clinical approach is grounded in historical materiality.</p>
				</sec>
			</sec>
			<sec sec-type="conclusions">
				<title>Final Considerations</title>
				<p>Lev Vygotsky’s historical-cultural psychology constitutes a complex and comprehensive psychological system with applicability across a wide range of fields of psychological practice. Thus, it is a naïve mistake to reduce Vygotskian psychology to restricted domains of psychological knowledge. The experience report presented here contributed to a clearer elucidation of the relationship between theory and practice in historical-cultural clinical psychology. With regard to the clinical case discussed, it was observed that the patient’s presenting complaint evolved from the somatization of stress-related mediators toward the restructuring of a healthier personality, capable of synthesizing new learning processes.</p>
				<p>Within historical-cultural clinical psychology, the therapeutic setting is structured as a dialogical space of learning that integrates cognition and affect. Furthermore, clinical intervention within this approach is guided by a mode of clinical reasoning that begins with the investigation of the history and development of psychological suffering and proceeds to the selection of verbal techniques and mediational instruments aimed at expanding the patient’s underdeveloped zones of development. The need for further scholarly production in the field of historical-cultural clinical psychology is also emphasized, particularly studies that prioritize the articulation between theory and practice and the investigation of specific intervention strategies grounded in the theoretical and methodological assumptions of historical-cultural psychology. Finally, the importance of the research conducted by LADES at Universidade Estadual do Ceará is highlighted for its contribution to strengthening historical-cultural clinical psychology in Brazil.</p>
			</sec>
		</body>
	</sub-article>
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